Livro mostra em detalhes a trajetória de Claude Lévi-Strauss

Historiadora francesa lança na USP, no dia 9, a mais completa biografia do antropólogo francês

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Registro do último curso de Claude Lévi-Strauss no Collège de France, em 1982  – Foto: Jean-Pierre Martim / Collège de France

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Em seu escritório no quinto andar do número 2 da Rua des Marronniers, em Paris, na França, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) mantinha uma biblioteca de 12 mil volumes com a qual podia dar ao volta ao mundo sem deixar seu gabinete. Na parede à esquerda da sua escrivaninha, repousavam obras sobre a África, a Oceania e a Ásia. À direita, estava representada a América do Sul e, atrás, na quina, a América do Norte. Decorando o aposento, viam-se uma imagem da Tara Verde, divindade assexuada do Nepal, um crocodilo tailandês empalhado, uma raiz de árvore esculpida chinesa, a clava haida, de cedro, usada para abater peixes e descrita no livro O Pensamento Selvagem, um cubo de pedra lápis-lazúli e um punhal, entre vários outros objetos originários das mais diversas regiões do planeta.

Lévi-Strauss em seu escritório, em 1966 – Foto: René Saint-Paul / Rue des Archives

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Essa descrição está na introdução do livro Lévi-Strauss, da historiadora francesa Emmanuelle Loyer, celebrado como a mais completa biografia já escrita do antropólogo franco-belga, que acaba de ser publicado no Brasil pelas Edições Sesc São Paulo. Com 784 páginas e tradução de André Telles, a obra será lançada no dia 9 de maio, quarta-feira, às 17 horas, na Sala Villa-Lobos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, com a presença de Emmanuelle Loyer, acompanhada da professora Fernanda Arêas Peixoto, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. No dia anterior, 8 de maio, às 19 horas, a autora lança a obra no Sesc da Avenida Paulista, em São Paulo. Haverá lançamento também em Brasília (dia 10, às 11 horas, na Universidade de Brasília) e no Rio de Janeiro (dia 11, às 18h30, na Maison de France).

Jovem cadiuéu com face ornamentada por um “labirinto de arabescos assimétricos alternando com motivos de uma geometria sutil”, conforme descrição do antropólogo: um dos primeiros mistérios que atiçaram a curiosidade do jovem Lévi-Strauss – Foto: Divulgação / BnF

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Para escrever Lévi-Strauss – originalmente publicado em 2015 pela Editora Flammarion, de Paris -, Emmanuelle explorou os arquivos pessoais de Claude Lévi-Strauss, compostos de 261 caixas de papelão depositadas no Departamento de Manuscritos da Biblioteca Nacional da França. Ali, a historiadora pousou os olhos em documentos inéditos, consultados pela primeira vez. Além disso, fez pesquisas em arquivos localizados na França, nos Estados Unidos e no Brasil, onde o antropólogo atuou como professor da USP e fez expedições exploratórias ao Centro-Oeste e ao Sul, entre 1935 e 1939.

Máscara da Colúmbia Britânica, na América do Norte: encontradas por Lévi-Strauss no Museu de História Natural de Nova York, elas fascinaram o antropólogo e foram analisadas em seu livro A Via das Máscaras – Foto: Werner Forman Archive / Bridgeman Images

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Dividido em quatro partes, o livro reconstitui em detalhes cada fase da longa trajetória de Lévi-Strauss, desde o seu nascimento, em Bruxelas, na Bélgica, até sua morte, aos 100 anos, em Paris. Jovem professor secundarista, no início de sua carreira ele foi convidado pelo diretor da École Normale Supérieure (ENS) de Paris, Celestin Bouglé, a integrar um grupo de professores franceses contratados para dar aulas na então recém-fundada Universidade de São Paulo, que incluía o historiador Fernand Braudel, o filósofo Jean Maugüé e o geógrafo Pierre Monbeig. Ao aceitar o convite, o jovem professor estava definindo toda a sua carreira futura, como ele mesmo revelaria depois, ao mencionar que a estada no Brasil foi fundamental para despertar sua “vocação etnográfica”.

Mulher nambiquara, do Mato Grosso, e seu bebê dormindo nus: imagem publicada em Tristes Trópicos expressa a “ternura humana” celebrada pelo antropólogo – Foto: Levi-Strauss / BnF

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Emmanuelle escreve que, na USP, Lévi-Strauss desenvolve um programa de ensino centrado na observação atenta do real e no primado do empírico, em detrimento de toda tentação especulativa. “Contra uma sociologia que ele qualifica de ‘metafísica’, defende a ideia segundo a qual o conhecimento dos povos primitivos, isto é, a etnografia, é indispensável a toda boa formação sociológica.” Seu leque de interesses – afirma a historiadora, citando resumos de aulas conservados nos anuários da Universidade – vai da sociologia primitiva à antropologia urbana, passando pela linguística, a etnolinguística e a antropologia física. As memórias de Lévi-Strauss sobre a passagem pelo Brasil seriam registradas principalmente no seu livro Tristes Tropiques (Tristes Trópicos), de 1955.

Uma máscara dzonokwa, do povo kwakiult, da Colúmbia Britânica, na América do Norte: carrancas ferozes, com cabelos avermelhados, olhos fundos e boca com grande abertura – Foto: Divulgação / Milwaukee Public Museun

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De volta à França em 1939, Lévi-Strauss permanece naquele país por cerca de dois anos. Em razão dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, com parte do território francês ocupado pelo exército nazista e a crescente onda antissemita na Europa, ele é forçado a se exilar, instalando-se nos Estados Unidos, onde viveu de 1941 a 1947.

Idosa cadiuéu, do Mato Grosso, com face ornamentada – Foto: Divulgação / BnF

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Foi em Nova York que se deu o encontro de Lévi-Strauss com o linguista russo Roman Jakobson – criador do método de análise estrutural da linguagem -, que determinou a “cristalização” do estruturalismo no pensamento do antropólogo, como afirma Emmanuelle. A historiadora reproduz a lembrança de Lévi-Strauss: “Na época eu era um estruturalista ingênuo. Eu praticava o estruturalismo sem saber. Jakobson me revelou a existência de um corpo de doutrina já constituído numa disciplina que eu jamais praticara: a linguística. Para mim, foi uma iluminação”.

Outro exemplo de máscara dzonokwa, do povo kwakiult – Foto: Rebecca Pasch / UBC

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Máscara swaihwé, do povo salish, da costa noroeste dos Estados Unidos: tipicamente branca, com olhos protuberantes e a língua pendente – Foto: Jessica Bushey / UBC Museun Anthroopology

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O livro da historiadora francesa Emmanuelle Loyer – Foto: Divulgação / Edições SESC

Nas páginas finais do livro, Emmanuelle se dedica a refletir sobre o legado de Lévi-Strauss. Lembrando que o estruturalismo desapareceu da agenda intelectual internacional, a historiadora destaca que, de certa maneira, o próprio antropólogo acolheu essa dispensa com alívio. “Ele mesmo descrevera a obsolescência programada de suas pesquisas como etapa normal do processo de acumulação de conhecimento”, escreve Emmanuelle. “Em todo caso, teve a satisfação de ver sua obra não só celebrada, comemorada e glorificada (logo, em parte, embalsamada) como obra de pensamento, mas sobretudo reconsiderada, relida por novas gerações que dela haurem um ar especialmente tônico e restituem ao estruturalismo em seu conjunto uma produtividade que ele perdera. É esse ‘retorno’ de Lévi-Strauss em certos jovens filósofos e em parte da antropologia francesa, inglesa e brasileira que constitui a divina surpresa dos anos 1990-2000.”

Lévi-Strauss, de Emmanuelle Loyer, tradução de André Telles, Edições Sesc São Paulo, 784 páginas, R$ 130,00 (o livro pode ser adquirido pelo preço promocional de R$ 91,00 através do site das Edições Sesc).

Na USP, o lançamento do livro acontece no dia 9 de maio, quarta-feira, às 17 horas, na Sala Villa-Lobos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, s/nº, na Cidade Universitária, em São Paulo), com a presença de Emmanuelle Loyer e da professora Fernanda Arêas Peixoto, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Entrada grátis.

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