Seminário apresenta produção editorial que buscou entender o Brasil

Evento realizado na Biblioteca Brasiliana analisou obras e coleções dos anos 1930 aos 1950

Por - Editorias: Cultura
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Complexo Brasiliana – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Como o Brasil foi pensado, compreendido e construído no século 20? Buscando essas respostas não apenas nos livros, mas no processo de sua edição, o seminário Coleções Brasilianas e a redescoberta do Brasil, anos 1930 aos 1950, sediado na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, reuniu em outubro apresentações sobre livros e coleções publicados durante estas três décadas que buscavam retratar, entender e criar uma imagem do País.

Para Heloisa Pontes, estudar as coleções brasilianas é entender o universo intelectual das décadas de 1930 a 1950 – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

“Foram muito comuns as coleções chamadas brasilianas, que representam um momento de vontade de descoberta do Brasil, de conhecer o Brasil em vários planos, desde a história até a geografia, a literatura, ensaios sociais, interpretações do País”, explica uma das organizadoras do evento e professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Gabriela Pellegrino Soares.

Segundo Gabriela, o seminário foi planejado para destacar o impulso de editoras brasileiras de se voltar a temas nacionais, com destaque às obras que apresentavam determinadas imagens do País. Estiveram presentes no evento pesquisadores da USP, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Universidade Federal Fluminense (UFF).

Maria Aparecida de Menezes Borrego destaca a construção do passado paulista através da figura do bandeirante na coleção Biblioteca Histórica Paulista – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

Na abertura do seminário, a professora de Antropologia da Unicamp Heloisa Pontes traçou um panorama dos editores e das coleções brasilianas nos anos de 1930 aos 1950. Segundo Heloisa, as coleções Brasiliana (1931), da Companhia Editora Nacional, Documentos Brasileiros (1936), da José Olympio Editora e Biblioteca Histórica Brasileira (1940) da Livraria Martins Editora podem ser vistas como portas de entrada para entender o universo intelectual dessas décadas. Buscando papéis análogos aos dos intelectuais na construção do Brasil, destacou a professora, os editores entenderam seu trabalho como uma missão, uma função social dentro de um país que buscava identidade.

 

O evento contou também com análises de obras relacionadas ao período colonial, relatos de viajantes e pesquisadores da época, que receberam edições em livro no século 20. A professora do Museu Paulista (MP) da USP e uma das organizadoras do seminário, Maria Aparecida de Menezes Borrego, apresentou Os Relatos Monçoeiros, da coleção Biblioteca Histórica Paulista da Martins.

A obra, organizada por Afonso Taunay (1876-1958), integra uma coleção lançada para celebrar os 400 anos de São Paulo e traz relatos de viagens fluviais, conhecidas como monções, feitas na primeira metade do século 18. Segundo Maria Aparecida, o objetivo da Biblioteca Histórica Paulista era “projetar a figura do passado que serviria de alicerce ao presente”. Para esse fim, o personagem escolhido foi o bandeirante, associado à bravura e ao desbravamento do território.

Já o professor da UFMG José Newton Coelho Meneses falou das narrativas de viagem pelo Brasil do botânico francês Auguste de Saint’Hilaire (1779-1853), editadas na coleção Brasiliana. Inserido num contexto cientificista vindo do Iluminismo, Saint’Hilaire seria um “cientista filantropo”, produzindo obras apropriadas para educar os leitores, como um “irmão mais velho civilizado do colonizado”. Sem apresentar respostas, Meneses questionou quais foram os motivos da publicação dessas narrativas no século 20.

Maria Rita de Almeida Toledo durante o seminário Coleções Brasilianas e a redescoberta do Brasil, anos 1930 aos 1950 na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

Além de análises sobre produções da colônia e do império, temas mais contemporâneos também apareceram no seminário. A professora da Unifesp Maria Rita de Almeida Toledo discorreu sobre o Professor Emérito da USP Fernando de Azevedo (1894-1974), que fundou e dirigiu por 15 anos a coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira, da Companhia Editora Nacional.

De acordo com Maria Rita, a coleção surgiu dentro de um processo de expansão editorial que acompanhou o aumento das escolas no período. Para a pesquisadora, a Biblioteca Pedagógica Brasileira buscava responder à crise na formação educacional brasileira e com isso deixava claro seu projeto pedagógico. É importante lembrar que a coleção é contemporânea do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, redigido por Fernando de Azevedo em 1932.

Gustavo Rossi durante o seminário Coleções Brasilianas e a redescoberta do Brasil, anos 1930 aos 1950 na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

O professor da FFLCH Hélio de Seixas Guimarães tratou da publicação da obra de Machado de Assis (1893-1908) pela editora inglesa Jackson, refletindo sobre seu papel na consagração do escritor. O lançamento das Obras Completas de Machado pela Jackson (que Guimarães frisou não corresponder a toda a produção do autor) se deu no momento em que Machado vivia a transição entre ser um problema para a tradição literária e se tornar consagrado nacionalmente.

Considerado então por alguns críticos um autor estrangeirado e difícil de classificar dentro da literatura brasileira, Machado de Assis passava por um momento em que interpretações sobre sua obra estavam em disputa. Nesse cenário, a coleção da Jackson ofereceu uma unidade autoral e uma ordenação que, segundo Guimarães, “resgata o processo de canonização póstuma de Machado”.

Segundo Hélio de Seixas Guimarães, Obras Completas da editora Jackson fizeram parte do processo de canonização póstuma de Machado de Assis – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Outro autor que recebeu destaque no seminário foi Jorge Amado (1912-2001). Analisando os romances da década de 30 do escritor baiano, como Capitães da Areia e Jubiabá, o professor da Unicamp Gustavo Rossi pontuou o surgimento da questão afro-brasileira nos textos de Amado. Segundo Rossi, partindo das questões de classe, que situaram suas obras escritas nesse período como “romances proletários”, o autor foi construindo uma temática racial que não se limitou a ser tema, mas também um idioma em seus livros.

“Classe é raça”, afirma Rossi sobre a visão de Jorge Amado. “Não se pode pensar a desigualdade sem pensar a questão racial.”

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