Tônia Carrero soube renovar e arriscar, comenta professora da USP

Morta no dia 3 de março, aos 95 anos, atriz nunca se satisfez em ser apenas uma mulher bonita

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=151249
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A atriz Tônia Carrero em 1955 – Foto: Cedoc/Funarte

Tônia Carrero (1922-2018) fez parte de uma geração de estrelas que brilharam em todos os céus das artes cênicas brasileiras. Foi do cinema ao teatro e daí para a televisão, viajando com desenvoltura entre eles e se destacando graças ao talento que vinha acompanhado da beleza. Estava longe das luzes desde 2008, quando deu vida a Dona Alice no longa Chega de Saudade. Por isso mesmo, sua morte vem acompanhada do inevitável compromisso de resgate de sua trajetória e importância.

“Uma vida pessoal que vivia o teatro de maneira integral”, comenta a professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Elizabeth Ribeiro Azevedo. “Uma vida toda consagrada e dedicada ao teatro e que conseguiu ter o reconhecimento do público e da crítica como uma figura importante do teatro brasileiro a partir dos anos 50.”

A atriz morreu na noite de 3 de março, aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Foi vítima de uma parada cardíaca enquanto era submetida a um procedimento cirúrgico para tratar uma úlcera. Seu velório aconteceu no Theatro Municipal carioca. Tônia deixa uma família de artistas, incluindo o filho Cecil Thiré.

Cinema, teatro, televisão e passeata

Maria Antonietta de Farias Portocarrero nasceu em 23 de agosto de 1922 no Rio de Janeiro. Pertencia a uma família de militares, com pai general e avô marechal. Antes de se tornar atriz, graduou-se em Educação Física.

A Passeata dos Cem Mil, em 1968: da esquerda para a direita, Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell – Foto: Reprodução

Morando na França com o primeiro marido, o artista plástico e diretor de cinema Carlos Thiré, Tônia teve aulas de interpretação com o ator Jean-Louis Barrault. De volta ao Brasil, atuou em seu primeiro filme em 1947, Querida Susana, ao lado de Anselmo Duarte e Nicette Bruno.

Dois anos depois, fez sua estreia nos palcos integrando o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), contracenando com Paulo Autran em Um Deus Dormiu Lá em Casa. O espetáculo deu início a uma parceria com Autran que levaria à fundação da Cia. Tônia-Celi-Autran (CTCA), reunindo os dois atores e o segundo marido de Tônia, o diretor Adolfo Celi. A primeira montagem do grupo foi Otelo, de William Shakespeare, em 1956.

A atriz em cena do espetáculo Esses maridos – Foto: Cedoc/Funarte

“O TBC está ligado à renovação e à modernização do teatro brasileiro, à ideia de um teatro de grupo, ao contrário do que se fazia antigamente”, explica Elizabeth. “Ela faz parte dessa geração que participou dessa renovação do teatro, principalmente em termos cênicos, não só na dramaturgia, mas também na encenação.”

De acordo com a professora, o mesmo espírito que animava o Teatro Brasileiro de Comédia foi levado por Tônia para sua companhia. “O grupo Tônia-Celi-Autran procurou reproduzir e solidificar essa experiência, que não ficou restrita só ao grupo original do TBC”, analisa Elizabeth. O movimento feito por Tônia e Autran também seria realizado por Fernanda Montenegro, Sérgio Cardoso e Nydia Licia, que fundaram companhias a partir da vivência no TBC.

A estreia na televisão aconteceu em 1969, atuando junto de Fernanda Montenegro e Francisco Cuoco na novela de época Sangue do Meu Sangue, dirigida por Sérgio Britto para a TV Excelsior.

No cinema, Tônia acumulou mais de seis décadas de trabalho, estrelando produções como Apassionata, Tico-Tico no Fubá, Esse Rio que eu Amo e Sonhos de Menina Moça, indo dos tempos da Vera Cruz até o cinema da retomada. Seu último filme foi Chega de Saudade, dirigido por Laís Bodansky.

Tônia Carrero – Foto: Jornal do Brasil (1980)/Cedoc Funarte

Já na televisão, integrou produções da Rede Globo como Uma Rosa com Amor, Água Viva e Sassaricando. Seu último papel foi em Senhora do Destino (2004).

O teatro viu a atriz encenar grandes dramaturgos internacionais, como o norueguês Henrik Ibsen (Casa de Bonecas), o estadunidense Tennessee Williams (Doce Pássaro da Juventude) e o suíço Friedrich Dürrenmatt (A Visita da Velha Senhora). Foi dirigida por Ziembinski, Adolfo Celi, Gianni Ratto e, posteriormente, Gerald Thomas.

Em 1967, surpreendeu público, crítica e a ditadura civil-militar ao aparecer em Navalha na Carne, de Plínio Marcos. Tônia trocava os tipos aristocráticos que sua aparência e postura sempre favoreceram pela prostituta Neusa Suely, contracenando com Nelson Xavier e Emiliano Queiroz.

A atriz desafiaria a ditadura também em 1968, participando da famosa Passeata dos Cem Mil. O espírito combativo, aliás, sempre acompanhou a atriz, que teve de enfrentar a resistência do pai para perseguir a carreira artística.

“Sempre houve em torno de Tônia Carrero o reconhecimento de que era belíssima, mas ela nunca se satisfez em ser apenas uma mulher bonita e ter uma presença no palco que atraía os olhares”, afirma Elizabeth. “Na carreira da Tônia, Navalha na Carne é um momento marcante, em que ela procura provar a sua qualidade como intérprete, mais do que só como uma figura bonita.”

“É alguém que teve uma carreira exitosa e que soube se renovar e arriscar, normalmente com sucesso”, destaca Elizabeth.

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