Ouvinte questiona fala de Ciro Marcondes Filho sobre Apolo 11; colunista responde

Leitor entende como “conspiratória” a abordagem dada na coluna sobre a missão espacial, enquanto o professor afirma não ter dito em nenhum momento que o pouso na Lua da nave Apolo 11 não ocorreu

Por - Editorias: Espaço do Leitor
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Em mensagem enviada ao Jornal da USP, o leitor/ouvinte Marcelo Fernandez Cuzziol reclama da coluna Ciência Feliz, apresentada na Rádio USP pelo professor Ciro Marcondes Filho e reproduzida no Jornal da USP no dia 17 de junho, que abordou a Missão Apolo 11 (Ouça aqui a coluna na íntegra). O Jornal da USP, que preza promover o diálogo com o público, divulga abaixo na íntegra a pergunta do ouvinte e a resposta do colunista. Leia abaixo:


Leitor – Marcelo Fernandez Cuzziol

A matéria sobre a “farsa do pouso na Lua” que foi publicada pela Rádio USP e pelo Jornal da USP é problemática.

Não consigo entender como a USP e um professor do nível de um Ciro Marcondes podem divulgar essas teorias conspiratórias dessa forma. O pior (pra mim, pelo menos) é que no fim da gravação eles mencionam a Cátedra UNESCO de divulgação científica – como se isso fosse questão de divulgação científica patrocinada pela UNESCO!

Se for para tratar do assunto, que seja de uma maneira jornalística, apontando tanto os argumentos que sustentam a teoria de que o pouso na Lua em 1969 foi forjado quanto aqueles que apoiam a veracidade dos fatos. Mas, do jeito que a matéria está apresentada, só faltou o Ciro Marcondes dizer que o Stanley Kubrick morreu porque queria contar a “verdade” sobre a farsa! Como pode um professor universitário falar do Projeto Apollo e do programa espacial norte-americano como se eles se resumissem a encenar um pouso lunar no deserto? Se a missão Apollo 11 foi forjada, as alunissagens das Apollos 12, 14, 15, 16 e 17 teriam acontecido ou não? Os acidentes que quase mataram os astronautas da Apollo 13 e que vitimaram os da Apollo 1 também foram mentiras? Como pode o Ciro afirmar que não existia transmissão em tempo real naquela época, se a televisão estava em plena expansão desde a década de 1950? E como explicar o silêncio da União Soviética, competidora direta dos EUA na corrida espacial e detentora de tecnologia similar, que seria perfeitamente capaz de detectar e expor uma fraude dessas – e ainda sairia lucrando por desacreditar os americanos? E por aí vai… Até parece que vai da opinião de cada um acreditar ou não na realidade do pouso na Lua! História não pode ser questão de opinião, mas de fatos e registros. Daqui a pouco, vão achar desculpas para afirmar que os nazistas nunca tentaram exterminar o judeus, que as pirâmides do Egito são obra de alienígenas, que Colombo nunca chegou na América e que a Terra é, de fato, plana e chata!

Essas paranoias conspiratórias me dão nos nervos! E ver o nome da USP (e o da UNESCO) associado a isso foi demais.

Fica por aqui o meu desabafo.

Um abraço!

Marcelo Fernandez Cuzziol


Resposta do colunista Professor Ciro Marcondes Filho

Prezado Marcelo,

Obrigado por seu e-mail comentando meu Ciência Feliz de 17 de junho passado. O tema desse programa foi Ficção Científica e Política, ou seja, até que ponto a política não se arma de estratégias de ficção para convencer as pessoas. Quero deixar claro, mais uma vez – e isso foi repassado no programa -, que eu não disse que o pouso na Lua da nave Apolo 11 não ocorreu. Eu disse – e isso parece ser um fato notório há algumas décadas – que a missão Apolo 11 foi a que mais causou controvérsias, publicações, discussões e comentários a respeito de questões até hoje ainda obscuras ou incongruentes. Isso causa sempre perplexidade e novas indagações. Não fosse isso, caro Marcelo, não se estaria falando até hoje da questão, que, aliás, é a única que suscitou tanta polêmica. Não se ouviu nada de semelhante das missões soviéticas, nem de outras missões norte-americanas. Apenas esta. Você não acha sintomático? Há coisas estranhas nisso tudo que o grande público provavelmente não ficou sabendo.

Se nós remontarmos àquela época, o planeta estava sofrendo um verdadeiro bombardeio publicitário entre as duas superpotências, cada uma a seu modo pretendendo demonstrar ao mundo a superioridade de sua capacidade tecnológica através da conquista espacial. Os russos tinham acabado de enviar o Sputnik ao espaço e isso causou um grande furor no período. O presidente Kennedy havia prometido uma resposta aos norte-americanos e ao mundo em geral, dizendo que não terminaria a década de 1960 sem ter lançado ao espaço uma nave tripulada que superaria o efeito provocado pelos russos. Tratava-se efetivamente de uma batalha publicitária. Política também se faz com efeitos, impactos e demonstrações para os grandes meios de comunicação. Isso conhecemos já desde as operações do ministro Goebbels, da propaganda, no III Reich.

O que eu sugeri no final, e você há de se lembrar, é que, se a Missão Apolo 11 de fato ocorreu, ela talvez não tenha sido exatamente como foi demonstrada, deixando para a opinião pública mundial um rastro de incerteza. Isso é o que constou nas matérias e livros que se publicaram e que se publicam até hoje sobre o assunto. Alguma coisa aí foi manipulada, não sabemos exatamente o quê, mas há muitas explicações pouco convincentes a respeito. A questão das sombras projetadas em direções diferentes dos diversos componentes da cena que foi transmitida, o céu sem estrelas, a bandeira americana tremulando onde não há vento, as tomadas em vídeo que a Nasa jamais divulgou ao público, a questão das fotografias tiradas em temperaturas impossíveis para a resistência dos filmes, e tantas outras coisas. Nunca uma missão espacial deixou tantas lacunas não respondidas.

Há uma diferença entre se publicar matérias conspiratórias, como você diz, e trazer à baila novamente fatos em que a conquista espacial e a investigação científica são confundidas num nebuloso de notícias que sugerem algum tipo de manipulação. Sabemos que Nixon foi um presidente americano cujos princípios éticos eram bastante questionáveis. Mas sabemos também que Bush “fabricou” a existência de armas nucleares no Iraque para justificar uma invasão em que nunca conseguiu demonstrar efetivamente a existência dessas armas. A Guerra do Golfo inaugurou um período na história em que uma guerra não pôde ter nenhuma cobertura jornalística no local dos combates. Os jornalistas ficaram restritos a operações em um hotel, onde recebiam notícias da CNN e do Pentágono. Daí, críticos mundiais terem dito que “a Guerra do Golfo não aconteceu”. Claro, porque não deu na imprensa… O filme que eu citei, mera coincidência, insiste o tempo todo na versão de que “se deu na TV, então aconteceu!”, o que, para nós que trabalhamos com comunicação, acaba sendo um (triste) fato consumado: as pessoas acreditam fielmente no fato, “se deu na TV”. Que políticos inventem notícias para justificar certas necessidades de ataque militar, isso até Hitler fez, consubstanciando a teoria de que a ação política está atrelada à divulgação de boatos e invenções, que poderão depois ser desmentidas, mas aí, o estrago já foi feito…

Os comentários na Rádio USP, caro Marcelo, são sobre ciência. Sobre filosofia da ciência e como a ciência é praticada e suas formas de se estabelecer na comunidade científica. A missão Apolo 11, além de publicitária, foi repassada à população – e ganhou, para isso, verbas colossais – como sendo uma “missão científica” para ampliar nosso conhecimento do universo. Nada contra, mas muitas vezes a ciência não consegue se desvencilhar dos vínculos com a política. E isso faz parte da discussão da divulgação científica: por que divulgamos a ciência, que efeitos isso terá, quem patrocina nossas pesquisas, como isso se reflete na população. São todos temas agregados à questão da divulgação, que não se reduz à publicação de novas descobertas mas se incomoda também com o contexto em que essas descobertas são feitas e seus efeitos. A Cátedra Unesco de Divulgação Científica foi a mim concedida devido ao meu trabalho de divulgador científico há mais de 20 anos e da discussão que eu desenvolvo na área, fazendo conferências, publicando livros, promovendo a ciência em todos os seus âmbitos. Mas a ciência jamais é uma atividade isolada, nem está livre de usos duvidosos.

Stanley Kubrick morreu recentemente. Houve pessoas que dizem tê-lo visto em fotografias tiradas no momento e nos espaços da Nasa, quando foi lançado o projeto Apolo 11, mas isso não teve confirmação, nem pode ser atribuído a ele. A questão da encenação é improvável mas não é de todo impossível. É o que se afirma. Não se sabe exatamente o que aconteceu mas a nuvem de fumaça em torno do acontecido nos deixa todos perplexos e com uma sensação de que algo muito estranho nos foi sonegado.

Mas isso não tem nada a ver com as outras missões, como disse acima. Em relação à transmissão em tempo real, isso não sou eu quem fala, são os inúmeros estudiosos do caso, que afirmam que as transmissões na época eram um pouco mais precárias e tinham um delay que inviabilizava aquilo que apareceu a todos como resposta instantânea da tecnologia. De fato, a União Soviética silenciou, ou, pelo menos, não quis comentar nada. Não se sabe se detectaram ou não as incongruências ou se já planejavam um resposta à missão. Na época estavam envolvidos com a Guerra do Vietnã e os próprios conflitos internos podem tê-la levado a priorizar outras questões.

Mas a história, caro Marcelo, não é só uma questão de fatos e registros, você há de convir comigo. Sabemos que ela é sempre escrita pelos vencedores, que são interpretações deles próprios e que eles também fabricam fatos e registros. O que dela nos chega até hoje são esses fragmentos que precisariam ser contrapostos aos fragmentos daqueles que foram derrotados, pois estes têm necessariamente outra visão do que se passou. Mas isso raramente acontece e o que nos chega é sempre uma visão parcial e desvirtuada. E é disso que a história constrói seus relatos. A história não é única para todos e por isso há sempre novas buscas, novas pesquisas, inclusive para desmentir interpretações correntes, tidas como “verdadeiras”. Haja vista a nova leitura da história do Brasil, em que se procura reler a participação de negros e índios, até então camuflada em nossa história oficial.

O Holocausto foi uma história em que 6 milhões foram mortos. Há documentos comprobatórios. Foram mortos judeus mas também oposicionistas políticos, deficientes físicos, tradutores da Bíblia, ciganos, homossexuais. Destes últimos grupos se fala pouco. É preciso desenterrar também isso, não desmerecendo a liquidação genocida dos judeus. Também aqui carece uma escavação mais profunda.

Pois é isso, Marcelo, obrigado mais uma vez pelo seu comentário, que, de minha parte, permitiu que eu expusesse mais amplamente minha opinião a respeito, mas, creia, a polêmica continua e dificilmente chegaremos a algo definitivo a respeito do tema.

Abraços,

Ciro Marcondes Filho

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