Paris da boemia e da prostituição está em São Paulo

A Cidade Luz anoitece com Toulouse-Lautrec. No Masp, o público observa a nudez das mulheres e o machismo dos homens

Por - Editorias: Cultura
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O Divã, cerca de 1893 – Imagem: Acervo Masp

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As mulheres, sob os pincéis de Toulouse-Lautrec, estão pela noite, no fervilhar dos cabarés. Algumas sentadas no divã. Outras nuas, e há ainda aquelas à espreita e ao dispor dos homens dançando ou bebendo. De cartola, bem vestidos, eles ostentam o brio machista.

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São essas cenas entre prostitutas e boêmios da Paris do final do século 19 que o Museu de Arte de São Paulo (Masp) registra na exposição Toulouse-Lautrec em Vermelho. Considerada a maior do País dedicada ao francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), reúne 75 obras. Entre elas, há nove das 11 obras que pertencem ao acervo do Masp. São pinturas, gravuras, cartazes que vieram de coleções particulares e dos grandes museus do mundo, como Musée d’Orsay, de Paris; Tate e Victoria & Albert Museum, de Londres; The Art Institute of Chicago; National Gallery of Art, de Washington; Museo Thyssen-Bornemisza, de Madri e Von der Heydt-Museum Wuppertal, da Alemanha.

Monsieur Fourcade, 1889 – Imagem: Acervo Masp

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O visitante é conduzido ao universo da prostituição por três obras que retratam a recepção do bordel da rue des Moulins, o preferido do artista. Pregadas no primeiro dos diversos murais vermelhos enfileirados estão O divã (cerca de 1893), Estudo para No salão da rue des Moulins (1894) e As duas amigas (1894). As obras mostram os sofás de veludo, as mulheres recostadas com poses sensuais e uma ambientação que justifica o título da mostra.

Luciano Migliacio, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e curador adjunto da mostra e de arte europeia do Masp, destaca o escandaloso traço da liberdade de Toulouse-Lautrec, tema que apresenta no catálogo que acompanha a mostra. “Ele conseguiu inventar uma nova pintura histórica, feita não mais de heróis, mas de prostitutas, boêmios e artistas marginalizados, os excluídos pela sociedade da belle époque seduzida pelo sucesso material.”

Artista com Luvas Verdes – A cantora Dolly do “Café Star” de Le Havre, 1899 – Imagem: Acervo Masp

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O artista e a dinâmica da existência

Migliacio fala sobre a importância da mostra em São Paulo (assista ao vídeo produzido pela TV USP). Explica que o Masp, com 11 obras do pintor em seu acervo, é o único museu no Brasil e na América do Sul que registra todas as fases da trajetória do pintor. “Desta constatação surgiu a ideia de organizar a mostra Toulouse-Lautrec em Vermelho, a fim de oferecer ao público a possibilidade de ver essas obras no contexto de outras produções do artista, no campo da pintura e da gráfica, focando o seu papel de cronista de novos estilos de vida e de uma nova sexualidade surgidos na modernidade.”

A Grande Maria, cerca de 1886 – Imagem: Acervo Masp

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Além de irônico cronista da boemia, Toulouse-Lautrec, segundo aponta Migliaccio, trouxe uma nova noção da forma figurativa, incorporando elementos emotivos e dinâmicos. A pintura, através da sua arte, deixa de ser um espaço da representação, mas da própria existência. “Em suas obras, o espaço e o tempo, intrinsecamente unidos, são dados imediatos da consciência, para usar as palavras do filósofo Henri Bergson. Por esse motivo, Lautrec pode ser considerado uma das principais referências para todas as poéticas da imagem posteriores do impressionismo”, observa. “Esta mostra oferece uma oportunidade única para compreender, de forma mais profunda, o lugar desse artista ímpar dentro da história da arte de seu tempo e os diversos significados para a cultura da atualidade.”

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Mestre de traços essenciais

Toulouse-Lautrec impressiona pela forma como capta o movimento do ambiente e o traduz em pinceladas densas, em um gesto ritmado com as cores indefinidas. O verde que se mistura ao preto, o branco sempre difuso. Ou o vermelho que define as bordas da mesa de madeira em A la Bastille, onde uma cortesã com vestido preto, de mangas compridas e uma fita em laço na altura do pescoço, aguarda alguém, sentada com um cálice nas mãos. Olha para o nada. Através dos olhos de seus personagens, o pintor parece questionar a existência.
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Em suas melhores obras, Lautrec foi um mestre em exprimir complexos conteúdos humanos com poucos traços essenciais. Para tanto, como em todos os grandes artistas, a sua técnica era intrinsecamente ligada às suas intenções expressivas.
Luciano Migliacio, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e curador adjunto da mostra Toulouse-Lautrec em Vermelho

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A mostra Toulouse-Lautrec em Vermelho registra também a vida difícil do artista. Nasceu em Albi, na França, no dia 24 de novembro de 1864, em uma família de nobres decadentes. Tinha uma doença congênita nos ossos agravada por dois acidentes. Suas pernas foram afetadas e não se desenvolveram. Diante dessa deformidade, o pai o rejeitou. O artista apegou-se à mãe, a condessa Adèle, que retratou com uma blusa branca em um jardim junto de uma massa de flores. Uma obra que integra o acervo do Masp e está presente na mostra. Para o pintor, a mãe está à margem do universo das mulheres com quem se relacionava. Outra referência da vida do artista está na obra Paul Viaud em Almirante do século 18, um de seus últimos quadros. Viaud era amigo da família e, a pedido de sua mãe, cuidou do artista quando saiu da clínica psiquiátrica onde estava internado.

Paul Viaud em Almirante do século 18, 1901 – Imagem: Acervo Masp

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A pintura que pertence ao acervo do Masp é apresentada em destaque no núcleo dos homens. “Viaud é uma figura vigorosa, corpulenta, que ocupa o primeiro plano com a imponente massa vermelha da jaqueta de comodoro inglês”, explica Migliaccio. “Com sua peruca do século 18, Viaud representa o passado e a autoridade. Fora talvez o último porto seguro, mas o barco à deriva do pintor prossegue em sua rota no mar em direção a um destino sombrio, como o céu da tormenta.”

Moulin de la Galette, 1889 – Imagem: Acervo The Art Institute of Chicago

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Toulouse-Lautrec em Vermelho
, exposição no Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, 1.578, São Paulo. De terça a domingo, das 10 às 18 horas, quinta-feira das 10 às 20 horas. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (estudantes, professores, maiores de 60 anos), menores de 10 anos não pagam. Na terça-feira, a entrada é franca para todos. Maiores informações pelo tel. (11) 3149-5959. Até 1º de outubro de 2017.
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