70 anos de dedicação à docência no Instituto de Biociências

No dia 20 de maio, o Instituto de Biociências (IB) homenageou a professora Berta Lange de Morretes pelos 70 anos de docência.

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail

No dia 20 de maio, o Instituto de Biociências (IB) homenageou a professora Berta Lange de Morretes pelos 70 anos de docência

Alegre, bem humorada e comprometida com a vida, Berta Lange de Morretes, professora do Instituto de Biociências (IB), está longe de corresponder ao estereótipo de alguém que completará 94 anos no próximo dia 28 de junho. Mesmo aposentada desde 1988, ela continua na ativa, dando aulas tanto para a graduação quanto para a pós-graduação, além de desenvolver um estudo sobre o efeito das radiações ionizantes na estrutura dos órgãos das plantas.

Tanta disposição é explicada pela paixão que ainda nutre pela profissão. “Aquele que escolhe bem a profissão é feliz. Dificuldades existem em todos os momentos da vida, por isso é essencial gostar daquilo que se faz e procurar sempre melhorar”, diz.

Mesmo após 70 anos, Berta consegue manter o entusiasmo e a paixão pela profissão

Berta nasceu em Iffeldorf, na Alemanha, mas, aos dois anos, mudou-se com a família para Curitiba, onde residiu até a adolescência. O primeiro contato com a USP foi em 1935, quando o pai, Frederico Lange de Morretes, foi convidado a ocupar o cargo de pesquisador do Departamento de Zoologia do Museu Paulista e, pouco tempo depois, tornou-se professor da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL).

Em 1938, Berta e a irmã Ruth decidiram fazer parte da primeira turma do curso de Ciências Naturais oferecido pela FFCL. Os pais não fizeram objeção à escolha das filhas, embora naquela época o curso não fosse considerado muito apropriado para mulheres. Na verdade, Berta lembra que o machismo não foi um empecilho nesses anos de faculdade, os principais problemas eram a improvisação e a precariedade das instalações. Além disso, como os professores contratados eram quase todos estrangeiros (exceção feita a André Dreyfus), as aulas eram ministradas em inglês, francês e italiano. Vencidas as dificuldades, Berta e a irmã se formaram em 1941 e logo foram convidadas a permanecer na Faculdade como pesquisadoras e professoras: Ruth na área de genética; Berta, na botânica.

Ruth ficou no departamento por quatro anos apenas. Por exigência do noivo, teve de pedir demissão para se casar. Para Berta, ao contrário, a carreira já revelava ser o grande compromisso de sua vida.

70 anos lecionando na USP

Berta pode se orgulhar de ter participado ativamente na construção do atual Instituto de Biociências – especialmente do Departamento de Botânica. Na época em que era aluna do curso de Ciências Naturais, a FFCL tinha sido acomodada no prédio da Faculdade de Medicina, mas a convivência com os alunos da Medicina tornou-se insuportável e eles tiveram de se mudar para o palacete da Rua Glete, no bairro da Santa Cecília. A situação era precária e os professores improvisavam salas de aula e laboratórios para poder ensinar.

Quando a FFCL mudou-se para a Cidade Universitária, no final da década de 1950, o Instituto de Biociências só tinha um prédio construído e um grande espaço para o jardim botânico. Os professores de Botânica da época, Mário Guimarães Ferri, Mercedes Rachid, Berta de Morretes e Aylthon Brandão Joly, tiveram que lutar muito para superar as dificuldades e conseguir uma melhor estrutura para desenvolver seu trabalho. “Naquela época, nós fazíamos com que as coisas se concretizassem”, lembra a professora. “Os professores mais novos estão mal acostumados, só fazem as coisas acontecerem se há verba e, se não há, não fazem nada.”

Ao contrário de muitos professores, que consideram as aulas um estorvo, Berta diz até hoje não saber se gosta mais da pesquisa ou do magistério. Apesar da dificuldade em se locomover, ela faz questão de fazer quatro excursões por ano com os alunos. Por determinação médica, ela não entra mais na mata, mas fica no carro examinando os exemplares colhidos pelos alunos e dando as explicações de lá mesmo.

Instituto de Biociências

Berta critica a falta de comprometimento de alguns professores, que acabam se preocupando mais com a fama e se esquecem da importância de ensinar. “Eu encontro professores que reclamam de ter que dar aula. Então eu digo: por que você ainda está aqui? Acho que temos que fazer as coisas com carinho, temos que dar o atendimento que os alunos precisam.”

Mas isso não significa que os alunos estejam isentos de responsabilidade. Para ela, os jovens também precisam se esforçar para melhorar suas próprias condições de ensino. “Eu já vi alunos pichando prédios e destruindo as coisas. Os alunos têm uma regalia muito grande aqui, recebem tudo de graça e o mínimo que deveriam fazer é manter tudo limpo e não destruir. É triste porque isso demonstra um retrocesso na educação.”

Comprometimento

O comprometimento e o espírito de luta são traços marcantes da personalidade da docente. Berta conta que a grande lição deixada por seus pais foi a consciência de que sempre devemos ajudar a melhorar. Os pais costumavam dar aulas gratuitas aos que queriam estudar, mas não tinham condições. Foi assim, por exemplo, que o jovem Jair Rodrigues teve aula de canto com sua mãe, Bertha Lange de Morretes, uma alemã especializada em canto e reabilitação da voz. Anos mais tarde, já famoso, o artista retornou à casa da família só para agradecer a oportunidade.

Seguindo essa lição, há mais de uma década Berta financia os estudos de pessoas carentes, a maior parte composta por funcionários terceirizados da Universidade. Da primeira turma, formaram-se nove profissionais, entre advogados, professores, enfermeiros e até um teólogo. Atualmente, paga as despesas de um segundo grupo de nove pessoas. “Todos nós temos condições de ajudar em alguma coisa. Nós temos que ter a sensibilidade de perceber e saber como ajudar”, afirma.

Berta reclama que essa sensibilidade está em falta ultimamente e que as instituições de ensino poderiam ser mais atuantes nesse sentido. A USP, por exemplo, poderia incentivar mais o trabalho social e conscientizar os jovens do dever de retribuir pelo estudo que recebem.

A professora mais antiga da Universidade não pensa em parar tão cedo. Se depender dela, ela garante que só para de lecionar quando morrer. Berta também deseja que suas cinzas sejam espalhadas ao redor do prédio onde trabalha há mais de 50 anos e na árvore que leva seu nome, homenagem que recebeu do IB. “Essa é mais uma maneira de permanecer para sempre na Faculdade que ajudei a construir e a qual dediquei minha vida”, conclui.

(Fotos: Ernani Coimbra)

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail

Textos relacionados