“Vidas Secas” denuncia o descaso social e a exploração humana

Obra de Graciliano Ramos retrata o drama de uma família nordestina, comum ainda hoje no Brasil

Por - Editorias: Cultura
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O romance conta a história de uma família de retirantes do sertão brasileiro. 
Fotomontagem sobre imagem de uma das diversas capas de Vidas Secas (personagens) e Paisagem de caatinga, de Glauco Umbelino via Wikimedia Commons

Em dois breves parágrafos – os que abrem o primeiro capítulo, Mudança –, o alagoano Graciliano Ramos sintetiza Vidas Secas. Descreve o cenário e apresenta a saga da cachorra Baleia, da mãe Sinha Vitória, do pai Fabiano e de seus dois filhos, que, no decorrer da história, são chamados de “mais novo” e “mais velho”. Sem nome e sobrenome, eles carregam a “identidade” das famílias que ainda hoje vivem o descaso social e a exploração humana no País.

Thiago Mio Salla – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
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O primeiro capítulo de Vidas Secas, “Baleia”, que Graciliano Ramos escreveu em maio de 1937 – Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP

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Escrita em 1938, a narrativa que reflete a aridez do sertão abre uma janela para o leitor. O apuro estético do autor dá liberdade para quem quiser começar a história do final ou do meio ou pelas páginas que escolher. Cada um dos 13 capítulos tem o seu próprio enredo. A estética do romance não propõe fim nem começo. Assim, o escritor, entre os mais importantes da segunda fase modernista, desenha a vida do sertanejo em um círculo. Ou uma espiral. Como uma roda viva.

Para refletir com o leitor empenhado nas leituras para o vestibular, o Jornal da USP entrevista Thiago Mio Salla, doutor em Letras e Ciências da Comunicação e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “Para além das exigências da prova, a expectativa é de que o vestibulando se deixe fascinar pela beleza do texto de Graciliano, que, tal como um artesão meticuloso, vai esculpindo e colocando em sequência os quadros da vida de Fabiano, de Sinha Vitória, da cachorra Baleia, dos meninos”, observa Salla. “Ao mesmo tempo, faz ressoar a voz de todos esses personagens juntamente com sua própria voz de narrador, por meio de uma linguagem concisa, substantiva. Paralelamente, espero que os leitores vestibulandos se sensibilizem com a forte mensagem social que dá vida e atualidade ao livro.”

Não se trata de um romance típico sobre a seca, mas sobre vidas secas.

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Título do livro que o escritor alterou para Vidas Secas – Acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP

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“Mais do que a seca causada pela inclemência da natureza, o que oprimiria Fabiano e sua família seriam as relações de dominação estabelecidas pelos próprios homens”, explica Salla. “Por isso não se trata de um romance típico sobre a seca, mas sobre vidas secas. Vidas apresentadas em toda sua complexidade enquanto partes de um processo sistemático de exploração, humilhação e alienação. Em resumo, dessa mescla entre artesania da palavra e problematização de feridas tão vivas da realidade brasileira, o artista extrai sua força, que o engrandece e o coloca como um dos principais artistas de nossa literatura.”

Thiago Mio Salla estuda a vida e obra de Graciliano Ramos há 15 anos. Uma pesquisa realizada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que tem a guarda do acervo do escritor. Esse trabalho já resultou em seminários, exposições, artigos e diversos livros, entre eles Garranchos – Textos Inéditos de Graciliano Ramos (Record, 2012), Conversas, em parceria com Ieda Lebensztayn (Editora Record, 2014), doutora em Literatura Brasileira pela USP, e o recente Graciliano Ramos e a Cultura Política: Mediação Editorial e Construção do Sentido (Edusp).

O livro aborda problemas vividos por uma família de retirantes, como a seca, a pobreza e a fome – Retirantes, 1944, de Candido Portinari/Coleção Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

O professor faz questão de apresentar a caixa com os manuscritos de Vidas Secas que está no IEB e à disposição dos pesquisadores. “Aqui está o primeiro capítulo que ele escreveu: Baleia”, diz, apontando o texto original com a ortografia e a caligrafia do autor.
Graciliano escreve:

“A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas.”
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O livro, segundo o pesquisador, começou com Baleia, escrito em 4 de maio e publicado em O Jornal no dia 23 de maio de 1937. “O autor determinou que esse primeiro capítulo fosse o nono na sequência do romance”, explic
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O leitor pode perceber que as narrativas podem, de fato, ser lidas de modo independente.

O pesquisador lembra que Rubem Braga classificou Vidas Secas como um “romance desmontável” ao relacionar o seu caráter fragmentário. O leitor pode optar por ler os capítulos de modo independente. No entanto, a ordem que o escritor organizou tem, segundo Salla, suas razões. “O modo como Graciliano articula os capítulos confere unicidade ao todo. Creio que perdem força se lidos em separado, sobretudo quando se considera o caráter a um só tempo caleidoscópico e cíclico da obra. Ou seja, a família foge da seca no início e ao final do livro.”

As diversas capas de diferentes edições que foram lançadas – Divulgação

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Outro manuscrito que o pesquisador destaca é a capa do livro que deveria ser intitulado como O Mundo Coberto de Penas. Um documento em que se pode observar o desenho da letra de Graciliano Ramos riscando e alterando para Vidas Secas. “Caso conferisse ao livro o primeiro título, que prevaleceu até as vésperas de sua publicação, o escritor realçaria mais o estatuto de conto do que de capítulo de cada uma das divisões da obra”, justifica. “Isso porque, metonimicamente, ele elegeria o nome de uma parte para nomear o todo, procedimento muito comum na titulação de livros de contos.

Graciliano Ramos – Foto: via Kurt Klagsbrunn/Wikimedia Commons

Além disso, se optasse por O Mundo Coberto de Penas, trecho que trata da preparação da família para deixar a fazenda, realizaria uma leitura mais restrita da vida dos sertanejos, privilegiando tão somente as desgraças e o fatalismo inclemente das secas no sertão nordestino. Por outro lado, ao optar por Vidas Secas, seu único título adjetivado, elegeu um nome capaz de englobar todas as narrativas e conferir unidade ao todo, realçando a arquitetura precisa e bem estruturada do conjunto.”

O título escolhido, conforme esclareceu o próprio Graciliano Ramos, destaca a “existência miserável de trabalho, de luta, sob o guante da natureza implacável e da injustiça humana”. O pesquisador ressalta: “Vidas Secas materializa muito bem aquilo que, na minha opinião, é o grande legado de Graciliano: a conjunção entre rigor formal, introspecção e problematização de diferentes temas de caráter social, tais como a miséria, a exploração, a humilhação, entre outros ingredientes que compõem um caldeirão de conflitos bem brasileiro, prestes a explodir”.
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Conheça as outras obras exigidas na Fuvest 2018

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