Palestra aborda teatro russo de vanguarda no período da revolução

Nesta quinta-feira, dia 25, professora da USP fala sobre o experimentalismo artístico na Rússia em 1917

Por - Editorias: Cultura
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Cena do teatro russo em 1902, com Stanislavsky sentado sobre a mesa – Foto: Wikimedia Commons

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A Revolução Russa, que completa 100 anos em 2017, foi um período de efervescência política, social e cultural que culminou em uma série de vanguardas no campo das artes, denominadas Vanguardas Russas. Entre elas, o teatro russo de vanguarda é tema da próxima palestra do ciclo
1917: O Ano que Abalou o Mundo, promovida pelo Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em parceria com a Editora Boitempo. O evento está marcado para as 19h30 desta quinta-feira, dia 25, e terá apresentação da professora Arlete Cavaliere, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

A professora explica que essas vanguardas tomaram forma em grande parte pelas mãos de uma juventude intelectualizada. “Esses jovens artistas manifestam uma tendência acentuada em direção a novos procedimentos estéticos e ao descontentamento com relação à linguagem convencional e passadista.”

Arlete associa essa linguagem anterior a 1917 em especial a duas figuras: Konstantin Stanislávski (1863-1938), reconhecido universalmente como chefe da tendência realista e psicológica do teatro russo e um dos fundadores do Teatro Popular de Arte de Moscou, e Vsévolod Meyerhold (1874-1940), que atuou na companhia e posteriormente rompeu com ela para se tornar um dos precursores da vanguarda teatral do país.

A professora cita a distinção feita por Yevgeny Vakhtangov (1883-1922), outro importante nome da vanguarda teatral russa, entre Meyerhold e seu mestre Stanislávski: “Para Meyerhold, uma representação é teatral quando o espectador não se esquece nem por um segundo que está no teatro e a todo momento tem consciência de que o ator é um homem de seu ofício que está desempenhando um papel. Stanislávski exige o contrário: que o espectador se esqueça de que está no teatro, tornando-se submerso na atmosfera na qual existem os protagonistas de uma obra”. 

 

Vladímir Maiakóvski – Foto: Wikipédia

Meyerhold era uma “figura polêmica, muito discutido e desprezado pela maior parte dos críticos, mas que impressionava o público e os profissionais de teatro como um grande inovador que se preocupava, sobretudo, em criar um ‘teatro do espetáculo’, no qual a ênfase estava nos recursos externos, visuais e auditivos”, afirma Arlete. “Contaminado, certamente, pelas novas correntes estéticas do início do século 20, afirma-se logo como um antirrealista e passa a desafiar, não só através de sua prática artística como encenador, mas também como teórico e pensador, o academismo e o realismo-naturalismo na arte.”

Vsevolod Meyerhold – Foto: Wikipédia

Essa orientação abstratizante, segundo a professora, está presente em todo o teatro russo de vanguarda, sobretudo aquele que se desenvolveu com a revolução, mas também em outras áreas artísticas do país, como a literatura e a pintura. “A ampla renovação que ocorre em diversos campos artísticos é como que tragada pela cena soviética, numa perfeita simbiose de tendências, que resultou numa profusão de novas propostas e experiências teatrais, as mais inusitadas e revolucionárias, segundo uma nova concepção do fenômeno teatral.”

Assim, após a revolução, houve um desenvolvimento e uma intensificação dessas novas vertentes, concebidas no período anterior a 1917. “Os artistas de vanguarda se apresentam como representantes genuínos da nova era proletária, numa combinação de extremismo na forma com uma acentuada propaganda política. É preciso salientar que os palcos da vanguarda exprimem com entusiasmo o ímpeto e o fervor da revolução.”

Tamboreiros da Revolução

Além de Meyerhold e Vakhtangov, a professora Arlete Cavaliere cita como figuras importantes do teatro russo de vanguarda o poeta e dramaturgo Vladímir Maiakóvski (1893-1930) e nomes do futurismo russo como Vielímir Khlébnikov (1885-1922), os irmãos David e Nikolai Burliuk (1882-1967 e 1890-1920) e Alekséi Krutchônikh (1886-1968). Estes, segundo Arlete, logo após a Revolução de Outubro se autodenominaram “tamboreiros da Revolução”, com a intenção de “ensinar o homem da rua a falar”.

“Isso significa destruir os antigos valores e construir os novos, isto é, propõem a reorganização consciente da linguagem artística aplicada a novas formas de ser”, explica a professora.

Ela ressalta, entretanto, que nem todos os artistas e diretores teatrais da vanguarda tiveram compromissos políticos. “Grande parte desses inovadores (Taírov, Granóvski, Radlov e outros) adere ao regime soviético como forma entusiasmada de experimentar novas possibilidades artísticas, que poderiam desencadear nos palcos o ritmo tempestuoso da revolução.”

A professora da USP Arlete Cavaliere – Foto: Wikipédia

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As vanguardas russas levaram também à Europa Ocidental (e ao mundo), segundo a professora, um novo tipo de cultura artística. Embora as criações dos artistas do movimento tenham sido aceleradas pelo contato com outras vanguardas ocidentais, como o futurismo italiano e o cubismo francês, elas passam longe de ser meras reproduções, sendo “extremamente originais ao encontrar soluções para problemas estéticos e artísticos”.

“Em vez de uma arte realista tendente à descrição detalhada da realidade social, à descoberta dos segredos da alma humana ou à proclamação de verdades morais, religiosas, sociais e ideológicas, os vanguardistas russos levavam à Europa propostas novas e inesperadas, a expressar um mundo de fantasia, ao lado de pesquisas profundas sobre a língua, sobre as sensações, o inconsciente, o pensamento mitológico, de onde surgiam os novos elementos das formas, dos signos, dos meios de expressão e de comunicação”, analisa Arlete.

“A Revolução Russa de 1917 gerou naquele período um dos movimentos culturais e artísticos mais surpreendentes e multifacetados da história da arte moderna. Neste ano do seu centenário, nada mais instigante do que refletir sobre os possíveis desdobramentos daquelas experiências e sobre o seu legado para o teatro e a arte no século 21”, conclui.

Na palestra Teatro Russo e Revolução: Experimentalismo e Vanguarda, a professora Arlete Cavaliere abordará a arte teatral produzida no período da Revolução Russa, tanto no plano da dramaturgia como também em sua expressão cênica, apresentando uma visão plural do teatro russo de vanguarda e avaliando as experiências artísticas da cena soviética em simbiose com as mais variadas tendências estéticas daquele momento. A professora examinará também alguns textos de Vladímir Maiakóvski ao longo de sua exposição.

O encontro acontece nesta quinta-feira, dia 25, às 19h30, no quarto andar do Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, na Rua Dr. Plínio Barreto, 285, na Bela Vista. É necessário realizar inscrição no site do CPF-Sesc ou nas unidades do Sesc em São Paulo. Os valores do ingresso são R$ 9,00 para trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo matriculados no Sesc e dependentes; R$ 15,00 para idosos, estudantes, pessoas com deficiência e professores da rede pública com comprovante; e R$ 30,00 inteiro.

Para outras informações e a programação completa do ciclo 1917: O Ano que Abalou o Mundo, acesse www.centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br.
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