Foto: Ivo Gonçalves/PMPA – Flickr CC

A Fifa é anticomunista! Jamais deixará a União Soviética ganhar uma Copa do Mundo

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Juca Kfouri

resumo

A partir da frase de um jornalista russo – frase essa que dá título ao artigo –, o autor averigua a possibilidade de ter havido perseguição da Fifa em relação ao comunismo ao longo de algumas copas, além de comentar episódios envolvendo a então seleção soviética e a ditadura brasileira. O autor também cita jogos memoráveis entre essa seleção e a brasileira.

Palavras-chave: comunismo; imprensa; Copa do Mundo.

abstract

Drawing from a statement by a Russian journalist which serves as a title to this article, the author inquires into whether or not FIFA might have persecuted communists in some World Cups; and also comments on some episodes involving the-then Soviet squad and the Brazilian dictatorship. The author also mentions some memorable matches between that squad and the Brazilian team.

Keywords: Communism; press, World Cup.

A frase que dá título a este artigo é de um jornalista russo, inconformado com a derrota da URSS para a seleção brasileira, por 2 a 1, de virada, na estreia da Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

De fato, naquela noite em Sevilha, o quarto-zagueiro brasileiro, Luizinho, cometeu dois pênaltis não marcados pelo árbitro espanhol Augusto Lamo Castillo quando estava 1 a 0.

Os soviéticos já reclamavam, com ou sem razão, de irregularidades em seus jogos na Copa do Chile, 20 anos antes, quando foram eliminados pelos anfitriões nas quartas de final, derrotados por 2 a 1.

Nove anos depois, em 1973, o Chile reapareceu na vida soviética. A URSS se recusou a jogar no Estádio Nacional de Santiago, por ter servido como prisão e palco de fuzilamentos quando do golpe do general Augusto Pinochet contra o governo eleito do socialista Salvador Allende.

No jogo de ida houve empate sem gols em Moscou, apesar do forte domínio dos anfitriões. A recusa em jogar no tristemente célebre gramado da capital andina custou a derrota por w.o., num espetáculo ridículo em que os chilenos foram a campo para fazer 1 a 0, sem adversários. Aliás, o Santos de Pelé acabou convidado para substituir o time vermelho e goleou amistosamente os chilenos por 5 a 0, sem a presença do rei do futebol.

Impossível afirmar que houvesse perseguição da Fifa aos comunistas, mas com o lendário goleiro Lev Yashin, o “Aranha Negra”, eles haviam conquistado a medalha de ouro olímpica em Melbourne, na Austrália, em 1956, e a Eurocopa, em 1960, em torneios organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela União Europeia de Futebol (Uefa).

Os soviéticos assombravam o mundo do futebol com a novidade de jogarem um tal de “futebol científico”, fruto do uso de poderosos e desconhecidos computadores. Verdade que, em 1961, foram os primeiros a botar um astronauta no espaço, com Yuri Gagarin, mas três anos antes ficaram a ver estrelas diante de Mané Garrincha, maior responsável pelos três minutos iniciais considerados pela Fifa como os mais espetaculares da história das Copas do Mundo.

No primeiro, em Gotemburgo, Mané Garrincha driblou quatro vezes seu marcador Boris Kuznetsov e chutou na trave. No segundo, foi a vez de Pelé mandar no poste. E, no terceiro, Vavá fez 1 a 0.

Sim, até parecia que os brasileiros haviam combinado com os russos. Consta que, na preleção para o jogo, o técnico Vicente Feola determinou minuciosamente como Didi, o “Príncipe Etíope”, cérebro do time, deveria municiar Garrincha e o que o “Anjo das Pernas Tortas” deveria fazer para desmontar a, digamos, Cortina de Ferro, isto é, a defesa soviética.

Tão detalhadas foram as instruções que, ao fim delas, Garrincha teria perguntado: “Mas, seu Feola, o senhor combinou com os russos?” Verdade ou lenda, não há dúvidas de que a seleção venceu por 2 a 0 e se classificou para as quartas de final ao mandar a URSS de volta para casa.

Mané e Pelé fizeram suas estreias naquela tarde e o CCCP estampado nas camisas encarnadas, URSS em caracteres cirílicos, virou, no Brasil, a sigla para Cuidado Camaradas Crioulo Pelé, uma brincadeira provavelmente considerada politicamente incorreta nos dias que correm.

O Brasil vivia uma época de plena felicidade. O gigante parecia despertar, sob o comando de Juscelino Kubitschek, que prometera, em 1955, ao assumir a presidência da República, fazer “cinquenta anos em cinco”. Eram tempos da Bossa Nova, do Cinema Novo, do basquete também campeão mundial, da rainha de Wimbledon Maria Esther Bueno, do recordista mundial dos 100 metros nado livre Manoel dos Santos, do campeão mundial do peso-galo Éder Jofre; até um bicampeão mundial de pesca submarina o país tinha no mergulhador Bruno Hermanny. Poucas vezes no século XX o Brasil viveu momentos tão otimistas como no período JK, chamado exatamente de o “presidente Bossa Nova”.

Até uma capital nova o Brasil ganhou, no planalto central, chamada Brasília. Embora considerado o pai do desenvolvimento nacional, JK não conseguiu eleger seu sucessor, ao ver o opositor Jânio Quadros derrotar o candidato situacionista, o marechal Henrique Teixeira Lott.

Começa, então, um período turbulento na política brasileira, que culmina com a renúncia de Jânio e, três anos depois, com o golpe de 1964. O que não atrapalhou nem o bicampeonato mundial de futebol em 1962, sob a presidência de João Goulart, nem o do basquete, em campeonato disputado no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.
Com o pé e com a mão o Brasil era campeão, embora, sob a força das armas, visse sua jovem democracia ser pisoteada pelas Forças Armadas, associadas à elite civil predadora, sob a falsa justificativa de combater a corrupção e o comunismo. Com o que foi abortada a eleição presidencial prevista para 1965 e que tinha JK como favorito, embora ameaçado pelo líder direitista Carlos Lacerda, governador do Rio.

Quer dizer, risco de comunismo, nem pensar!

Enquanto isso o mundo vivia os tempos da chamada Guerra Fria, Estados Unidos de um lado, URSS do outro, conflito que repercutia também no esporte, com os Jogos Olímpicos usados para demonstrar a superioridade de um ou outro regime.

A ilusão ocidental, nascida em 1956, de que as denúncias dos crimes contra a humanidade cometidos por Josef Stalin redundariam em liberalização do regime ficaram nisso, na ilusão. Nikita Khrushchov, o líder soviético, duelava com o presidente estadunidense Dwight Eisenhower, depois dele, com John Kennedy e, após o assassinato deste, com Lyndon Johnson.

A ditadura brasileira chegava ao ridículo de impedir a exibição do extraordinário Balé Bolshoi, em 1966, mas nada pôde fazer contra os amistosos entre a seleção brasileira e a da URSS, em 1965. Os dois times se enfrentaram em Moscou em julho, com vitória brasileira por 3 a 0, e empataram em 2 a 2, no Maracanã, em novembro.

Diante de mais de 117 mil torcedores o hino soviético ecoou nos céus da antiga capital federal. A ditadura não caiu por causa disso, mas o jogo custou a titularidade do goleiro brasileiro Manga, que falhou nos dois gols depois de os brasileiros terem feito 2 a 0, gols de Gérson, por ironia, o “Canhotinha de Ouro”, e de Pelé.

Mais três jogos amistosos entre as duas seleções aconteceram em plena ditadura, em 1973, 76 e 80, uma vez em Moscou, duas no Rio, com duas vitórias brasileiras e outra soviética, no Maracanã, dois anos antes de voltarem a se enfrentar pela Copa do Mundo da Espanha.

Esse jogo, na Andaluzia, é cercado por atmosferas políticas singulares tanto no Brasil quanto na URSS. Aqui, porque o país vivia o processo de distensão lenta, gradual e segura imposta pelo ditador Ernesto Geisel com suas sístoles e diástoles. Haveria eleições para governadores em todos os Estados, com massacrantes vitórias da oposição nos Estados mais importantes, e germinavam as sementes da campanha pelas “Diretas Já!”.
Na URSS também ventavam novos e liberalizantes ventos que culminariam com a ascensão de Mikhail Gorbachev, em 1985, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e com o fim da União Soviética, em 1991, fruto da Perestroika (transparência política) e da Glasnost (reestruturação econômica).

Se não bastasse, em 1982 nasceu em São Paulo, mais exatamente no Parque São Jorge, a Democracia Corintiana, que viria a participar ativamente da campanha pelas eleições diretas à Presidência da República.

O líder da Democracia Corintiana tinha uma sede de liberdade (e de cerveja) do tamanho de seu nome: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ou simplesmente, “Doutor”, médico que era, ou ainda, “Magrão”.
Seria, também, o capitão da seleção brasileira, tamanha sua capacidade de liderança, embora a seleção fosse comandada pelo técnico Telê Santana, tão competente como conservador. A festa da redemocratização que invadia o Brasil tinha sua mais completa tradução no time de futebol da CBF, entre outras razões também porque presidida por um homem decente, Giulite Coutinho, também conservador.

Estrelas como Zico, Paulo Roberto Falcão, Toninho Cerezo, ídolos de clubes de massa como o Flamengo, Internacional e Atlético Mineiro, compunham a espinha dorsal de um timaço que ainda tinha, nas duas laterais, os craques rubro-negros Leandro e Júnior, além da genialidade dos calcanhares de Sócrates.

O jogo marcado para o simpático estádio Sánchez Pizjuán não era mais um choque do futebol-arte contra o científico, porque este já estava devidamente desmistificado e só viria à luz, mesmo, em outras plagas europeias, como a Holanda, primeiro, e, depois, Espanha, Inglaterra e Alemanha. Nem mesmo seria o embate dos liberais contra o Exército Vermelho.

Era o encontro dos libertários canarinhos contra os decadentes, mas esperançosos, soviéticos. “A Fifa é anticomunista! Jamais deixará a União Soviética ganhar uma Copa do Mundo.” Mal sabia o irado jornalista russo que, na Copa de 1986, no México, seu vaticínio se confirmaria.

Pelas quartas de final, sob o calor infernal de León, a URSS, em situação de absoluto favoritismo não só pela campanha na Copa como pelo histórico dos confrontos, se encontrou com a Bélgica. Fez 1 a 0, sofreu o empate com gol em impedimento, desempatou novamente e, em mais um impedimento, os belgas levaram o jogo para prorrogação, quando terminaram por eliminar os soviéticos.

Em 1982 foi diferente, porque o time brasileiro não só era o favorito, como muito melhor. Mesmo assim, repita-se, houve dois pênaltis não assinalados para o selecionado da foice e do martelo.

Eis que agora teremos uma Copa do Mundo na Rússia. Não na União Soviética de Lenin, Stalin ou Gorbachev, mas na Rússia de Vladimir Putin. Às vésperas da eleição presidencial mais tensa no Brasil desde a primeira, em 1989, depois do golpe de 1964.

Esta também será a primeira depois que um golpe muito mais sutil, que prescindiu da força bruta, midiático, parlamentar e judicial, depôs outro presidente eleito, no caso uma “presidenta”, Dilma Rousseff.

Como o desempenho de Neymar e companhia influirá no resultado eleitoral é incógnita tão grande como o desenlace do pleito. Só duas coisas são certas: a primeira é a constatação de que o Brasil derrotou o comunismo, mas ainda não venceu o anticomunismo. Já a Rússia, que viveu por 74 anos sob o regime pretensamente comunista, e o liquidou sem dar um tiro, parece até menos anticomunista que o Brasil.

A outra certeza é a de que a seleção brasileira tem chance de voltar hexacampeã, enquanto a russa não tem nenhuma de ser a campeã. Embora deva ter o auxílio da Fifa para ir mais longe do que seu futebol – nem artístico, nem científico –, tem condições de chegar.

São as voltas que o mundo, redondo feito a bola, dá. “A Fifa é anticomunista! Jamais deixará a União Soviética ganhar uma Copa do Mundo.”

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JUCA KFOURI é jornalista esportivo e formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo.