"Que se aumente a transparência", afirmou o reitor

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Leia, na íntegra, o discurso do reitor João Grandino Rodas na cerimônia de posse.

 

Non ministrari, sed ministrare

 

Há 45 anos tornava-me aluno da USP, ingressando por duas portas, a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras e a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Há 40 anos conclui os cursos em ambas e há 39 anos tornei-me parte do corpo docente da Faculdade de Educação e da Faculdade de Direito. Nunca pensei em chegar a diretor da Faculdade de Direito e muito menos a reitor da Universidade. Ao ser escolhido para o cargo máximo da Universidade, perguntei a mim mesmo com que finalidade o havia alcançado e a resposta que vislumbrei, inspirada no velho brocardo non ministrari, sed ministrare* , foi: para servir. 

O reitor nada mais é do que primus inter pares**, cabendo a ele exercer, mais do que qualquer outro, o papel de propositor e conciliador, fazendo com que todos os segmentos da universidade possam nele vir a confiar, cada vez mais.

Com grande respeito pela Universidade e humildemente, venho para dar minha parcela de contribuição, como anteriormente já o fizeram outros reitores, aos quais todos nós somos agradecidos.

Possuo uma detalhada plataforma de ação. Entretanto, o sucesso de sua implementação depende da melhora do nível de convivência entre os segmentos universitários, bem como de sensível aumento de motivação.

Universidade é, por definição, diversidade e debate de idéias.  Há mais de 10 anos, contudo, instalou-se o embate de pessoas, com calendário prefixo e com ocorrência cada vez mais frequente. Muitas vezes rareou o respeito mínimo indispensável entre os segmentos da Universidade, tendo a força/violência sido utilizada de maneira corriqueira, gerando um pernicioso círculo vicioso,  tanto para a Universidade, quanto para todos os seus componentes. Não se tratando de julgamento, mas simplesmente de uma constatação, não cabe agora, prescrutar qual segmento foi responsável por desencadear tal círculo, nem mesmo indagar da justeza ou não dos motivos que o levaram a isso.  Sabe-se que ambos os lados, embora não neguem o uso da força/violência apresentam motivos justificadores ponderáveis: um lado afirma que a utiliza por ser inexistente o diálogo; para chamar atenção para as suas reivindicações; ou por acreditar ser impossível a mudança de outra maneira O outro lado, por seu turno, se fundamenta: nas regras do Estado de direito; no dever de ofício; na proteção das pessoas e bens; e na necessidade de manter as instituições públicas em funcionamento.

A Universidade não pode mais conviver com tal estado de coisas, entre outras razões, por ser a negação de seus princípios mais sagrados; por comprometer seus resultados; por enxovalhar o ideal universitário; e por desmerecer, irremediavelmente, a universidade aos olhos da sociedade.

A saída para tal impasse e a instalação de um círculo virtuoso é possível, desde que alguns pressupostos básicos venham a existir. Que se aumente a transparência, que se instale um diálogo real; que se busquem consensos específicos; e, acima de tudo, que impere a boa fé. Isso pode ser feito, sem que cada qual desista de seus dos modelos ideais, que pretendem para a universidade, e, mesmo, de suas ideologias.

A tarefa mais importante do reitor é propiciar as condições para tanto. Com a colaboração dos demais é possível dar-se inicialmente pequenos passos que irão aumentando e se firmando cada vez mais. Creio não haver outra perspectiva possível: a universidade já desperdiçou demasiada energia; os segmentos já estão cansados após tantos entreveros; e a sociedade não admite mais! Chega da violência, que sempre gera violência! É importante rememorar, entretanto que todos os segmentos da universidade devem renunciar ao uso da força, não sendo lógico, nem factível exigir que somente o outro lado desista dela.

Farei todo o possível para que os argumentos de ausência de diálogo, de falta de transparência e de não participação deixem de ser usados. Com isso haverá autoridade moral para instar que medidas drásticas não mais sejam tomadas abruptamente, sem que tenha havido qualquer esforço sério com vistas à resolução dos diferendos. 

A segunda problemática resume-se na urgente necessidade de se incrementar a motivação e o ânimo dos três segmentos básicos da Universidade.

A USP, que possui 76 anos se considerarmos a data de sua fundação e 182, levando em conta o momento de estabelecimento da mais velha de suas unidades, é grande em todos os seus números: de faculdades, institutos e museus; de títulos concedidos; de pesquisas feitas etc. No momento, contudo, importa relembrar o número de seus componentes que ultrapassa cem mil pessoas, entre alunos, professores e funcionários técnico-administrativos.

É característica da sociedade hodierna, a ênfase nos direitos que cada um possui. Embora tal tendência seja positiva, se exacerbada pode levar ao esquecimento de que a outra face da moeda e ter obrigações. A universidade além de não ser imune à tendência referida, por vezes a acolhe em alto grau.

É consabido que as condições dos docentes, discentes e funcionários técnico administrativos não são perfeitas e necessitam ser melhoradas. Entretanto, comparativamente, estão entre as melhores do País e por vezes, em seu aspecto total, superam as existentes na iniciativa privada. Concordo dever ser permanente a luta pelo incremento salarial, de condições de trabalho ou de ensino, de permanência estudantil etc. Entretanto, o ânimo e o interesse pelo trabalho, de cada um, não deve ser diminuído.

Os números da Universidade; sua posição nos rankings nacionais e internacionais; a grande valorização de sua marca, tanto no Brasil quanto no Exterior, são provas evidentes que, ao menos a grande maioria de seus componentes, cumprem a contento sua obrigação. Entretanto, nosso contingente de mais de cem mil pessoas, se se motivasse, se se imbuísse da importância multiplicativa de seu esforço para a sociedade brasileira; se levasse em conta que trabalhar em uma universidade não é mero emprego, certamente se esforçaria ainda mais. Os docentes e os funcionários técnico administrativos, são pagos pela sociedade para exercer um múnus público impar; e os discentes, bolsistas da mesma sociedade, devem se orgulhar de poder estar em local almejado e não alcançado por milhares e milhares de brasileiros paulistas ou não.

A plataforma da gestão que ora se inicia, já havia sido delineada em conjunto pelo Compromisso USP, por ocasião da campanha de sucessão reitoral, tendo sido aperfeiçoada nesses mais de dois meses do período de transição. Ela, que toca, de maneira pragmática, nos pontos acadêmicos e administrativos cruciais para a universidade, sempre com vistas ao factível nos próximos quatro anos, será especificada frente aos órgãos universitários competentes, tornando-se pública.  Não a comentarei neste momento solene. Quero com isso enfatizar que de nada adiantará a melhor das plataformas, se não se restabelecerem os níveis mínimos de convivência universitária, se não se valorizarem os deveres de cada qual, se não for incrementada a motivação.

Do alto de meus 45 de USP, mais do que esperanças, tenho certezas reais de que a maioria será sensível ao clamor, de que ora sou mero intérprete, e de que trilharemos novos e melhores tempos.

Agradeço cordialmente a todos os que estão aqui neste entardecer memorável. Lembro com respeito de todos que, no decorrer de minha existência, contribuíram para minha formação. Fico grato pelas palavras do colega Professor Nei Fernandes de Oliveira Júnior, diretor da Escola de Engenharia de Lorena, que me saudou calorosamente.

Podem contar comigo, pois entre meus defeitos, não figuram a falta de coleguismo, a inação e a pusilanimidade.

João Grandino Rodas

* Não ser servido, mas servir

** Primeiro entre iguais

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