Em entrevista, pró-reitora fala sobre diretrizes para criação de cursos

Com o objetivo de manter e ampliar a excelência adquirida pela USP, Conselho Universitário aprova documento que estabelece princípios gerais para a criação de novos cursos e Reitoria sugere “reflexão” das unidades sobre a graduação.

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Com o objetivo de manter e ampliar a excelência adquirida pela USP, Conselho Universitário aprova documento que estabelece princípios gerais para a criação de novos cursos e Reitoria sugere “reflexão” das unidades sobre a graduação

Ainda está longe da realidade a meta estabelecida pelo Plano Nacional de Educação, há dez anos, para que o Brasil tivesse na atualidade 30% da população entre 18 e 24 anos de idade matriculada no ensino superior.

Embora venha aumentando, esse porcentual chega hoje a apenas 13,9%, sendo que 75% das matrículas estão nas instituições particulares. A USP tem contribuído para a expansão do ensino superior público paulista – com aumento de 40% nas vagas e 85 novos cursos na última década –, mas a Administração Central da Universidade entende que o processo não pode ser continuado indiscriminadamente, sob pena de prejuízos e desequilíbrios.

“A USP compreende sua responsabilidade social, mas deve se preocupar ainda mais com o que conquistou ao longo desses mais de 75 anos, que é ter se tornado a melhor universidade da América Latina”, diz a pró-reitora de Graduação, Telma Zorn, lembrando que o financiamento desse trabalho custa muito à sociedade. “A expansão tem que ser cuidadosa, e a preocupação é o compromisso com a manutenção dessa qualidade.”

Já existem várias propostas de criação de novos cursos aprovadas no Conselho de Graduação (CoG), mas a orientação do reitor João Grandino Rodas é que, antes disso, a Universidade deve fazer uma reflexão sobre a graduação. “É importante que mesmo os cursos tradicionais verifiquem se é o caso de mudar, melhorar e até mesmo descontinuar certos cursos ou substituí-los”, declarou Rodas à imprensa na semana passada.

Em sua reunião do dia 14 de setembro, o Conselho Universitário (Co) aprovou um documento que estabelece princípios gerais para a criação de novos cursos. O texto já havia sido anteriormente aprovado pelo CoG e é fruto de discussão iniciada no primeiro semestre pela Pró-Reitoria de Graduação com as unidades. Telma Zorn ressalta que o documento não é normativo, mas contém diretrizes que devem orientar o processo. Os cinco itens principais incluem reestruturação de cursos, discussão sobre projetos pedagógicos e identificação das causas da evasão. Cabe agora às unidades dar sequência aos debates.

Vagas

Ao mesmo tempo em que salienta que algumas unidades já discutem internamente alterações curriculares, a pró-reitora reconhece que, em outras, podem haver resistências e críticas. “Apresentei uma reflexão no CoG dizendo que muitas vezes era mais prático criar um novo curso do que refletir sobre o já existente. A maioria concordou. É importante pensar em inovação, mas muito mais importante é o cuidado com aquilo que já existe”, afirma.

Telma Zorn considera que estabelecer uma cultura de autoavaliação consistente – processo já iniciado na gestão anterior – é o maior desafio da Pró-Reitoria. Uma das dificuldades é adotar parâmetros de avaliação para a graduação, debate que, aliás, não é apenas da USP, mas vem sendo travado no mundo inteiro. Na graduação, esses parâmetros são mais difíceis de definir do que em áreas como a pesquisa ou a pós, em que os indicadores (número de trabalhos publicados, rankings internacionais etc.) já estão mais estabelecidos.

Para a pró-reitora, essa definição exige uma visão mais interna, vinda de professores e alunos. Até o final de outubro, um grupo de trabalho deve entregar uma proposta com sugestões de parâmetros. A Pró-Reitoria quer também incentivar o maior uso do Sistema Integrado de Indicadores da Graduação (Siga), em que docentes e alunos podem inserir opiniões e percepções relativas aos cursos. A participação ainda é considerada baixa.

Telma Zorn sabe que enfrentar o debate sobre reformular carreiras e diminuir o número de vagas em algumas áreas não será fácil nem simples. Para a professora, há casos de cursos que foram criados porque a demanda naquele momento era alta, ou acreditava-se que seria no futuro. A expectativa acaba não se confirmando e como consequência criam-se desequilíbrios na relação com o número de docentes.

A pró-reitora acredita que essas vagas não devem ser extintas, mas podem ser remanejadas ou substituídas. “Com o tempo, temos que ser criativos e encontrar soluções, de maneira desarmada”, diz. O documento cita ainda a discussão a respeito de “cursos de baixo impacto social” – que na visão de Telma Zorn seriam melhor definidos com a troca de “social” por “econômico”. “Não é que a USP vá deixar de ter cursos que uma universidade privada jamais financiaria. A USP tem obrigação social de manter cursos que seriam muito caros ou inviáveis fora dela”, afirma. A questão central, reforça, é o debate sobre reestruturação e reformulação.

Outro tema a enfrentar é a baixa procura – e mesmo a ociosidade de vagas – nos cursos de licenciatura. “E uma vaga ociosa é muito cara para a Universidade”, pondera Telma Zorn. “A USP faz um esforço imenso para criar vagas em licenciatura, mas não consegue atrair candidatos, porque os jovens sabem que a carreira de professor é muito difícil e o salário é muito baixo.” Dar novas orientações e fazer transposições são possibilidades no horizonte.

Infraestrutura

Identificar as causas da evasão escolar para reduzi-la é outra ênfase apontada no documento. A USP quer criar um questionário para ouvir dos próprios alunos as suas razões. Para a pró-reitora, há fatores como falta de vocação ou necessidade de se dedicar mais ao trabalho para se manter financeiramente. “Já temos algumas informações e sabemos que, quanto mais competitivo o curso, menor a evasão. Essa relação é direta”, diz.

Também já se sabe que o problema é maior nos cursos noturnos. Quanto a eles, uma das ações prevê mais apoio em infraestrutura (melhorias em áreas como segurança, iluminação, alimentação, acesso a bibliotecas etc.), enquanto outra vertente é incentivar o uso da internet, com mais exercícios a distância, e de recursos de informática em sala de aula.

Para a pró-reitora, uma interpretação superficial sugeriria que a USP está se lamentando por não ter qualidade. “Não é isso. A qualidade é uma conquista, mas também pode sumir muito rápido. Mantê-la é um trabalho continuado, não se pode descuidar”, conclui.

Medidas aprovadas

De acordo com o documento aprovado pelo Conselho Universitário da USP no dia 14 de setembro, o aprimoramento dos cursos de graduação deve considerar os seguintes pontos:

1) Análise de objetivos e currículos oferecidos, bem como de sua adequação ao número de vagas oferecidas.

2) Discussão sobre os cursos de baixa demanda, evidenciada pela relação candidato/vaga na Fuvest, e cursos de baixo impacto social, considerando-se sua possível reestruturação, mas sempre respeitando as especificidades de cada curso.

3) Discussão nas comissões de graduação e no Conselho de Graduação sobre projetos pedagógicos, que devem ser modernos, inter e multidisciplinares.

4) Identificação das causas da evasão escolar, para (…) implementar mecanismos de acompanhamento do destino dos egressos para subsidiar de modo permanente eventuais reestruturações de cursos.

5) Maior atenção aos cursos noturnos da USP, oferecendo-lhes infraestrutura adequada para o seu funcionamento, incluindo horários de pessoal de apoio, biblioteca, serviços de alimentação e segurança.

(Matéria publicada na edição nº 904 do Jornal da USP)

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