Professor vê cinema brasileiro “ainda em fase de amadurecimento”

Lançamento do longa de ficção científica Invasão, de Helio Martins Jr., exemplifica as dificuldades dos diretores brasileiros independentes para produzir filmes que alcancem o grande público – o que, segundo o professor da USP Rubens Rewald, depende de um circuito próprio para a divulgação de produções pequenas

Por - Editorias: Cultura
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Foto: Divulgação
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No cinema nacional há quase um monopólio de produções de comédia, além dos reconhecidos dramas sociais e, mais recentemente, filmes de ação, como Tropa de Elite. Para o professor Rubens Arnaldo Rewald, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, isso é reflexo de uma indústria ainda em fase de amadurecimento. “Ainda não descobrimos um canal de distribuição para o grande público (acima de 1 milhão de espectadores) que possa abarcar uma diversidade, não chegamos ainda a uma política de gêneros como existe com os filmes estrangeiros”, diz o professor. 

De acordo com ele, a segmentação em gêneros, característica da indústria audiovisual, está começando a se desenvolver no Brasil. “Só agora começamos a adquirir expertise e know-how necessários para produzir filmes de suspense, ficção científica e ação, por exemplo. A questão agora é saber como vender isso para o público”, afirma Rewald.

Seguindo essa linha, o diretor independente Helio Martins Jr. lançou seu primeiro longa-metragem, o suspense de ficção científica Invasão, sem pretensões de conseguir sucesso comercial, mas sim de mostrar esse potencial inexplorado pela indústria do cinema brasileiro.
Martins tem formação em comunicação, mas diz que sempre gostou de cinema e, a partir do fim da graduação, passou a investir no hobby. “Comecei a fazer cursos livres de roteiro e direção, tive a oportunidade de ir para os Estados Unidos, onde participei de um workshop de direção e produzi dois curtas-metragens, e continuei a produzir depois que voltei para o Brasil”, conta o diretor. Depois de mais dois curtas (todos disponíveis na área de Projetos do site novosdiretores.com), ele começou a filmar Invasão em 2012.

Professor Rubens Arnaldo Rewald – Foto: Divulgação

Inspirando-se em diretores como Danny Boyle e Ridley Scott, Martins diz buscar a versatilidade. “Gosto de diretores que conseguem trabalhar com diversos temas, dos épicos aos filmes futuristas, e tento fazer o mesmo. Para contar histórias, meus gêneros favoritos são o drama e o suspense. Já fiz curtas de drama, comédia de humor negro, e agora estou lançando esse suspense de ficção científica.” Crescido na década de 1980, o diretor conta que filmes como os de Steven Spielberg e George Lucas tornaram inevitável seu gosto pela ficção científica. “Gosto principalmente daquela ficção científica que filosofa sobre alguma coisa. Por exemplo, Blade Runner, filme do qual sou um grande fã, no fundo fala sobre a morte. Em Invasão procurei fazer um suspense mais psicológico.”

O gênero é pouco explorado no Brasil, mas o diretor diz que seu filme possui elementos que o caracterizam como uma produção nacional.

Aqui nunca daria certo um filme como Independence Day, com o presidente salvando o mundo no final. Não temos esse tipo de relação com o poder público. No meu filme, o assunto é visto sob a ótica da nossa cultura,  há um vínculo com a questão psicológica, das pessoas presas e isoladas e tendo que enfrentar problemas que nunca imaginaram, além de haver elementos da cultura do Brasil inseridos na história.

Além da falta de diversidade, Martins diz sentir que poderia haver mais filmes nacionais que tratem da nossa cultura. “É claro que os dramas sociais são importantes e geram excelentes filmes, mas há muitas histórias para contar no Brasil. Por exemplo, já que estamos em época de festa junina, acho que seria muito legal um filme sobre a mula-sem-cabeça e outras lendas brasileiras, se fosse algo bem produzido, com tecnologia de ponta. Deveríamos apostar mais na diversidade”, analisa.

O professor Rubens Rewald acredita também que a diversidade buscada por Martins seja saudável para o cinema nacional, “especialmente para o grande público, que está acostumado a padrões. É daí que vem o sucesso das comédias brasileiras, por exemplo: mesmo sem saber muito bem do que trata o filme, o público vai assistir por causa desse padrão, ele já sabe o que esperar. Precisamos fazer isso agora com outros gêneros de filme.”

“Parceria criativa”

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O diretor independente Helio Martins Jr. – Foto: Divulgação

Além do gosto pelo tema, Martins diz que o que motivou a produção do filme foi, de fato, a necessidade. “Eu tinha vários roteiros escritos, mas eram roteiros caros e, como não encontrei quem quisesse produzir meus filmes, pensei em fazer algo mais barato, como A Bruxa de Blair (filme de terror que se notabilizou tanto pela inovação como pelo sucesso comercial, com produção muito barata).” Assim, embora seja um longa-metragem, Invasão é rodado em apenas três locações básicas – uma chácara, uma floresta e, no caso de algumas cenas, a cidade de São Paulo –, o que permitiu que Martins o produzisse com seus próprios recursos.

Para que fosse possível, o projeto foi desenvolvido através de uma parceria criativa. “A equipe técnica do filme e o elenco são compostos de jovens profissionais, recém-saídos de cursos, da faculdade, com pouca experiência e que queriam ‘pôr a mão na massa’, ter um trabalho mais sólido para compor seu portfólio”, explica Martins. “Então fizemos um contrato no qual eles ofereceriam seu trabalho e eu proporcionaria as condições e a estrutura para realizar o filme.” Embora assuma que este é um modelo inviável para a indústria, o diretor diz que é um ótimo meio para que profissionais em início de carreira consigam colocar suas ideias e criações em prática, mostrar seu talento e fazer contatos, inserindo-se no mercado.

O fato de Invasão ser uma ficção científica de baixo orçamento, o que é incomum, poderia ser um problema. Segundo o professor Rewald, “em uma ficção científica, o grande público geralmente espera ver um filme bem realizado, bem produzido. Ele não está interessado em arroubos de linguagem, e sim em valor de produção. Isso é um complicador para o gênero, que em geral exige um orçamento maior para efeitos especiais, por exemplo.” Mas Martins conseguiu driblar essa dificuldade, produzindo um filme no qual, como ele explica, “os efeitos especiais são apenas mais um componente da história, não um elemento de destaque no filme”.

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Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
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Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
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Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
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Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
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Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
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Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
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Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
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Esse tipo de abordagem, aliado às novas tecnologias, faz com que hoje em dia já não seja tão difícil produzir um filme, de acordo com Martins, que diz, a exemplo do professor Rewald, que “a parte mais difícil é a divulgação”. O professor explica que essa dificuldade se dá porque “o mercado distribuidor está interessado num lucro que o filme independente não trará. É claro que é possível encontrar público para esses filmes, mas isso requer um esforço e o desenvolvimento de estratégias a que o distribuidor não está disposto. Ele prefere trabalhar com o grande filme, que já tem o marketing pronto”.

Dessa forma, Rewald não acredita que o problema seja causado por um suposto preconceito por parte da indústria e do público com filmes independentes nacionais. “A temática do filme não diz muito para a indústria. O importante mesmo é o valor de produção, grande elenco, bala na agulha para a distribuição. Também não acho que a questão seja preconceito do público brasileiro com o cinema do próprio país. O problema é que não há espaço, a competição com filmes como Homem de Ferro Vingadores é muito difícil. Se um filme é pouco conhecido, é preciso tempo para que no ‘boca a boca’ ele seja divulgado, mas não há esse tempo. Se o filme não for bem no primeiro fim de semana, a fila anda.” Para esse impasse, o professor acredita que poderia haver uma solução. “O que o filme independente no Brasil precisa é ter um circuito próprio, distribuidores e salas de cinema que queiram trabalhar com filmes pequenos. Mas há poucos interessados nesse empreendimento.”

Festivais, uma alternativa

Nesse aspecto, o diretor de Invasão ressalta a importância dos festivais. “Inscrevi o filme em vários festivais independentes no Brasil e no exterior, que, embora sejam pequenos e não tão tradicionais, valorizam justamente esse trabalho independente. Exibimos o filme em Cingapura, Los Angeles, Nova York, fomos premiados no Texas”, destaca. “Ele foi apresentado também em algumas mostras voltadas para o tema da ficção científica, como a Mostra de Cinema de Taubaté, e conseguimos alguns prêmios, boa projeção e retorno positivo do público.”

Cena do filme Invasão - Foto: Divulgação
Cena do filme Invasão – Foto: Divulgação

Embora o filme esteja sob responsabilidade da distribuidora Elo Company, a mesma que emplacou a animação indicada ao Oscar de 2016 O Menino e o Mundo, Martins não alimenta expectativas de um sucesso comercial. “Conheço o mercado. Por ser uma produção independente, temos recursos limitados, não há atores conhecidos no elenco. Então, dificilmente alguém vai querer investir para colocar o filme nas salas de cinema”, admite o diretor, corroborando a opinião do professor Rewald. “Minha expectativa é o sucesso com o público, ou seja, que as pessoas assistam ao filme e gostem. Até aqui, as exibições nos festivais estão sendo positivas, as pessoas parecem ter gostado da surpresa no final.”

Rewald também concorda que os festivais são fundamentais para produções como Invasão. “É sempre bom circular em festivais, nunca é demais. Já que não haverá um grande resultado comercial, é importante, não só comercialmente, mas artisticamente, que o filme circule, para que seja visto. De repente o filme passa num pequeno festival nos Estados Unidos, um distribuidor assiste a ele, gosta do que vê e então ele começa a passar no circuito americano. Pode acontecer.”

Martins diz que, por enquanto, Invasão só está disponível em festivais, mas em breve alcançará outras plataformas. “Não posso dizer exatamente um prazo, porque isso está nas mãos do pessoal da Elo Company, que está fazendo um trabalho muito legal, negociando com canais de televisão e outros serviços para divulgar o filme, enquanto ele ainda está no circuito de festivais.” A página do filme no Facebook (https://www.facebook.com/filmeinvasao) é constantemente atualizada com novas informações sobre onde o filme está sendo exibido, e é lá que será divulgado quando estiver disponível fora dos festivais. Mais informações sobre Invasão podem ser encontradas neste site: http://www.novosdiretores.com/invasao/index.html.

Trailer do filme

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