“Manhã com Bach” traz cantata com letra de poetisa alemã

Programa apresenta também obra para viola da gamba e peças do livro 2 de “O Teclado Bem Temperado”

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A poetisa alemã Christiane Mariane von Ziegler (1695-1760) é a autora da letra da cantata Auf Christi Himmelfahrt allein, “Somente na Ascensão de Cristo” (BWV 128), apresentada no programa “Manhã com Bach” que foi ao ar nos dias 7 e 8 de outubro de 2017 pela Rádio USP (93,7 MHz). O programa apresentou também a Sonata em Sol Maior para Viola da Gamba e Cravo (BWV 1027) e duas peças do livro 2 de O Teclado Bem Temperado: o Prelúdio e Fuga Número 16 em Sol Menor (BWV 885) e o  Prelúdio e Fuga Número 17 em Lá Sustenido Maior (BWV 886). Ouça nos links acima a íntegra do programa.

Christiane Mariane era uma mulher avançada para sua época. Divorciada duas vezes, ela era o centro cultural da sociedade de Leipzig na época em que Bach chegou à cidade, em 1723. Tocava piano, flauta, cravo e alaúde e transformou sua casa num salão literário e musical, muito frequentado pelos artistas da cidade. Apoiada pelo filósofo e escritor Johann Christoph Gottsched, foi a primeira mulher a se tornar membro da Deutsche Gesellschaft, a sociedade literária liderada por Gottsched. Em 1733 ela recebeu o título de Poeta Laureatus e em 1741, aos 45 anos, casou-se pela terceira vez. Ela era filha de Franz Conrad Romanus, que tinha sido prefeito de Leipzig e foi preso por irregularidades administrativas.

Em 1724, Bach solicitou a ela textos para cantatas. Graças a isso, hoje nós temos nove cantatas de Bach com letra composta por Christiane Mariane von Ziegler.

Assim como acontece com os demais libretistas conhecidos das cantatas de Bach, os textos de Christiane Mariane não têm grande brilho literário.

Na visão do jornalista suíço Franz Rueb, autor do livro 48 Variações sobre Bach, a imperfeição do texto era conveniente para o compositor, que precisava da maior liberdade possível para sua criação musical, podendo até mesmo mudar, tirar ou acrescentar versos do poema.

Rueb cita o poeta alemão Goethe, que escolheu Carl Friedrich Zelter, um compositor menos inspirado, para a transposição musical de seus poemas. “Goethe recusou, para essa tarefa, o genial Schubert, porque nesse caso a sua obra ficaria schubertiana demais, ao contrário de Zelter, que subordinou sua música aos textos de Goethe.”

Da mesma forma, ao utilizar textos imperfeitos, sem grandes ambições literárias, Bach garantia liberdade para compor.

É por isso que, como afirma Franz Rueb, não há grandes poetas entre os autores com quem Bach trabalhou. Entre eles estão o poeta da corte de Weimar Salomon Frank, o teólogo Erdmann Neumeister, o bibliotecário da corte de Darmstadt Georg Christian Lehm e o advogado e recolhedor de impostos de Leizpig Christian Friedrich Henrici, conhecido como Picander.

Todos eles, assim como Christiane Marianne von Zieler, possuem a mesma característica de não terem brilhado como poetas. Mas, como afirma Franz Rueb, não é o sentido dos textos das cantatas de Bach que nos chama a atenção. “A música de Bach é que nos arrebata, nos toca, nos comove e nos enleva, deitando por terra todo o caráter duvidoso desses textos de cantatas.”

Como acrescenta Rueb, se não fossem as cantatas de Bach, nada faria com que Christiane Marianne von Zieler fosse citada hoje.

No programa, a cantata Auf Christi Himmelfahrt allein, “Somente na Ascensão de Cristo” (BWV 128), uma das nove cantatas de Bach que têm letra da poetisa alemã Christiane Mariane von Zieler, foi interpretada pelo Leonhardt-Consort, sob a regência de Gustav Leonhardt, e pelo Concentus Musicus Wien, sob direção de Nikolaus Harnoncourt.

Sonata em Sol Maior para Viola da Gamba e Cravo (BWV 1027), de Johann Sebastian Bach, teve interpretação de Paolo Pandolfo, na viola da gamba, e Markus Hünninger, no cravo.

O Prelúdio e Fuga Número 16 em Sol Menor (BWV 885) e o Prelúdio e Fuga Número 17 em Lá Sustenido Maior (BWV 886) – duas peças publicadas no livro 2 de Das wohltemperierte KlavierO Teclado Bem Temperado – foram executados por Gustav Leonhardt.

 

 

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