Professor da USP defende papel social do jornalismo esportivo

Cobertura esportiva não deve se ater apenas a grandes competições, segundo Luciano Maluly

Por - Editorias: Cultura
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Detalhe da capa do livro Jornalismo Esportivo — Princípios e Técnicas – Divulgação

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Rediscutir os conceitos do jornalismo esportivo é a ideia central do livro
Jornalismo Esportivo — Princípios e Técnicas, recém-lançado pelo professor Luciano Maluly, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O trabalho é fruto da tese de doutorado defendida pelo autor em 2002, sobre a reportagem esportiva em relação ao doping, de sua tese de livre-docência defendida em 2016, sobre a cobertura de esportes e olímpica, e das pesquisas que o professor desenvolve há 20 anos na área.

Segundo Maluly, o trabalho jornalístico relacionado ao esporte hoje, via de regra, está atrelado aos grandes eventos e competições e resume-se a poucos esportes, quando deveria estar preocupado em estimular também a prática das diversas modalidades esportivas e atividades físicas.

“O esporte não é só o evento, não é só o atleta. Tem que ter uma pauta social, ligada à cidadania. Tem que ter uma relação entre o atleta e a população. O jornalista não pode estar só atento ao jogo do Corinthians no domingo. Ele tem que prestar atenção também no cara que está andando em volta, nas academias, nas pessoas que estão andando aqui na USP, e fazer essa relação. Ainda mais hoje em dia, existe toda essa preocupação com a saúde, há uma outra visão sobre o esporte”, defende.

Em seu livro, o professor lista três princípios e cinco técnicas para nortear a mudança na postura do jornalismo esportivo que ele propõe. São os princípios a qualidade da notícia, a valorização das modalidades esportivas e das atividades físicas e a mensagem olímpica.

Entre as técnicas, o autor coloca a cobertura do futebol como “base da pirâmide”, sucedida pelos esportes midiáticos, aqueles que têm grande patrocínio ou audiência, como o vôlei, o basquete, o tênis, o automobilismo, os esportes olímpicos e esportes ligados à Europa e aos Estados Unidos em geral; depois, outras modalidades esportivas, como badminton e ciclismo; em seguida, atividades físicas e esportivas mais ligadas ao lazer e ao cotidiano; por fim, as mensagens esportivas, relacionadas às áreas de educação, saúde, cidade.

Luciano Maluly é professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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“Essas técnicas e princípios levariam a uma cobertura mais dinâmica”, afirma Maluly. Ele se incomoda  com a tendência de pequenas rádios, blogs, estudantes de jornalismo e veículos independentes que copiam ou seguem a mesma linha das grandes emissoras, que já têm seu espaço. “Cidades como Barueri e Osasco, por exemplo, encamparam o esporte em diversas modalidades. Mas aí você vê uma rádio em Osasco que só quer falar de futebol, ou de assuntos que já são pauta na grande mídia. Essa postura é o que me preocupa.”

Outro exemplo que o professor cita em que a aplicação dos conceitos propostos no livro poderia dinamizar a cobertura esportiva é o caso das ciclovias em São Paulo, assunto que vem sendo muito discutido desde a última gestão municipal. “Essa discussão foi feita muito no campo político e nas questões de mobilidade e urbanismo, e perdeu-se de vista o aspecto esportivo, que é a relação direta do tema com o ciclismo. Falta criatividade na imprensa esportiva, a pauta é sempre a mesma.”

Essa falta de diversidade, na opinião de Maluly, acabou condicionando a população que tem o esporte como entretenimento..

Tem gente que nem assiste televisão, mas todo dia caminha, pratica esportes, diversas modalidades. Então não sei se o brasileiro só gosta de futebol. A questão é que é só isso que passa na TV. Se as emissoras começassem a diversificar, passar a cada semana um esporte, será que as pessoas não se acostumariam?

Essa é uma das propostas do livro do professor: uma linha editorial mais diversificada. “Você tem que ter um planejamento. Por exemplo: no dia 27, vamos cobrir tênis de mesa, no dia 30, natação, e assim por diante. Mesmo com o futebol e as outras pautas tradicionais da mídia, você teria os dias reservados para essas modalidades. Será que não haveria público? Um jornal não tem que ser parecido com o outro, é bom que tenha diversidade na programação.”

Outras propostas presentes na obra são uma reportagem esportiva que desenvolva a questão do olimpismo, os valores olímpicos do esporte, a cobertura do doping e da preservação do atleta, além da valorização dos grandes jornalistas, estudiosos e pesquisadores dessas questões. “Mostramos lacunas que poderiam ser preenchidas nesse novo momento do jornalismo esportivo”, resume o professor.

O novo livro do professor Luciano Maluly – Foto: Reprodução

O livro também cita exemplos que se aproximam dos conceitos expostos. Entre eles estão o Ludopédio, um portal acadêmico on-line sobre futebol de que o professor Maluly é colaborador; o Portal do Rugby; e o programa Hora da Ginástica, que começou nos anos 1930 e durou 50 anos, levando a pauta da atividade física ao rádio. Além desses veículos, são nomeados alguns estudiosos, como o jornalista Anderson Gurgel, o professor Ary Rocco, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, a professora Vera Regina Toledo e o professor José Carlos Marques.

“Essas pessoas trazem contribuições significativas. Uma coisa boa dos megaeventos esportivos que recebemos nos últimos anos foi o estímulo que eles proporcionaram a esse movimento que existe para estudar o esporte e o jornalismo esportivo. Tem bastante gente trabalhando nisso, e este livro é parte dessa tentativa de, pelo menos, plantar uma semente”, conclui o professor Maluly.

Jornalismo Esportivo — Princípios e Técnicas, Luciano Maluly, edição do autor, 119 páginas, disponível também em formato digital.

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