Entrevista: Para reitor da USP, universidade é liberal do portão para fora

Entrevista publicada no Portal UOL, em 08/09/14.

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“Estou ótimo”, é a primeira frase do reitor Marco Antonio Zago, da USP (Universidade de São Paulo). Motivos para desânimo não lhe faltariam: a instituição enfrenta a mais longa greve de sua história e seu pior momento financeiro. No entanto, Zago estava sorridente e falou como se estivesse dando uma aula, em que não quer deixar dúvidas.

Desde o começo de agosto, o reitor improvisa seu escritório em outras unidades da USP, porque o prédio da administração se encontra bloqueado por grevistas. Na semana em que conversou com o UOL, por exemplo, seu gabinete itinerante estava na sede da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), perto da entrada principal da Cidade Universitária, na zona oeste de São Paulo.

De lá, explicou os planos de recuperação financeira para a universidade e só mudou (um pouco) o tom de voz ao comentar dois assuntos: algumas ações dos grevistas que ele considera vir de um grupo violento e minoritário e ao se defender sobre as críticas de que conhecia a real situação financeira da USP já que fez parte da gestão anterior (João Grandino Rodas, 2010 – 2013).

“A universidade é muito conservadora, não a USP, mas as universidades. São conservadoras quando se trata do seu próprio pedaço. Vemos esse fenômeno, pessoas, grupos, associações que pregam liberalidade mas que atuam de maneira conservadora na universidade. Precisamos mudar, precisamos nos atualizar” afirmou o professor que assumiu o cargo em janeiro de 2014.

Abaixo, alguns trechos da entrevista:

UOL Educação – A USP apresentou o PIDV (Programa de Incentivo à Demissão Voluntária). O que acontece se não houver adesão?

Marco Antonio Zago – Neste momento, estamos otimistas. A opinião de grande número de servidores é de que vai haver adesão, grande número deles tem manifestado interesse. Mas, este plano é benéfico em qualquer nível de aceitação que ele tenha entre os servidores. Minha expectativa é de 100% de adesão, entre 1.700 e 1.800.

UOL – E qual seria a projeção de economia com o programa de demissão voluntária?

Zago – De diminuição da folha de pagamento, entre 6 e 7%.

UOL – Essa medida tiraria a USP da situação em que se encontra hoje, de gastar 105% do seu orçamento com salários?

Zago – Falamos de um conjunto de medidas: PIDV, redução de jornada [de 40 para 30 ou 20 horas semanais, com respectiva diminuição salarial]. Depois, temos a questão da vinculação dos hospitais à Secretaria [Estadual] de Saúde: um que já está resolvido [Bauru] e outro que vai ser votado ainda [Hospital Universitário, em São Paulo].

[O impacto do PIDV] deve começar a partir de fevereiro [de 2015, quando o programa deve começar] e se estende pelos próximos cinco ou seis anos.

UOL – Na sua opinião, o que aconteceu? Nem funcionários nem professores compreenderam a situação e entraram em greve…

Isso merece um estudo sociológico… Mas há razões [no sentido de justiças, de razões corretas] de todos os lados. A reitoria dizendo “não podemos porque não temos recursos, não é racional aumentar nosso comprometimento”. Por outro lado, os sindicatos fazem seu papel: reivindicar a correção salarial.

Eu me revoltei e continuo revoltado contra atitudes ilegais assumidas não pela comunidade da USP, não pela comunidade dos professores, não pela comunidade dos estudantes da Universidade de São Paulo, que são 90 e tantos mil, nem pela comunidade dos servidores. Eu me revolto contra atitudes agressivas assumidas por pequenos grupos, aqui, ativistas ideológicos e assim por diante. [Nesse momento, o reitor sobre o tom de voz]

Por exemplo, bloquear prédios, tirar pessoas de dentro de sala de aula e medidas desse tipo. Há uma clara diferença entre aceitar a greve e aceitar atitudes que dizem respeito, inclusive, a sentenças judiciais.

UOL – Algo o surpreendeu nessa greve?

Zago – Eu fiquei surpreso quando nós propusemos as medidas corretivas e os sindicatos se puseram contra as medidas corretivas. Por exemplo, contra o PIDV. Neste aspecto, eu não entendo a atitude daqueles que se põem contra ele. Usam argumentos que são absolutamente insustentáveis a respeito do desmonte da universidade, a respeito das necessidades insubstituíveis desses servidores que serão perdidos.

Veja, a universidade tem hoje 17 mil servidores e 6 mil docentes. É uma proporção desconhecida na grande maioria das instituições fora do país. Além disso, nesses últimos quatro anos nós contratamos 2.400 servidores e 396 docentes. Nesse momento, nós temos necessidade de contratação de docentes para cursos que foram instalados.

Quando eu falo isso, é muito comum dizerem que eu estou desrespeitando os servidores, que estou desvalorizando os servidores. Absolutamente.

UOL – Se a USP tem 17 mil servidores e cerca de 6 mil docentes, há quase três servidores por docente. Que proporção o senhor consideraria mais saudável?

Zago – A Universidade de Toronto, por exemplo. Eu a uso porque temos muita proximidade: lá a proporção é de 12 mil docentes para 6 mil servidores. É uma boa universidade para se fazer comparação porque tem em torno de 87 mil alunos, tem três ou quatro campi.

Não estou advogando que nós temos que ter essa proporção. Só estou mostrando a distância entre uma e outra. Só espero que não comecem a dizer que quero reduzir para a relação de dois docentes para um servidor.

[Nesse momento, ele se exalta]

Nessa época, o que não falta é imaginação no sentido de interpretar o que você diz e estender o que você diz. Você fala isso e a pessoa interpreta de maneira exótica e estende de maneira surpreendente. Ás vezes, as pessoas fazem maldosamente.

Nesta manhã já circularam 40 mensagens dizendo que a USP vai desvincular seus museus.

UOL – E a USP pretende desvincular os museus?

Zago – Absolutamente [não]. Os museus universitários estão muito bem. O que gastamos com museu é muito pouco em relação aos dois hospitais [por exemplo]. Os quatro museus juntos não gastam nem 10% do que gastam os hospitais.

UOL – O senhor falou em necessidade de docentes para os novos cursos. Há uma estimativa?

Zago – Não temos número. Nós não fizemos isso com dedicação, atenção, detalhes que isso exige porque nesse momento não temos nenhuma chance de fazer contratação. Não vamos perder tempo com algo que nós sabemos que é muito importante, mas que não teria nenhuma chance de solução agora.

UOL – A USP deu um passo maior que a perna ao expandir com esses cursos?

Zago – Não.

[Responde de pronto e faz certo silêncio]

Veja, até 2010 estávamos bem [quando havia acabado a expansão]. Por que a USP gastou tanto com recursos humanos? Um dos motivos está aqui: aumento do número de técnicos-administrativos. E outro ponto está aqui: isto é o aumento do salário-base.

UOL – Como o senhor reage à crítica de que fez parte da administração passada e de que sabia a situação da USP?

A informação que recebemos era de que todos os servidores iam ter promoção e o comprometimento não passaria de 82% do orçamento. Claro que votei a favor. Professor Vahan, que era pró-reitor de pós-graduação, votou a favor. O vice-reitor, Hélio Nogueira, votou a favor. Praticamente todo o Conselho Universitário, todos votaram a favor. O professor Cardoso, que depois foi candidato, foi a favor. Os funcionários se abstiveram.

Essa história de que todo mundo sabia tudo… Nós sabíamos o que foi dito no Conselho Universitário.

UOL – É difícil entender, como os pró-reitores não sabiam disso?

Zago – Os pró-reitores têm uma função específica. Como pró-reitor não me competia. A minha responsabilidade era gestão da pesquisa da universidade.

Por isso, que, diante dessas dúvidas, nós nomeamos uma comissão de sindicância. Não partimos do pressuposto de qualquer tipo de ilegalidade. Queríamos essa história contada com racionalidade. Finalmente, elaboraram um relatório.

UOL – Depois desses oito meses, o senhor se arrependeu de ter virado reitor da USP?

Zago – Não, pelo contrário. Eu me sinto alegre, em primeiro lugar, porque tenho um grupo que trabalha comigo e formamos realmente uma grande equipe. E também porque estamos convencidos de que a universidade é talvez o maior patrimônio de ciência, tecnologia e ensino do país. De longe, a USP tem uma tradição e um patrimônio, físico e de pessoas, que é muito grande. Acho que é bom poder trabalhar para preservar isso.

A universidade é muito conservadora, não a USP, mas as universidades. São conservadoras quando se trata do seu próprio pedaço. Vemos esse fenômeno, pessoas, grupos, associações que pregam liberalidade mas que atuam de maneira conservadora na universidade. Precisamos mudar, precisamos nos atualizar.

Quero participar disso na USP. Estou me divertindo.

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(Matéria publicada no Portal UOL, em 08/09/14)

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