Revista destaca a língua, a cultura e a literatura em Goa

Focada na literatura goesa de língua portuguesa, “Via Atlântica” revela uma tradição literária tão vasta quanto esquecida

Por - Editorias: Cultura
Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail
Localizada em Pangim, capital de Goa, a construção católica é reflexo da presença do colonialismo português no estado Foto: Arquivo pessoal/Duarte Drumond Braga
Igrejas Católicas em Velha Goa: traços da presença do colonialismo português no Estado – Foto: Arquivo pessoal/Duarte Drumond Braga

.
A revista
Via Atlântica – publicação semestral em formato eletrônico do Programa de Pós-Graduação de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – chega à sua trigésima edição trazendo um dossiê e uma série de outros textos dedicados à cultura e à literatura de Goa, ex-colônia de Portugal no continente asiático com uma tradição literária “tão vasta quanto esquecida”. Com foco na literatura goesa de língua portuguesa, o volume, lançado no segundo semestre de 2016, é o segundo publicado pela revista dedicado ao tema – o primeiro, de número 19, foi apresentado em 2011.

Incorporada politicamente à Índia em 1961, após mais de quatro séculos sob domínio luso, Goa é hoje um Estado que, apesar de sua natureza essencialmente indiana, graças à sua história milenar de ocupação humana, carrega em si referências culturais bastante distintas. O pluralismo da sociedade goesa se estende à sua linguagem oral e literária: conforme é explicado na revista, além de ser multilíngue, diferentemente de outras antigas possessões lusas, o Estado tem, há muito tempo, uma produção escrita em vários idiomas – entre eles, além do português, se destacam o concani, língua oficial de Goa negligenciada durante a presença portuguesa, o marata, vindo do Estado vizinho de Maharashtra, e, mais recentemente, o inglês – sobre a qual a revista vem lançar luz.
.

Vizinha de Maharashtra, cuja capital é Mumbai, Goa é hoje um estado indiano - Arte: Moisés Dorado/jornal.usp.br
Vizinha de Maharashtra, cuja capital é Mumbai, Goa é hoje um Estado indiano – Arte: Moisés Dorado/jornal.usp.br

.
Para além da literatura goesa de língua portuguesa

De acordo com o artigo Introdução à Antologia de Contos Goeses, escrito pelos organizadores do volume, Duarte Drumond Braga, Hélder Garmes e Paul Melo e Castro – todos integrantes do projeto Pensando Goa: Uma Peculiar Biblioteca de Língua Portuguesa, financiado pela Fapesp e responsável pelo dossiê apresentado na edição -, embora o português nunca tenha sido falado por mais de 10% da população (e apesar de ter sido praticamente eliminado como língua funcional após a incorporação à Índia), durante a presença lusa em território goês o idioma dominou as esferas institucionais da região, tendo sido utilizado como língua principal tanto da elite católica etnicamente indiana como pela parcela da população de origem europeia ou mestiça. Com uma sistemática publicação de textos desde o século 16, dentre escritos jornalísticos, científicos e literários, uma vasta quantidade de material em português foi produzida, sem, no entanto, ter sido pesquisada e catalogada adequadamente. O atual volume da revista é parte do esforço do projeto voltado para realizar essa tarefa.
.

Templo hindu também localizado em Pangim Foto: Arquivo pessoal/Duarte Drumond Braga
Templo hindu localizado em Pangim – Foto: Arquivo pessoal/Duarte Drumond Braga

.
Entretanto, conforme explicam os autores,
para entender o universo literário goês é necessário considerar as relações de poder estabelecidas entre os diversos idiomas existentes no território, bem como as questões que podem passar despercebidas aos olhos de quem tem uma perspectiva monoglótica. “Fora das relações, paralelismos e descontinuidades com as literaturas em outras línguas, a literatura goesa de língua portuguesa revela-se parcial, empobrecida, tendenciosa”, alertam. De acordo com eles, é preciso, ainda, ir além da literatura goesa de língua portuguesa, colocando-as ao lado das outras literaturas goesas. “Debater essa literatura no contexto do resto da produção literária goesa, demonstrando a maneira como explora temas semelhantes de perspectivas distintas, pode acabar por revelar sua pertinência para o leitor goês na atualidade, ajudando a abrir novas perspectivas críticas, além de possibilitar a troca de ideias e de impressões entre públicos diversos”, escrevem.

A edição número 30

Apesar de ser focado na literatura goesa de língua portuguesa e no resgate de seu arquivo, atendendo à necessidade de colocá-las ao lado de outras literaturas do Estado, o atual volume do periódico traz, também, importantes contribuições de pesquisadores e pesquisadoras que refletem Goa sob outros pontos de vista – como é o caso de Luis Cabral de Oliveira, que, com o artigo Ler direito: o testamento de Olivier-Simon Le Bon (Goa, 1780)analisa alguns documentos jurídicos no intuito de auxiliar no entendimento da história do território. São textos que se articulam tematicamente com o dossiê, bem como traduções de contos goeses de língua inglesa e concani. “Esperamos que este novo número de Via Atlântica sobre a literatura e a cultura em Goa possa  ajudar  a  inserir  a Ásia  no  mapa-múndi  das  literaturas  de língua portuguesa”, escrevem os organizadores.todos integrantes do projeto temático Pensando Goa: Uma Peculiar Biblioteca de Língua Portuguesa, financiado pela FAPESP e responsável pelo dossiê apresentado na edição –

Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail