Livro revela a ainda pouco conhecida filosofia judaica medieval

Com 840 páginas, “Na Senda da Razão” traz 27 artigos sobre o pensamento de filósofos judeus que viveram entre os séculos 9 e 15, como Maimônides, Ibn Gabirol e Ibn Paquda

Por - Editorias: Cultura
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Yehudá Halevi - Foto: Reprodução
Yehudá Halevi criticou a filosofia grega por sua confiança na razão humana – Foto: Reprodução

A filosofia judaica medieval não pode ser considerada mera cópia ou reprodução da filosofia árabe, como já foi vista por historiadores. Antes, ela representa um original esforço intelectual para interpretar os mistérios do mundo, Deus e a natureza humana. Essa reavaliação do pensamento judaico desenvolvido durante a chamada Idade Média é confirmada pelo livro Na Senda da Razão – Filosofia e Ciência no Medievo Judaico, organizado pela doutora em Filosofia pela USP Rosalie Helena de Souza Pereira e publicado recentemente pela Editora Perspectiva.

Maimônides - Foto: Reprodução
Maimônides afirmou que a verdade filosófica é idêntica à verdade bíblica – Foto: Reprodução

Com 840 páginas, o livro traz 27 artigos – escritos por 22 autores de diferentes origens e tendências -, que abordam o pensamento de filósofos judeus que viveram entre os séculos 9 e 15. “Reconhecer a relevância da filosofia judaica medieval, junto com a filosofia árabe-islâmica medieval, é o que se propõe ao se publicarem ensaios sobre obras de autores que até há bem pouco tempo eram reduzidas a meras notas de rodapé no contexto da filosofia geral ocidental, cujo fio condutor é a filosofia greco-romana que se propagou nos meios cristãos até chegar à Renascença e ao Iluminismo”, escreve Rosalie Pereira, na apresentação do volume. “Mas, como se tem visto nas últimas décadas, ambas as filosofias, a judaica e a árabe-islâmica, não podem mais ser consideradas à parte da filosofia que se conhece no Ocidente.”

Ainda de acordo com Rosalie, o pensamento judaico medieval recebeu influência da filosofia grega, principalmente através da filosofia árabe-islâmica, que teve início do século 9 com o filósofo árabe Al-Kindi (800-870). “Tanto árabes como judeus teceram grandes comentários às obras gregas, seja as de conteúdo filosófico, como, por exemplo, o corpus aristotélico, seja as de conteúdo científico, com os textos do médico Galeno, que permaneceram como referência nas escolas europeias de medicina até o século 17.”

Ibn Gabirol - Foto: Reprodução
Ibn Gabirol usou a poesia para expor reflexões filosóficas – Foto: Reprodução

Os artigos publicados em Na Senda da Razão são uma ótima introdução ao pensamento dos filósofos medievais judeus – tanto os mais conhecidos como aqueles ainda ignorados no Ocidente. Como não poderia deixar de ser, Maimônides (1135-1204) aparece com destaque no livro. Um dos artigos dedicados a esse pensador, escrito por Sara Klein-Braslavy, analisa seus comentários à Bíblia. “Embora Maimônides não tenha escrito nenhum comentário sistemático sobre os livros da Bíblia, a exegese bíblica ocupa lugar central em seus escritos, sobretudo no Guia dos Perplexos“, escreve Sara. “Na Introdução ao Guia, Maimônides explica que o livro se destina a judeus de fé, que observam os mandamentos e aceitam a Bíblia como autoridade, mas também leram a filosofia aristotélica e a aceitam. Quando pessoas assim descobrem contradições entre a compreensão literal da Bíblia e os princípios da filosofia, ficam perplexas. A exegese de Maimônides pretende dar solução à sua perplexidade mostrando que a verdade bíblica é idêntica às verdades da filosofia, de modo que é possível ser judeu e filósofo ao mesmo tempo.”

Isaac Israeli - Foto: Reprodução
Isaac Israeli – Foto: Reprodução

A produção poética de Salomão Ibn Gabirol (1021-1058) é analisada por Nachman Falbel no artigo “Filosofia e poética no pensamento de Salomão Ibn Gabirol”. Nele, Falbel destaca a obra desse pensador como “um dos momentos mais elevados da poesia hebraica medieval”, lembrando que, nos últimos tempos, estudiosos têm apontado em sua criatividade poética elementos que completam e elucidam conceitos pertinentes à sua filosofia. “Um aspecto peculiar na obra do jovem poeta é a insistente afirmação do tema da incessante busca pela hokmá, sabedoria, como escopo de sua curta vida, que mescla o fazer poético com a busca pelos segredos do universo.”

Falbel cita versos de alguns poemas de Gabirol. “Seu belíssimo poema lírico ‘Ani ha-‘Ish (Eu Sou Homem) enfatiza que ‘desde jovem escolheu a sabedoria’. Em outro poema, Nefesh ‘Asher ‘Alu (Alma que se Eleva), exclama convicto da própria superioridade intelectual: “Como poderei abandonar a sabedoria se o Espírito divino estabeleceu uma aliança entre ela e mim?”.

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O livro lançado pela Editora Perspectiva – Foto: Reprodução

Outro pensador que é considerado uma das grandes figuras entre os filósofos judeus da Idade Média é Bahya ben Yussef Ibn Paquda, nascido em Saragoça, na Espanha, em 1050. O artigo “Ibn Paquda, Figura-Chave do Pensamento Judaico e Universal”, de Joaquín Lomba, destaca a obra fundamental desse pensador, o Livro sobre a Direção dos Deveres do Coração, conhecida como Os Deveres do Coração.

A respeito desse livro, Lomba observa: “O primeiro mérito de Os Deveres do Coração é a tentativa séria e sistemática de construir uma ética baseada na razão, e não apenas na religião, como era costume proceder até então no interior do judaísmo”.

A tentativa de racionalizar a vida ética é verificada tanto em Ibn Paquda como em Ibn Gabirol, mas de modos distintos, nota Lomba. Em Gabirol, trata-se de um racionalismo científico baseado na cosmologia e na fisiologia. Em Ibn Paquda, o que ocorre é uma sistematização lógico-dedutiva de toda a ética com base em um princípio filosófico, como a Unidade, a transcendência e o domínio absoluto do Criador sobre todas as coisas. Ibn Paquda “faz a dedução a partir da Unidade de Deus, com o que revela uma sólida influência da teologia mutazilita islâmica (que se faz presente em muitos outros aspectos) aplicada à religião judaica, e utilizando princípios estritamente filosóficos”.

Se houve pensadores judeus que buscaram integrar a fé à filosofia – como Ibn Gabirol e Ibn Paquda -, houve também aqueles que repudiaram essa aproximação. É o caso de Yehudá Halevi (1075-1141), tema de artigo escrito por Rafael Ramón Guerrero, também publicado em Na Senda da Razão. Halevi “passou para a história do pensamento judaico medieval por seu rigoroso ataque à filosofia de origem grega”, escreve Guerrero.

Esse ataque ao pensamento grego está registrado na principal obra de Halevi, Sefer ha-Kuzar – ou Kuzari, como ficou conhecido. “Yehudá Halevi demorou mais de 20 anos para compor o texto, o qual, apesar de algumas revisões, manteve muitas de suas primeiras opiniões. Destas constam sua inicial afirmação da supremacia do judaísmo e sua rejeição à filosofia grega (na versão árabe) como a mais perigosa de todas as doutrinas (incluídas as outras religiões) por sua confiança na razão humana”, escreve Guerrero.

Outros pensadores judeus medievais analisados em artigos no livro Na Senda da Razão são Isaac Israeli, Sa’adia Gaon, Abraão Bar Hiyya e Abraão Ibn Ezra. Há também textos sobre Abraão Ibn Daud, Samuel Ibn Tibbon, Shem-Tov Ibn Falaqera, Abraão Abuláfia, Narboni, Gersônides e Hasdai Crescas.

Na Senda da Razão – Filosofia e Ciência no Medievo Judaico, de Rosalie Helena de Souza Pereira (organização), Editora Perspectiva, 840 páginas.

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