As copas em cartaz

Bruno Jeuken Souza
Pesquisa iconográfica de Henrique Ferraz

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Ao longo de 88 anos de história, a Copa do Mundo soma 21 edições. Cada um dos seus cartazes conta um pouco da história da competição e do mundo ao longo do breve século XX e início do século XXI. Alguns centrados no país-sede, outros, mais internacionalistas. Uns carregados de política, outros, de marketing. Nada do que vemos em um cartaz de Copa do Mundo está ali por acaso. Começamos pelo Uruguai, de 1930, que mostra uma bela defesa de um goleiro no melhor estilo art déco, e terminamos com a mesma cena e a mesma disposição, mas dessa vez na Rússia de Vladimir Putin, de 2018, num estilo futurista soviético que revive a memória do lendário goleiro Lev Yashin. Entre um e outro, há muito mais história para conhecermos.

Uruguai 1930
A primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai, tem um dos cartazes mais bonitos e artisticamente bem elaborados. Contrariando o óbvio, mostra um goleiro fazendo uma defesa, ao invés de um jogador de linha ou um gol. O trabalho de Guillermo Laborde foi feito quando o art déco estava em seu auge, e é um belo exemplo do estilo.

Itália 1934
Um símbolo de seu próprio tempo, a Copa de 1934, na Itália, foi um desfile do regime fascista de Benito Mussolini. Um de seus artistas gráficos favoritos, Gino Boccasile foi escolhido para elaborar este cartaz, também influenciado pelo art déco. Vemos as bandeiras de outros países ao fundo, mas é um jogador da Azzurra que aparece em primeiro plano.

França 1938
Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o cartaz da Copa da França não mostra do futebol o que ele tem de dança ou de leveza. A arte de Henri Desmé, num estilo característico dos cartazes de propaganda ideológica da época, mostra um corpo rígido, pisando imponente sobre a bola, pressionada firme contra a Europa e o mundo.

Brasil 1950
Após o hiato da guerra, a Copa do Mundo volta à América do Sul. A ideia das bandeiras reunidas no meião é simbolizar a união internacional desejada naquele momento pós-guerra. Ao fundo, o Corcovado, símbolo da então capital federal, o Rio de Janeiro.

Suíça 1954
Com a Copa do Mundo de volta à Europa, o cartaz da Suíça parece retomar aquele do Uruguai na primeira edição. Diferente da maioria dos cartazes, este retrata a face do jogador – porém, olhando o gol que acabava de tomar.

Suécia 1958
Enquanto a Copa acontecia, foi lançado o filme Vertigo, de A. Hitchcock, e a semelhança entre os cartazes não é coincidência. Inspirado no estilo do artista Saul Bass, com um corpo humano em silhueta escura, dando destaque para a forma circular da bola, este cartaz inova ao escrever “futebol” nas três línguas oficiais da Fifa, inglês, espanhol e alemão.

Chile 1962
No melhor sentido, é o mais simples e minimalista dos cartazes até então. E também o primeiro a fazer referências ao espaço sideral, o que é compreensível, uma vez que se trata da era da corrida espacial. Durante a Copa do Mundo, a bola orbita o planeta Terra.

Inglaterra 1966
Contrariando o estilo que estampava as capas dos álbuns de música do país naquela época, neste cartaz os ingleses preferiram a simplicidade e o destaque
ao primeiro mascote de Copas do Mundo. O Leão, um símbolo do Reino Unido (apesar de a competição ter sido realizada apenas na Inglaterra).

México 1970
Um clássico é um clássico. Quando se fala em cartazes de Copas do Mundo, se fala no cartaz da Copa de 70. Feito com linhas concêntricas, retrata uma bola de futebol de icosaedros truncados que começou a ser utilizada nessa época e se tornaria o símbolo do esporte. É… um clássico!

Alemanha Ocidental 1974
O alemão Horst Schafer deixou registrada a arte contemporânea de seu tempo neste cartaz. Uma pintura feita com batidas agressivas de pincel à la Impressionismo, com cores vibrantes e agressivas sobre um fundo preto. Apesar de belo, este cartaz não é tão marcante quanto o atual troféu da Copa do Mundo, que começou a ser utilizado nessa edição.

Argentina 1978
Um cartaz bonito e alegre, símbolo de uma copa organizada sob uma ditadura horrenda e triste. Inspirado pelo pontilhismo – muito popular nos anos 70 –, usando e abusando das cores nacionais argentinas, foi produzido pela agência Mandatos Internacionales, contratada pelo regime.

Espanha 1982
Um cartaz que quebra todas as regras visuais seguidas até então, feito pelo consagrado Joan Miró. As fortes linhas pretas com cores simples e vibrantes eram perfeitas para um cartaz impresso. Nele, vemos a Copa do Mundo como uma fiesta espanhola.

México 1986
Único cartaz de Copa do Mundo com uma fotografia, ficou a cargo da aclamada
Annie Leibovitz. A sombra humana com a bola aos seus pés e os monumentos no cenário fazem referência ao ritual mesoamericano de mais de 3 mil anos, cujo objetivo era fazer uma bola de borracha passar por um arco fixado em uma parede.

Itália 1990
Assim como o México fez referência ao jogo de bola mesoamericano para vinculá-lo ao
futebol, na Itália a referência foi ao Coliseu, comparado no discurso deste cartaz aos grandes estádios esportivos modernos. Os gladiadores desse ano, entretanto, não deram espetáculo,
já que esta foi considerada a pior Copa do Mundo em termos técnicos e número de gols.

Estados Unidos 1994
Retomando o cartaz da Copa do Chile, influenciado pela corrida espacial, o da Copa dos Estados Unidos mostra mais uma vez o espaço sideral. Na Terra, como era de se esperar, o destaque maior é para a patriótica bandeira estadunidense. O artista
Peter Max disse à época que queria representar o caráter universal do futebol.

França 1998
Este cartaz foi escolhido em uma competição, da qual a estudante Nathalie Le Gall saiu vencedora. Tendo por base as cores da liberdade, igualdade e fraternidade, a artista mesclou várias técnicas para representar a festa do futebol sem perder a raiz francesa.

Coreia e Japão 2002
Este cartaz é, de fato, um símbolo dessa copa, a primeira realizada por dois países. Foram
reunidos dois artistas – Byun Choo Suk, da Coreia do Sul, e Hirano Sogen, do Japão – que, reforçando o estereótipo de eficiência asiática, produziram a composição em apenas dois dias.

Alemanha 2006
A copa que se tornaria uma referência de organização em oposição às que
se seguiram, teve seu cartaz escolhido pessoalmente por Franz Beckenbauer.
Ao melhor estilo marqueteiro, a produção da agência WE DO Communication
adotou o discurso de que as estrelas representavam o ato de desejar e sonhar.

África do Sul 2010
Para a primeira Copa do Mundo na África, Gaby de Abreu e Paul Dale escolheram representar o povo e o continente africano, ao invés de utilizar algum símbolo típico da África do Sul. A cabeça humana, a silhueta do continente, as cores utilizadas, tudo neste belo cartaz busca uma generalização da cultura africana.

Brasil 2014
Em um país politicamente dividido, o cartaz tentou mostrar o futebol como um vetor de união dos brasileiros em uma identidade compartilhada. A arte de Karen Haidinger mostra duas pernas disputando a bola, mas ambas são formadas por
elementos tipicamente brasileiros e entre elas se destaca a silhueta do mapa do Brasil.

Rússia 2018
Volte e compare este cartaz com o primeiro, da Copa do Uruguai. Naquela época, a Rússia ainda era a União Soviética e ainda há mais referências nesse sentido: a inspiração na arte construtivista e no futurismo russo, e também a representação de Lev Yashin, lendário goleiro soviético. Talvez Putin esteja passando um recado aos países vizinhos.

BRUNO JEUKEN SOUZA é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e pesquisador do NAP/ Ludens.