Revista “Estudos Avançados” aponta os dilemas do Brasil

Os problemas ambientais, as fronteiras do conhecimento, a geografia social do zika e os discursos e mitos do pré-sal e da Petrobras são alguns dos temas abordados na nova edição

Por - Editorias: Cultura
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Especialistas analisam as possibilidades do pré-sal e o papel da Petrobras – Foto: Divulgação
Especialistas analisam as possibilidades do pré-sal e o papel da Petrobras – Foto: Divulgação

A revista Estudos Avançados – publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP – lança a sua nova edição que reúne temas multidisciplinares para uma ampla reflexão sobre o meio ambiente, a saúde e o quadro econômico e social do País. Temas que são tratados por especialistas e pesquisadores. Importante destacar também as resenhas que enriquecem a edição, como o ensaio de Pedro Meira Monteiro sobre A memória rota: ensaios de cultura e política, de Arcadio Díaz-Quiñones, e a avaliação de Celso Lafer sobre Estudos de Direito Público, de Alberto Venâncio Filho. E, por fim, o artigo de Antonio David Impasse teórico da historiografia segundo Emílio Viotti da Costa.
O dossiê, Dilemas ambientais e fronteiras do conhecimento, está na primeira parte da revista. É organizado por Pedro Roberto Jacobi, coordenador do Grupo de Pesquisa Meio Ambiente e Sociedade do IEA e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam) do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, e por Leandro Luiz Giatti, professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Segundo eles, as sociedades contemporâneas se caracterizam por um quadro socioambiental em que alterações profundas e impactos ambientais decorrem por meio de relações complexas, quantitativas e qualitativas.
No texto de apresentação, Jacobi e Giatti ressaltam que “os fenômenos emergentes com elevados graus de incertezas e desdobramentos ampliados dão o tom e a magnitude da necessária associação entre sustentabilidade, adaptação e resiliência.” O dossiê reúne oito artigos de 16 pesquisadores de sete universidades do Brasil e do exterior: USP, Universidade Federal do ABC, Universidade Estadual de Londrina, Universidade Federal do Amazonas, Universidade de Michigan (EUA), Universidade de Alicante (Espanha) e Universidade da Patagônia (Argentina).

Geografia social do zika

Na seção Medicina, o artigo dos professores Jeffrey Lesser e Uriel Kitron, da Emory University, Atlanta, Estados Unidos faz uma análise social sobre a incidência do zika no Brasil. “Há um ditado que diz: ‘Mosquitos são democráticos; eles picam tanto os ricos como os pobres’”. Com esse dito popular, Lesser e Kitron assinalam que, embora os insetos não tenham uma consciência de classe social, a atual crise do vírus do zika teve impactos bem diferentes em cada grupo social ou gênero, como, aliás, já ocorrera com epidemias anteriores de doenças transmitidas por mosquitos, da febre amarela à malária e à dengue. “Em outras palavras, o zika é mais um indicador da desigualdade que persiste no Brasil contemporâneo, mesmo após várias décadas de democracia. Doenças transmitidas por mosquitos afetam desproporcionalmente a maioria menos privilegiada da população brasileira, de várias maneiras.”
Os professores apontam que o vírus do zika teve impacto maior no Nordeste, nos Estados da Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte, onde uma porcentagem maior da população é pobre e as condições climáticas são mais favoráveis à propagação de vírus transmitidos por mosquitos do que no Sul, mais rico e menos tropical.

Pesquisadores fazem uma análise social sobre a incidência do zika no Brasil – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Pesquisadores fazem uma análise social sobre a incidência do zika no Brasil – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Na seção Crise e Projetos, o professor Ildo L. Sauer e a doutora Larissa Araújo Rodrigues, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, fazem uma análise sobre os desafios e possibilidades do pré-sal e o papel da Petrobras, no sentido de conciliar as expectativas geradas quanto ao seu potencial de transformação social no Brasil. “O Brasil, com a descoberta dos recursos do pré-sal, tornou-se um ator potencialmente relevante como produtor e exportador de petróleo, e aposta na geração de excedente econômico associada ao desenvolvimento e extração do petróleo para investimentos sociais capazes de resgatar as graves assimetrias sociais que acometem o povo brasileiro”, consideram. “Dadas as suas especificidades, o petróleo tem sido fonte de disputas pela apropriação de excedente econômico oriundo da diferença entre preço de mercado e custo de produção. Por isso, uma das questões fundamentais está vinculada aos mecanismos de formação do preço do petróleo, cuja compreensão tem-se revelado precária e revestida de especulações destituídas de fundamentação teórica ou construídas por simplificações inspiradas no senso comum.”

Economia global

Na última seção, Economia, há dois artigos. O primeiro, Um olhar sistêmico sobre a crise norte-americana de Dante Pinheiro Martinelli, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, da USP de Ribeirão Preto, e dos doutores Christian Carvalho Ganzert e Leonardo Augusto Amaral Terra, todos da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP de Ribeirão Preto.
Segundo os autores, no contexto contemporâneo, a economia global pode ser descrita como um sistema baseado em agentes que, quando associados, manifestam seus próprios meios e fins. Observam que a crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos é um bom exemplo das implicações desse tipo de relacionamento. E que está diretamente relacionada a poderosos laços de realimentação, compostos de uma série de variáveis que amplificaram o fato de as famílias americanas terem se endividado em ritmo maior do que a sua distribuição de riqueza, prejudicada pela externalização da produção.
CapaIEA88.cdrOutro texto da seção é assinado por Isabel Cristina Sartorelli, da Universidade Federal de São Carlos, e Eliseu Martins, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP. E traz uma abordagem original, Machado de Assis, Guarda-Livros?. Segundo os autores, trata-se de uma investigação a respeito de o autor ter exercido funções de um contabilista enquanto funcionário público, o que, aliás, é ponto de discórdia entre seus biógrafos. O estudo traz um retrospecto da carreira de funcionário público e discute precipuamente a relação do autor com a área contábil. O artigo é ilustrado por recortes de jornal e de documentos oficiais, inclusive cópia de documento resgatado do Arquivo Morto do Ministério dos Transportes, em Brasília (DF). Complementarmente, o estudo analisa o perfil do autor frente aos requisitos exigidos à época para atuação na área contábil. Os achados da pesquisa permitem inferir que Machado de Assis exerceu as funções de um guarda-livros, denominação dada a época para o que hoje chamamos de contador.

Revista Estudos Avançados 88, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, 318 páginas, R$ 30,00 (assinatura anual com três edições: R$ 80,00). Informações sobre como assinar a revista ou adquirir exemplares avulsos: www.iea.usp.br/revista ou com Edilma Martins (edilma@usp.br), tel. (11) 3091-1675. A edição digital está na SciELO.

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