Livro investiga o modernismo literário na Argentina

Obra do professor Sergio Miceli analisa a prestigiada revista “Sur”, Horacio Quiroga e Alfonsina Storni

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=152886
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O Obelisco de Buenos Aires, na Argentina, erguido em 1937, foi projetado por Alberto Prebisch, um dos principais arquitetos do modernismo argentino – Foto: Nestor Galina – Flickr via Wikimedia Commons / CC BY 2.0

Modernismo. O que há no quintal do vizinho? Quando dedicamos alguns segundos ao movimento, vêm à cabeça Oswald e Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Raul Bopp, Carlos Drummond de Andrade. Avançando um pouco, acenam Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Érico Veríssimo. Conhecemos e identificamos muito bem os frutos da horta nacional, mas que delícias e sabores foram cultivados no terreno argentino?

Sonhos da Periferia – Inteligência Argentina e Mecenato Privado é a resposta erudita e incisiva a essa questão oferecida pelo sociólogo e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Sergio Miceli. A obra, recém-lançada pela editora Todavia, identifica e analisa o papel que a elite desempenhou na trajetória do modernismo literário argentino, sobretudo na década de 1930, traçando comparações com a experiência brasileira.

O foco do sociólogo é a revista Sur, projeto idealizado pela mecenas Victoria Ocampo, que reuniu escritores nacionais e estrangeiros prestigiados na cena literária e intelectual argentina, cujo expoente foi Jorge Luis Borges. Fundado em 1931, o periódico é o exemplo mais bem-sucedido de um modelo de produção cultural baseado no mecenato privado, financiado por membros endinheirados e cultos da elite tradicional do país.

Livros de Jorge Luis Borges ao lado de obras de outros grandes autores: professor da USP analisa a produção do escritor argentino – Foto: Stewart Butterfield / flickr via Wikimedia Commons/CC BY 2.0

Analisando a cena intelectual e literária a partir das condições econômicas, históricas e sociais, Miceli encontra em Sur uma revista feita pela elite para a própria elite, empenhada em ser guia ideológico dos seus pares diante do contexto conturbado pela instabilidade política interna e os inescapáveis conflitos internacionais: a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial.

O pesquisador mostra como as propostas de “arte pela arte” e distanciamento do intelectual ante as questões políticas ecoam o estrangeirismo impregnado nas castas tradicionais e a alienação frente às transformações proporcionadas pela industrialização e imigração em massa. Alinhados com a manutenção dos poderes da elite hereditária, os intelectuais da Sur fugiam de engajamentos políticos explícitos e apelavam para ideais universalistas, metafísicos e não-históricos, empenhados em projetos vagos, nostálgicos e um tanto xenófobos de regeneração moral e espiritual da nação.

Não que tal postura distanciada estivesse livre de desafios. A escalada fascista na Europa e suas repercussões domésticas, principalmente no seio de grupos católicos conservadores, sacode os literatos capitaneados por Ocampo, pautando discussões sobre o papel do intelectual e levando ao abandono da postura neutra, a fim de enfrentar a direita nacionalista na batalha pela liderança intelectual da elite argentina.

O professor Sergio Miceli – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Esse retrato é mostrado por Miceli dentro de uma moldura mais ampla, do protagonismo do mecenato privado, ao contrário da experiência brasileira de compadrio governamental aos autores da década de 1930.

Nos anos preambulares ao surgimento da Sur e durante seu período apoteótico na década de 1930, eram os empreendimentos particulares jornalísticos e editoriais que abrigavam escritores e lhes davam meios de existência. Conjugando trabalhos destinados a agradar ao público amplo dos periódicos com produções autorais, os literatos foram influenciados decisivamente por esse modelo, tanto no que diz respeito aos estilos de seus textos quanto nos conteúdos ideológicos propagados.

Situação diversa da experiência brasileira, na qual autores se viram apadrinhados pelo governo através de confortáveis, generosos e estáveis empregos públicos, fenômeno que imprimiu outro teor para as ideias veiculadas. Se os nomes dos grandes autores nacionais também figuravam nas páginas dos jornais, Miceli destaca que, enquanto o escritor argentino aproximou sua literatura das formas jornalísticas, o brasileiro usou o jornal como suporte para sua prosa.

“O escritor modernista brasileiro é um letrado profissional nas centenas de horas vagas que lhe propiciam os afazeres bem remunerados no setor público e os encargos variados junto às lideranças políticas, além das colaborações esporádicas ou mesmo regulares na grande imprensa, pelas quais ele garante mais uns trocados”, define o sociólogo. “Já o escritor vanguardista argentino é, no mais das vezes, um jornalista empregado na equipe de redatores liderada por algum magnata da imprensa, cujos escritos constituem, com frequência, subprodutos de sua atividade regular de assalariado na imprensa privada.”

Jorge Luis Borges – Foto: Domínio público via Wikimedia Commons

Borges, o sumo sacerdote da Sur

Miceli detém-se longamente no escrutínio da revista e dedica toda uma seção para avaliar a produção especificamente literária da Sur (boa parte do conteúdo veiculado na década de 1930, objeto privilegiado do estudo, era composta de ensaios). É nesse campo que a figura de Borges surge com destaque, alvo de investidas ferinas do professor.

O autor de Ficções e O Aleph é identificado como anti-histórico, averso à sociologia e à abordagem materialista da escrita, feitor de uma literatura para entendidos em literatura. Nada de novo ou ofensivo, já que o próprio argentino endossaria a definição. É o sobrevoo no Borges ensaísta, do começo da carreira e anterior ao estrondo internacional, que enriquece a percepção sobre o escritor. Nessa seara, Miceli encontra um “crítico indômito, voz temível, juiz sentencioso, criollo infalível”, que constrói a própria autoridade definindo o que é boa literatura e como ela deve ser lida.

O pesquisador identifica ainda as influências “plebeias” de Borges, notadamente o romance policial e o o cinema estadunidense. Miceli ilumina o entrelaçamento feito pelo escritor das referências eruditas com os gêneros populares, extraindo uma definição extremamente alicerçada no social e que deve ter feito o argentino se engasgar no próprio túmulo.

“Eram materiais de jogo e de entretenimento, endereçados a leitores seletos, cujos estereótipos povoavam os relatos, na pele de personagens excêntricos, quase máscaras engessadas de classe”, comenta o sociólogo a respeito da produção literária de Borges. “A leitura prazerosa pressupunha o domínio da tradição literária, das cifras capazes de deslindar enigmas compartilhados no círculo de sociabilidade. O pacto de fruição implicava o leitor cúmplice de padrões de gosto, afeito a estrangeirismos, capaz de enfiar a segunda pele do privilégio por merecimento.”

Uma bifurcação radical. No Brasil, os romances enveredados pelo regionalismo. Em Borges, o “sumo sacerdote”, e seus artilheiros (como Adolfo Bioy Casares), o texto destituído de qualquer referência ao entorno social.

Um sorriso aos marginais: Horacio Quiroga e Alfonsina Storni

Depois de devolver ao solo Borges e sua confraria de elite, Miceli reserva as últimas páginas do livro a duas personalidades renegadas pela tertúlia da Sur: Horacio Quiroga e Alfonsina Storni.

O novo livro do professor Sergio Miceli – Foto: Reprodução

Ambos marcados por vidas tumultuadas, sucesso comercial e desprezo da elite intelectual. Quiroga vive o suicídio do pai e do padrasto, é responsável pela morte acidental de um amigo e passa a vida tentando experimentos frustrados como agricultor e homem da selva. Vive casamentos desastrosos com mulheres mais jovens e termina sua história com uma dose de cianureto, recusando ser levado pelo câncer. Já Alfonsina amarga a falência familiar e os empregos de sobrevivência, a trajetória de mãe solteira e a carreira multitarefas de professora, jornalista e poetisa. Assim como Quiroga, com quem teve um romance intermitente durante os anos 1920, acaba com a própria vida antes que um câncer o faça.

Miceli traça a biografia desses dois “marginais”, reabilitados gradualmente pela crítica argentina, declarando simpatia pelas vidas turbulentas que municiaram suas obras literárias. O pesquisador resgata os percursos editoriais e oferece um contraponto à aristocracia da revista de Ocampo, revelando a pluralidade do modernismo argentino.

Sonhos da Periferia – Inteligência Argentina e Mecenato Privado, de Sergio Miceli, Editora Todavia, 184 páginas, R$ 59,90

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