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Apresentação

Flavio de Campos

Este dossiê oferece seis artigos sobre futebol. Três deles, os de Gunter Gebauer, Silvana Goellner e Cláudia Kessler e Rafael Bayce, foram apresentados no 2o Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol, entre 13 e 16 de maio de 2014 (1). Os três demais foram solicitados especialmente para o número desta revista.

A intenção foi articular o futebol a temas candentes de nosso tempo: a frequente e questionável oposição entre futebol-arte e futebol-força, que embala debates acalorados e análises intermináveis; as projeções e distorções acerca do futebol em tempos de Guerra Fria e as impressões que se lançavam sobre a antiga URSS; os passos e impasses do futebol feminino no Brasil e a questão das relações de gênero em um país com altíssimos índices de feminicídios e violência contra as mulheres; a forte presença de seleções periféricas provenientes da África e/ou de Estados de maioria muçulmana na Copa da Rússia de 2018, em um contexto no qual a islamofobia avança cotidianamente; as recorrentes discussões acerca das rivalidades futebolísticas envolvendo Brasil, Argentina e Uruguai; as dimensões das crises da Fifa e da CBF e suas vinculações à política brasileira.

O ensaio de Gunter Gebauer propõe uma estimulante comparação entre a beleza nas obras de arte e no futebol. Enquanto a primeira necessita de trânsito livre para sua apreciação e fruição, o segundo, de acordo com o estudioso alemão, está vinculado ao equilíbrio dramático de uma partida, à sua dureza, à ameaça do adversário e à seriedade: “[…] é um jogo no qual cada time luta para roubar do outro a possibilidade de realizar um jogo belo”.

O que significaria o futebol para os jogadores e para os torcedores, uma questão possivelmente inspirada no Homo Ludens, de Johan Huizinga, delimita a oscilação entre o objetivo pragmático da vitória e o desejo e as expectativas da qualidade estética do jogo.
O texto proferido pouco menos de um mês antes do início da Copa de 2014 e, portanto, antes do fatídico 7 a 1 que a seleção da Alemanha aplicou na seleção brasileira, sustenta que, quanto maior for a resistência do adversário, maior é a beleza do jogo e que, ao contrário de outros esportes, gols são extremamente raros no futebol…

O segundo artigo deste dossiê é de Juca Kfouri. Corintiano notório e uspiano ilustre, formado em Ciências Sociais nos anos sombrios da ditadura militar, Juca é um dos mais destacados representantes da história do jornalismo esportivo brasileiro. Ter seu nome como um dos colaboradores neste número da revista de nossa universidade é uma honra para todos aqueles que apreciam o futebol, valorizam o jornalismo crítico e desejam um país melhor em todos os sentidos.

Seu saboroso artigo menciona imagens, episódios e projeções acerca da seleção de futebol da URSS, cujos atletas eram designados costumeiramente como “russos”. Busca significações históricas e políticas nas partidas travadas contra a seleção brasileira, recorda situações nas quais os “russos” foram prejudicados pelas arbitragens, resgata os três minutos iniciais mais espetaculares da história do futebol, na partida contra a seleção brasileira em 1958, uma espécie de Resgate do Soldado Ryan para os futebolistas, e retoma a capitulação da Fifa à ditadura de Pinochet no episódio da disputa da última vaga para a Copa da Alemanha de 1974.
Tudo isso em tempos de uma Copa a ser disputada na Rússia, que não tem mais Lenin nem Stalin e é controlada por Putin. Hoje, de fato, são os russos sem a União Soviética.

As reflexões de Silvana Vilodre Goellner e Cláudia Samuel Kessler percorrem o território de cerceamentos estabelecidos às mulheres com respeito ao futebol. Desde as balizas legais das proibições estabelecidas pelo Conselho Nacional de Desportos (CND) em 1941, e só revogadas ao final da década de 1970, até os aspectos mais difundidos e basilares do senso comum, no tocante à natureza frágil e à delicadeza das mulheres, que seriam postas em causa com o exercício de modalidades esportivas, como o futebol, tidas como violentas e brutas.

A prática do futebol por mulheres, mesmo que incipiente desde o início do século XX e ainda desestimulada nos dias de hoje, ressaltam as autoras, afronta as definições hegemônicas de feminilidades e masculinidades e ataca a subordinação de gênero característica da sociedade brasileira.

O trabalho de José Paulo Florenzano procura problematizar a participação de seleções coadjuvantes e periféricas na história das copas, muitas vezes estereotipadas como exóticas, ou seja, portadoras de características diversas, no plano étnico, tático e técnico, se comparadas às seleções tidas como favoritas e representantes de padrões consolidados e hegemônicos.

Assim, Florenzano busca significações nas participações de selecionados como os do Egito de 1934, Coreia do Norte de 1966, Marrocos de 1970, Zaire de 1974, Kuwait e Argélia de 1982, Camarões de 1982 e 1990, Irã e Marrocos de 1998, Senegal e Turquia de 2002 e Gana de 2006. Mas, muito além de simplesmente identificar estereótipos e depreciações, Florenzano mira, como ponto de chegada, nas características da seleção brasileira, amálgama de elementos atribuídos à África e à Europa.
Em uma outra perspectiva, o texto de Rafael Bayce ocupa-se das três seleções mais tradicionais da América do Sul: Brasil, Argentina e Uruguai. Trata-se de uma inspirada reflexão acerca das origens das rivalidades entre as consagradas seleções e de uma proposta de quantificação e avaliação de tais rivalidades.

Para o pesquisador uruguaio, enquanto a rivalidade futebolística Argentina-Uruguai remonta ao processo de constituição do Império colonial espanhol e esteve assentada na “luta de portos” travada entre Buenos Aires e Montevidéu, as rivalidades Argentina-Brasil e Brasil-Uruguai teriam sido frutos exclusivamente das disputas esportivas.

O último artigo, elaborado por mim em conjunto com Luiz Guilherme Burlamaqui, versa sobre o entrelaçamento das crises da Fifa, da CBF e do Estado brasileiro, evidenciadas nos últimos anos. Marcadas por uma série de aspectos comuns, como denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro, delações e prisões de autoridades em um contexto de desestabilização de governos populares na América Latina, tais crises revelam o enfraquecimento institucional em diversos níveis nesse contexto da economia global.
Elementos estruturais dessas entidades são articulados às ações de personagens e aos processos históricos com o objetivo de identificar suas continuidades e mudanças.

Por fim, pode-se dizer que este dossiê não se debruça apenas sobre o futebol. A dimensão dessa modalidade esportiva é tamanha que não é temerário afirmar ser quase impossível entender o Brasil e o mundo contemporâneo sem considerar sua importância cultural, social, política e econômica.

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(1) Realização conjunta do Museu do Futebol de São Paulo e do NAP-Ludens da Universidade de São Paulo, com o apoio de uma série de instituições: FGV/CPDOC, Departamento de História da FFLCH-USP, Freie Universität Berlin, British Council, Ludopédio, Attar Editorial, Biblioteca Mário de Andrade, Departamento de Antropologia da PUC-SP, Prodhe e Editora Leya.

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