“Manhã com Bach” traz cantatas que celebram o Dia da Reforma

Programa apresenta obra inspirada no hino “Castelo Forte é Nosso Deus”, de Martin Lutero

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Duas cantatas escritas pelo compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) para celebrar a Reforma Religiosa do século 16 – que no dia 31 de outubro de 2017 completa 500 anos – foram apresentadas no programa Manhã com Bach que foi ao ar nos dias 28 e 29 de outubro de 2017, pela Rádio USP (93,7 MHz).

As cantatas são: Gott der Herr ist Sonn e Schild, “Deus, o Senhor, é sol e escudo” (BWV 79), apresentada pela primeira vez em 31 de outubro de 1725, em Leipzig, e Ein feste Burg ist unser Gott, “Um castelo forte é nosso Deus” (BWV 80), exibida em 31 de outubro de 1727, também em Leipzig, e inspirada no mais famoso hino do reformador Martin Lutero, que se tornou uma espécie de hino oficial da Reforma.

Ouça nos links acima a íntegra do programa.

A Reforma

A Reforma Religiosa do século 16, também conhecida como Reforma Luterana ou Reforma Protestante, completa no dia 31 de outubro de 2017 exatamente 500 anos.

Foi no dia 31 de outubro de 1517 que o monge agostiniano alemão Martin Lutero deu início a um movimento que contestava certas doutrinas pregadas pela Igreja na época – entre elas, a venda de indulgências, que eram documentos chancelados pelo papa que garantiam o perdão de pecados a quem pagasse certa quantia em dinheiro para a Igreja.

Lutero, um cristão sincero que, havia vários anos, buscava avidamente, através de obras de caridade e de penitências, uma forma de se justificar diante de Deus e ganhar a salvação eterna, encontrou finalmente essa justificação ao ler a carta de Paulo aos Romanos, onde o apóstolo escreve que “o justo viverá pela fé” (Romanos 1:17)

É pela fé em Cristo, e não por obras, que o homem é justificado e salvo. Essa descoberta encheu Lutero de força e determinação para lutar contra o que considerava erros da Igreja, como a venda de indulgências.

No dia 31 de outubro de 1517, ele afixou, na porta da igreja do castelo da cidade de Wittemberg, na Alemanha, 95 teses, com o objetivo de promover um debate teológico. Escritas em latim, essas teses foram logo traduzidas para o alemão e em poucos meses eram conhecidas em toda a Alemanha e na Europa.

Era o início do que ficou conhecido como a Reforma Religiosa do século 16, um dos eventos mais marcantes da história do Ocidente e que, agora, chega ao seu quinto centenário.

Bach, que nasceu no leste da Alemanha, onde a Reforma fora introduzida pelo próprio Lutero 150 anos antes, era de uma família luterana e trabalhou para a Igreja luterana durante a maior parte da sua vida profissional.

Dele, estão preservadas duas cantatas compostas para comemorar a Reforma Religiosa do século 16, que foram apresentadas no programa dos dias 28 e 29.

Lutero e a música

Lutero não realizou somente uma reforma religiosa. Mais do que isso, ele deflagrou uma verdadeira revolução artística na Europa, ao incentivar a prática da música na Igreja.

Para Lutero, a música era quase tão importante quanto a teologia. Ele afirmava que a música era um eficiente meio de fazer o ouvinte aprender as verdades do Evangelho. Por isso, promoveu a criação de coros nas igrejas e determinou que os fiéis cantassem durante o culto.

Essas práticas fizeram com que a música se disseminasse pela Alemanha de uma forma sem precedentes. Até o fim do século 16, haviam sido formados centenas de coros nas igrejas reformadas espalhadas pelo território alemão.

A revolução de Lutero na música está diretamente relacionada com a obra de Johann Sebastian Bach. A reforma luterana incentivou de tal forma a música que, a partir do século 16, se formou uma forte tradição musical na Alemanha, que culminará no século 18 com a obra de Bach.

Portanto, todos temos uma imensa dívida de gratidão para com Lutero e com a Igreja Luterana, porque foi nesse meio e graças a ele que surgiu a música maravilhosa de Johann Sebastian Bach.

A Reforma e a burguesia alemã

É certo que a Reforma luterana não foi bem-sucedida somente por razões religiosas. Houve também interesses econômicos e políticos que impulsionaram o movimento.

Em seu livro Un Destin – Martin Luther, “Um destino – Martin Lutero”, o historiador francês Lucien Febvre, fundador da École des Annales, uma das mais influentes escolas historiográficas do século 20, mostra que, em começos do século 16, na Alemanha, os burgueses – e os mercadores, sobretudo – começavam a ganhar muito dinheiro. “E a esses homens a quem a fortuna sorria deviam parecer extremamente importunos ou hostis as tradições de um mundo que não lhes concedia um lugar de honra e os princípios de uma moral feita para os pobres”, escreve Febvre. “Eles, então, sacodem esse jugo impacientemente, discutem a sua legitimidade.” Daí o apoio dessa classe de burgueses à Reforma luterana.

Mas Febvre sabe discernir entre as condições da época e os anseios de Lutero. Em meio aos interesses da burguesia, sobressai a sinceridade e a devoção do reformador. Sinceridade e devoção que estão expressas nos mais de 30 hinos compostos por Lutero. Um deles é Ein fest Burg ist unser Gott, “Um castelo forte é nosso Deus”.

Conta-se que Lutero, nos momentos mais difíceis da sua vida, cantava esse hino, que diz que Deus é fortaleza para o cristão. Um desses momentos se deu em 1521, quando foi convocado pelo imperador Carlos V para a Dieta de Worms, para que renegasse suas ideias contra a Igreja.

Lutero se recusou a fazer isso e, para não ser morto, teve que se refugiar no castelo de Wartburg, em Eisenach – cidade natal de Bach -, onde ficou pouco mais de um ano e onde concluiu a tradução da Bíblia para o alemão.

Esse hino de Lutero tão marcante inspirou Bach a compor a  cantata Ein feste Burg ist unser Gott, “Um castelo forte é nosso Deus” (BWV 80).

Os primeiros versos dessa cantata reproduzem literalmente o texto de Lutero:

Ein feste Burg ist unser Gott,                                          Um castelo forte é nosso Deus

Ein gute Wehr und Waffen;                                            Uma boa defesa e arma

Er hilft uns frei aus aller Not,                                        Ele ajuda a nos libertar de toda aflição

Die uns itzt hat betroffen.                                               Que até agora nos atingiu

No programa, a cantata Ein feste Burg ist unser Gott, “Um castelo forte é nosso Deus” (BWV 80), “hino oficial da Reforma Religiosa do século 16”, foi interpretado pelo Collegium Vocale de Gent, na Bélgica, sob a regência de Philippe Herreweghe. Já a cantata Gott der Herr ist Sonn und Schild, “Deus, o Senhor, é sol e escudo” (BWV 79), teve interpretação do Coro Monteverdi e do English Baroque Soloists, sob a regência de Sir John Eliot Gardiner.

O programa Manhã com Bach vai ao ar sempre aos sábados, à 9 horas, com reapresentação no domingo, também às 9 horas, inclusive via internet, pela Rádio USP (93,7 MHz).

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