“O IEA ajudará a USP a responder aos desafios contemporâneos”

Leia a seguir o discurso do professor Guilherme Ary Plonski ao assumir o cargo de vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

Por - Editorias: Cultura
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GUILHERME ARY PLONSKI, vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

 

Guilherme Ary Plonski - Foto: Maria Leonor de Calasans/IEA
Guilherme Ary Plonski – Foto: Maria Leonor de Calasans/IEA

No debate público sobre a plataforma para a gestão 2016-2020, o colega e agora amigo professor Paulo, notório brincalhão, apresentou a nossa candidatura dizendo que, se eleitos fôssemos, o instituto daria um passo para trás para poder dar um salto para frente, sendo ele o responsável pelo passo para trás e eu pelo salto para frente…

Aproveito o fato de o cerimonial me haver colocado para falar primeiro para, desta vez, invertermos os papéis. Falarei brevemente sobre o passado, para o Paulo poder melhor falar sobre o futuro do IEA-USP.

A história dos Institutos inicia-se em 1930, com a criação do primeiro Institute of Advanced Studies (IAS), em Princeton (EUA). Seu criador foi Abraham Flexner, notável educador inovador, que já se havia notabilizado pela revolução no ensino e na prática da medicina decorrente das recomendações do que ficou conhecido como Relatório Flexner, publicado em 1910.

Pois bem, graças a uma doação generosa, criou ele o IAS pioneiro, um modelo inovador cuja diretriz era (e é) a busca do conhecimento pelo conhecimento. Pode parecer que, 20 anos depois, ele estava indo em sentido oposto à sua atuação anterior, onde se preocupara em colocar o conhecimento a serviço do que pode haver de mais prático – salvar vidas humanas. Nada mais distante da realidade. Recomendo um interessante artigo escrito por ele em 1939, ano final da sua gestão no IAS, que tem o curioso título A utilidade do conhecimento inútil (no original, The usefulness of useless knowledge). Flexner defende ali ser a busca do conhecimento per se também o fundamento dos produtos inovadores que passaram a fazer parte do cotidiano das sociedades modernas, como ilustrado pela trajetória que leva das ondas eletromagnéticas, descobertas por Maxwell, ao rádio, inventado e produzido por Marconi.

Realço dois elementos históricos do alvorecer da saga dos Institutos Avançados. Em primeiro lugar, o fato de o IAS pioneiro ter sido fundado em meio à Grande Depressão econômica e social que derivou da Crise de 1929. Permito-me extrair e compartilhar dois ensinamentos que, a meu juízo, são relevantes para a nossa realidade atual: nas situações de crise é preciso investir ainda mais em conhecimento; e, para lidar com os novos desafios, devemos ser criativos e formular modelos institucionais inovadores.

O segundo elemento histórico é o fato de o IAS de Princeton ter sido o abrigo de intelectuais judeus da Europa Central em busca desesperada de refúgio da barbárie nazista que se avizinhava. No artigo antes referido, Flexner inclui, em seus diversos agradecimentos pelo apoio na construção do instituto, um irônico crédito a Hitler por Einstein, Von Neumann e outros talentos excepcionais.

Foi também a absorção de intelectuais refugiados uma das motivações iniciais dos docentes que propuseram a criação de um IEA na USP. Conforme consta na seção histórica do nosso rico portal, a ideia surgiu em 1979, quando da anistia dos professores aposentados pelos Atos Institucionais. Entre eles, estavam vários cientistas e intelectuais de renome que, distanciados da Universidade em razão das transformações por ela sofrida durante seu afastamento compulsório, poderiam ser abrigados mais adequadamente no instituto.

Esse sonho se tornou realidade em 29 de outubro de 1986 (temos exatos quatro meses para a festa dos 30!), no primeiro ano da gestão reitoral do professor José Goldemberg. Das atribuições dadas ao instituto é especialmente próxima à diretriz do IAS pioneiro a seguinte: Favorecer novas ideias, resultantes do convívio, do confronto e da interação entre as diversas áreas de trabalho intelectual.

Paulo e eu temos o privilégio – e a responsabilidade – de receber um instituto vibrante, internacionalmente reconhecido, com resultados relevantes para o avanço do conhecimento e para a sociedade como um todo. Apenas como ilustrações, menciono:

  • O Projeto Floram que, nascido como um projeto de reflorestamento para o ambiente planetário (flor: florestas; am: ambiente; daí Floram) acabou gerando, por meio de uma confluência de contribuições interdisciplinares e intersetoriais, entre outros, projetos de florestas sociais; florestas para bloqueio de desertificação; bosques e áreas verdes periurbanas; revegetação e bosqueamentos viáveis para as regiões semiáridas brasileira. E,
  • A revista Estudos Avançados, editada pelo nosso incansável professor Alfredo Bosi, que é campeã de acessos no portal de periódicos Scielo – está chegando aos 30 milhões.

Para isso o instituto contou com o apoio da comunidade e das sucessivas administrações da USP – aproveito para convergir o agradecimento ao professor Zago. Vem também tendo, desde o primeiro, um conjunto notável de dirigentes, já citados pelo prof. Martin, destacando a presença esta noite de dois deles, professores Carlos Guilherme Mota e João Evangelista Steiner.

Há hoje algo como cem IEAs no mundo, 36 dos quais integram a Rede de Institutos de Estudos Avançados Baseados em Universidades (a sigla em inglês é Ubias), criada em 2010[1]. O projeto emblemático dessa Rede cooperativa é a Intercontinental Academia. Trata-se de uma iniciativa inovadora, que promove o intercâmbio científico entre gerações, disciplinas, culturas e continentes, investindo particularmente em cientistas jovens (30 a 40 anos) de diferentes áreas do conhecimento, engajando-os no estudo interdisciplinar colaborativo.

A primeira edição, envolvendo a USP e a Universidade de Nagoya (no Japão), teve como tema o Tempo, com curadoria da nossa conselheira professora Regina Pekelman Markus. A segunda, em andamento, envolve a Universidade Hebraica de Jerusalém e a Universidade de Bielefeld (na Alemanha), e tem como tema a Dignidade Humana – tema cuja importância e atualidade são ressaltadas no belo texto enviado pelo professor Martin Grossman. Os brilhantes jovens participantes da primeira edição estão preparando um trabalho sobre o tema Tempo, que disponibilizará os resultados desse estudo avançado para todas as pessoas que têm acesso à internet.

O reconhecimento à contribuição da USP acaba de resultar (na semana passada, em Birmingham) na eleição do IEA-USP para a vice-direção da Rede Ubias e na aclamação da USP como sede da quarta conferência bienal de dirigentes dos institutos, que se realizará no primeiro semestre de 2018.

De 1930 até hoje as ideias sobre muitos temas evoluíram. Ficou claro, especialmente após o modelo elaborado por Donald Stokes, que é possível produzir conhecimento científico novo disruptivo e, ao mesmo tempo, resolver problemas agudos da sociedade – sendo emblemático o caso de Louis Pasteur. Um conjunto de sociólogos da ciência liderado pelo britânico Michael Gibbons[2] desenvolveu o conceito de modos de produção do conhecimento. Enfatiza o grupo a importância crescente do que chama de Modo 2, em que a pesquisa deriva de problemas do mundo real, confluindo contribuições de diversas disciplinas e setores, em arranjos organizacionais não-hierárquicos envolvendo equipes variáveis, com lideranças transientes. Soa familiar, não é mesmo…

Consolido a minha leitura da história de 86 anos dos IAS – pouco mais do que a idade da USP – estacionando por uns instantes no presente, a caminho do futuro sobre o qual o professor Paulo discorrerá.

Entendo que o IEA ajudará a USP a responder aos desafios contemporâneos cumprindo quatro papéis essenciais: interligar, inspirar (especialmente jovens talentos, aproximando-os dos veteranos) inovar e incubar soluções, que serão operadas por outros agentes. Quatro ins, portanto.

A realização deste evento no encantador Instituto Tomie Ohtake (ITO) simboliza o primeiro papel, o de interligação, ao aproximar ainda mais a USP do governo, da comunidade empresarial e do terceiro setor. Simboliza, também, a reciprocamente benéfica interligação entre C&T e Arte, uma das novas iniciativas envolvendo a USP e o ITO, aludida pelo nosso anfitrião e conselheiro do instituto, Ricardo Ohtake.

 

[1] O IAS de Princeton se localiza próximo à Universidade de Princeton, mas não é parte dessa Universidade.

[2] O Prof. Simon Schwartzman, que então era colega da USP, fez parte desse grupo.

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