Performance de Fyodor Pavlov alerta para a escravidão contemporânea

O artista russo ficou sete horas pendurado ao lado do prédio do MAC. Pintou com o corpo o drama da escravidão

Por - Editorias: Cultura
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O artista içado pelo guindaste a uma altura de 40 metros – Foto: Divulgação

Sob o céu, o artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich ficou em silêncio. De vez em quando abria os braços. Seu corpo estava no limite, foi içado por um guindaste a uma altura de 40 metros. Os visitantes do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo da USP foram até o terraço do prédio para observar o artista russo. Uma gigantesca faixa vermelha aos seus pés trazia a frase: “O céu é negro à noite”.
Fyodor ficou sete horas no ar. Anoiteceu. O prédio do MAC fechou e ele continuou ali lembrando as dores de quem vive com o corpo também no limite trabalhando sob as pressões econômicas e sociais da sociedade contemporânea. Um protesto solitário contra o trabalho escravo e o racismo, mas que ecoou nas redes sociais nos jornais do Brasil e do exterior.
Ao contrário do que muitos imaginam, Fyodor não queria ser diferente, um super-herói. Nada disso. Também não estava em outra dimensão. “Quando o guindaste foi subindo, fiquei com vertigem. Com uma sensação de medo. Eu já tinha ficado nas alturas em Moscou, mas foram 25 metros. E lá eu estava perto dos helicópteros, dos urubus.”
O artista perdeu a noção do tempo. “Há uma hora que parece durar uma eternidade, enquanto outra voa em um segundo…”, comenta. Aos poucos, ele foi se acostumando. Duas horas depois, estava como uma pipa no ar, voou no sonho da arte. Viu o obelisco do Ibirapuera, Mausoléu aos Heróis de 32, que parecia estar ao alcance de sua mão. Aí a tensão passou e abriu espaço para um novo projeto. “Pensei em fazer outra série de sete performances e me pendurar nos edifícios mais altos do mundo.”
Assim é Fyodor, 40 anos de criatividade e imaginação. Para ele a arte pode abrir janelas para a realidade. “Não sei qual foi a repercussão. Só imaginei que se alguém estivesse passeando de bicicleta no Ibirapuera pudesse me olhar e sentir o que estava fazendo. Observar o que eu queria dizer.”
A performance de Fyodor fica impressa na história da arte contemporânea. Não é momentânea, nem temporária. O artista pintou uma cena densa no ar, como a dor dos Retirantes de Portinari ou o drama de Guernica, de Picasso. “Não sei como as pessoas podem me avaliar. Não quero pensar nisso”, comenta. “Penso só na tristeza da discriminação social e racial por que passam milhões de seres humanos. Na Rússia como no Brasil, as pessoas passam por essas diferenças…”

Protesto solitário

Fyodor: “Fiquei ali concentrado, olhando o obelisco” – Foto: Divulgação

“Eu ficava olhando para o Fyodor no ar e ficava sentindo a mensagem que ele estava procurando projetar”, conta Ana Avelar, curadora da performance e da exposição Monumentos Temporários sobre a trajetória do artista. “Um ser humano em condições desumanas. Fiquei imaginando a quantidade de trabalhadores que ficam nas mesmas condições no alto dos prédios e ninguém se lembra de parar e olhar.”
Muitas pessoas que passeavam pelo Parque Ibirapuera foram ver o que estava acontecendo. O protesto não parou o trânsito. Não teve palanques, megafone… mas deu o recado do cidadão e artista. “Fyodor se prepara muito para as performances. Faz yoga, meditação, tem uma dieta apropriada para poder realizar a performance do jeito como projeta.”
Quando cumpriu o tempo previsto, o guindaste foi descendo o artista. Seu primeiro pedido foi uma garrafa de água, porque estava sem beber desde o dia anterior. Abraçou os amigos e cantou parabéns para a curadora Ana que estava aniversariando.

Nu, preso a um cadeado – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Em Alagoas, o artista ficou em cima de um coqueiro por sete horas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O corpo como instrumento de investigação

É a primeira vez que Fyodor Pavlov-Andreevich se apresenta em um museu brasileiro. Já realizou exposições em centros culturais e em galerias de São Paulo e Rio de Janeiro. O artista vive entre o Brasil e a Rússia. “Assim que comecei a me sentir em casa, no meu ambiente brasileiro, percebi que o País estava dominado por uma desigualdade brutal”, observa. “Afro-brasileiros ainda vivem e são tratados como párias, graças ao legado de um sistema opressor que se mantém ativo através do racismo. Meu projeto é sobre como o escravizado continua a existir, de uma forma ou de outra, na cabeça ou no corpo de cada um de nós.”

O Enforcado em uma Árvore Solitária – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Na exposição Monumentos Temporários, o visitante do MAC pode observar o registro e as propostas de outras performances do artista, através de fotos e uma instalação de caixas onde é possível ver os vídeos do trabalho de Fyodor, porém, para vê-los o espectador tem que ficar em uma posição incômoda. Uma provocação do artista para tirar o visitante do seu eixo. “Em Monumentos Temporários o corpo de Fyodor é um instrumento de investigação das relações humanas”, explica a curadora. “Particularmente interessado nos desdobramentos do trabalho escravo na contemporaneidade, ele compõe um rol de performances que duram por sete horas. Elas são levadas a cabo em paisagens especificamente escolhidas por seu significado simbólico para a situação brasileira, como o coqueiro solitário, a praia com urubus, o mar revolto, a única árvore que resta numa terra arrasada por um incêndio, as avenidas conturbadas das metrópoles e o poste.”

O Pau de Arara e O Tigre – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Ana, também pós-doutoranda no MAC e professora de Teoria, Crítica e História da Arte da UnB – Universidade de Brasília, avisa: “As imagens nos cutucam. São incômodas. Nos fazem encolher e tensionar. A iconografia de castigos físicos infligidos aos escravizados, ontem e hoje, que o artista registra, constitui um episódio que a história brasileira reluta em reconhecer”.
A curadora esclarece que o artista não é antropólogo, nem sociólogo. “Sua atuação no mundo é da ordem da escuta e do diálogo. Entretanto, ele pode lançar mão de estratégias e procedimentos pertencentes a essas áreas do conhecimento científico.”

Exposição resgata a trajetória do artista – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Helouise Costa, professora e curadora do MAC, considera que “a biografia de um artista não explica sua obra, mas oferece pistas importantes sobre a sua visão de mundo. Fyodor Pavlov-Andreevich nasceu na Rússia e tem vivido nos últimos anos entre Moscou, Londres e São Paulo. A sua sensibilidade apurada para as desigualdades sociais, aliada à experiência do constante deslocamento por grandes metrópoles do mundo, favoreceu o desenvolvimento de uma obra que explicita contradições e preconceitos naturalizados no cotidiano das sociedades pelas quais ele transita. E é, justamente, a sua condição de estrangeiro, com a capacidade de estranhamento que lhe é própria, que faz dele um observador perspicaz e crítico da sociedade brasileira atual”.

A exposição Monumentos Temporários, do artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich, sob a curadoria de Ana Avelar, fica em cartaz até 13 de agosto de 2017, às terças-feiras, das 10h às 21h, e de quarta-feira a domingo, das 10h às 18h, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), localizado na Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. A entrada é gratuita. Mais informações podem ser obtidas no endereço eletrônico www.mac.usp.br/mac/.

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