Obesidade é o transtorno alimentar mais frequente na atualidade

Professor José Ernesto dos Santos da FMRP explica o que é transtorno alimentar e diz que a doença afeta toda a família do doente.

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Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Saúde sem Complicação desta semana conversa com o professor José Ernesto dos Santos, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, especialista em transtornos alimentares.

José Ernesto explica que transtornos alimentares são alterações na alimentação de uma pessoa que tem interferência com a sua saúde física ou na relação dela com as pessoas que a cercam. Normalmente, diz o professor, define-se transtorno alimentar como anorexia e bulimia e não se pensa em obesidade que também pode ser um transtorno alimentar. Obesidade tem um forte componente genético e um forte componente ambiental, social e cultural.

O pesquisador explica que bulimia é um quadro alimentar em que a pessoa não consegue controlar a ingestão de alimentos, come exageradamente e depois tenta compensar com vômitos, com o uso de laxantes e exercícios extenuantes. “É uma compulsão alimentar, acompanhada de um entristecimento por ter feito isso”.

Na anorexia ele nega a fome, não se alimenta. Começa a selecionar alimentos e segue num ritmo que praticamente não come nada.

Na anorexia nervosa e na bulimia você tem um componente  psicológico muito sério com origem na formação e no desenvolvimento da pessoa. “Já a obesidade talvez seja, atualmente, o transtorno alimentar mais frequente”.

O professor lembra que nos últimos dados divulgados pelo Ministério da Saúde a prevalência de pessoas com sobrepeso e obesidade na população brasileira aumentou muito; são quase 51% das pessoas adultas com sobrepeso e mais ou menos 18 ou 19% com obesidade. A anorexia nervosa é menos prevalente,  mas dos transtornos psiquiátricos talvez seja a mais prevalente. “Afeta mais meninas no início da adolescência. Para cada oito meninas com anorexia, existem dois meninos com a doença. A bulimia temos poucos dados de  prevalência, pois enquanto na  anorexia o portador não consegue esconder, porque fica magro e desnutrido, na bulimia ele consegue”.

Um dos graves problemas que afeta as meninas com anorexia é a falta de menstruação, consequência da falta de alimento, que altera a produção de hormônios. A desnutrição pode pode causar doenças cardíacas, como a arritmia, que é a causa mais frequente de óbitos entre as meninas com anorexia.  

José Ernesto diz que entre 1982 e 2003 o grupo que atende pessoas com transtornos alimentares no Hospital das Clínicas da FMRP, tratou 300 pessoas, dessas três foram a óbito. “Devemos lembrar que a anorexia provoca um transtorno familiar muito grande. O horário da alimentação que seria de encontro familiar agradável pode virar uma guerra na tentativa de fazer um adolescente se alimentar”.  

Já a bulimia traz dois problemas sérios, diz o professor. O uso exagerado de laxantes podem levar a alterações intestinais importantes e o vômito repetitivo provocar doenças esofágicas e alterações dentárias, essas em função do contato dos dentes com o ácido clorídrico do estômago. “Não é raro que o dentista faça o diagnóstico da bulimia, pois esse profissional é procurado para tratar o desgaste nos dentes, causado pela doença”.

Apesar da anorexia representar maior risco para a pessoa,  o professor alerta que a obesidade pode predispor a problemas seríssimos à saúde, como a hipertensão, diabetes, alterações da gordura no sangue que pode acelerar o processo de arterosclerose.

Comer compulsivamente, explica, é um pouco diferente da bulimia. “Hoje já existe um quadro clínico determinado para o compulsivo por comida, que que não está acompanhado do quadro compensatório. O número de pessoas com esse quadro está aumentando e aparentemente está associado a obesidade”.

O professor diz que a sociedade está desaprendendo a noção de fome e saciedade. “Fome é um processo neurohormonal, é um processo fisiológico normal. Em contraposição em consequência à fome vem a saciedade. A disponibilidade de alimentos tem feito a sociedade desaprender que é fome e muito mais o que é saciedade”, alerta

E completa: “Os motivos para se alimentar hoje são os mais diversos e muitas vezes não tem nada a ver com fome: ansiedade, angústia e satisfação, por exemplo”.

Segundo o professor, a mídia tem muita responsabilidade nesses novos hábitos. “A indústria de alimentação tornou alguns hábitos inadequados e com grande ingestão de gordura, sal e açúcar para seduzir a população”.

Para reverter essa novo forma de se alimentar o professor diz que é um processo longo. “Teremos que usar o mesmo volume de recursos que foi utilizado no marketing que mudou nossos hábitos para reverter isso”.

Deu como exemplo que só 18% de brasileiros comem hortaliças e frutas em quantidade necessária diariamente. “Mas não vemos propaganda de abobrinha, abóbora e chuchu, berinjela, maça, pera. Será necessário grande investimento do sistema de saúde  para reverter essa realidade”.

Lembrou que o tratamento de doentes de transtornos alimentares é caro e tem que ser multidisciplinar e que é fundamental que o sistema de saúde invista na formação de profissionais que trabalhem em grupo para tratar esses pacientes. “Nesses tratamentos a participação dos pais, da família é fundamental, pois no desenvolvimento desse adolescente que desenvolveu transtorno  teve algum problema na relação familiar que precisa ser trabalhado, especialmente com a mãe”.

Por Rosemeire Talamone

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