Livro analisa as arquiteturas fantásticas de Murilo Rubião

Editora da USP (Edusp) lança, no dia 14 de dezembro, livro que discute a obra do escritor mineiro

Por - Editorias: Cultura
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O escritor mineiro Murilo Rubião – Foto: site Murilo Rubião.com.br

SANDRA REGINA CHAVES NUNES, especial para o Jornal da USP 

Nestes quase 70 anos da publicação do primeiro livro de Murilo Rubião, O Ex-Mágico, em 1947, o que mais se enfatizou foi sua posição de precursor de um gênero – o fantástico – sem antecedentes na literatura brasileira. Nos primeiros artigos sobre a obra rubiana, depara-se com a impossibilidade de definição do que são seus contos, e com um certo espanto, misto de incômodo, provocado por uma obra “tão diferente”. Moacir de Andrade, no Estado de Minas, em 3 de dezembro de 1947, afirma que a única coisa que se pode falar com precisão é que são “contos de Murilo Rubião”.

Fruto dessa impossibilidade, verifica-se, na fortuna crítica, uma diversidade de nomenclatura para o tratamento dado ao “real” pelo autor. Sua obra foi definida como pertencente ao fantástico, ao realismo mágico, ao absurdo, ao surreal. Todos os artigos publicados após o lançamento de O Ex-Mágico apontam a semelhança de Murilo com o escritor tcheco Kafka. Essa comparação, ou referência a Kafka, só será abandonada, posteriormente, por trabalhos que se voltarão para a obra do escritor mineiro e suas particularidades.

A multiplicação, a metamorfose e a esterilidade, sem dúvida características marcantes de seus contos, foram citadas em diversos artigos, assim como a condenação de personagens que não conseguem sair do círculo criado por eles próprios. Houve, ainda, as críticas dedicadas ao gesto configurador do universo rubiano por excelência: escrever e reescrever, apontando-o como um autor que mais reescreveu do que escreveu contos.

O livro Murilo Rubião e as arquiteturas do Fantástico (Edusp, 2016, 174 páginas), de Ricardo Iannace, desviar-se-á desse percurso. Das Páginas Iniciais às Páginas Finais, percorremos a trajetória rubiana e suas arquiteturas fantásticas pela pintura, pelo cinema, pelos quadrinhos e por documentos de arquivo. Cinco são os contos analisados: O Edifício, O Bloqueio, O Homem do Boné Cinzento, A Armadilha e A Diáspora. Iannace, com esse novo olhar, apontará para temas caros à contemporaneidade: “dispersão migratória e crise de identidade”, numa abordagem que tem por referentes autores como Michel Foucault, Jacques Derrida e Stuart Hall, entre outros. Sua leitura perpassa, ainda, a crítica brasileira desde o momento primeiro de O Ex-Mágico.

Esse revisitar teórico, mais do que suporte a sua própria interpretação, e consequentemente a nossa, retoma aspectos importantes da escrita de Murilo Rubião. Ainda que, como ele mesmo enfatiza, o fantástico tenha sido apontado por críticos diversos – principalmente relacionando o universo rubiano ao kafkiano –, Iannace leva-nos ao século 19 e ao conto de Edgar Allan Poe, para que construamos um diálogo entre as obras. Diálogo embasado na tessitura textual e temática e não apenas no acontecimento insólito.

O ciclo das leituras faz-se em torno da “poética do edifício”, da Torre de Babel, ou das arquiteturas do Fantástico. As Babéis, capítulo primeiro do livro, apresenta-nos o mais arquitetônico dos contos: O Edifício. Nesse conto temos a história de João Gaspar, engenheiro responsável por uma construção infinita, que inutilmente tenta frear o trabalho dos operários. Pelas mãos de Iannace, esses operários insurgentes deslocam-se da construção verbal para a visual. Deparamo-nos, então, com Almoço no Topo de um Arranha-Céu, fotografia de 1932, de Charles Ebbets, e com Os Construtores, pintura de 1950, de Fernand Léger.

Fotografia tirada em 1932 por Charles C. Ebbets, mostra operários almoçando nas alturas durante a construção do edifício RCA

O crítico possibilita um diálogo – embutido na epígrafe desse conto – com o mito de Babel e suas representações pictóricas. Diálogo estabelecido em suas múltiplas temporalidades pelos quadros Torre de Babel, de Pieter Bruegel, de 1563; A Confusão das Línguas, de Gustave Doré, 1865; Galeria de Arte, de M.C.Escher, de 1956; Torre de Babel, 2000, e Torre de Papel, 2006, de Sônia Menna Barreto.

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Nesses cruzamentos, as narrativas pictóricas encenam o papel das epígrafes na obra do escritor mineiro: a de elemento antecipador da temática dos contos analisados, ou de espelho redutor destes. Jorge Schwartz, referência revisitada por Iannace, em A Poética do Uroboro, primeiro livro dedicado inteiramente aos textos rubianos, afirma que toda epígrafe carrega consigo um passado textual, mas passará por uma refuncionalização ao ser interpolada em um novo texto. Entidade em permanente tensão, a epígrafe carrega o “cruzamento de um passado textual com um presente narrativo”. Ao sintetizar um jogo temporal, “recupera o passado (seu texto original) e se afirma no presente do novo texto”.

Em Edifícios Interditados, Ricardo Iannace potencializa esse dialogismo. Por O Bloqueio, vislumbramos as interdições constantes nessa e em obras de autores como Kafka, Wells, J.J. Veiga, Saramago. No cinema, entrevemos o interdito no filme de Cláudio de Oliveira, O Bloqueio, adaptação do conto rubiano, e na rememoração das possíveis influências cinematográficas: Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, 1958, e O Homem-Mosca, de Fred Newmeyer e Sam Taylor, de 1923. Nesse mesmo capítulo, somos levados à reescritura do conto O Homem do Boné Cinzento para os quadrinhos. O crítico relembra-nos o quanto a conversão para os quadrinhos realça aspectos centrais dessa narrativa.

Há, ainda, as arquiteturas fantásticas emanadas de A Armadilha. Iannace apreende, em sua leitura, o universo das pinturas de Edward Hopper. O protagonista do conto, como dirá, “apresenta a roupagem da indefinição – colore-se, em certa medida, à semelhança dos sujeitos de identidade ignorada que Hopper multiplicou…”. Uma indefinição que não equivale apenas ao mundo do pintor americano, mas também ao das narrativas policiais – com os clichês, tão próprios da indústria cultural, e suas emboscadas. Destaca-se também, nessa leitura, a relação entre a lei desestabilizadora do Fantástico e os pressupostos teóricos de Derrida, centrada na declaração da ausência de referenciais absolutos, pela polissemia própria do discurso.

Não menos interessante faz-se sua leitura de A Diáspora, conto que tem ao seu redor a história de uma história perdida. A Diáspora seria um romance perdido em um táxi pelo autor e, reescrito, como uma narrativa breve. A análise do crítico centra-se na espacialidade, remetendo-nos aos conceitos de reterritorialização e desterritorialização. Remete, também, ainda aos documentos arquitetônicos sobre pontes e como estes são inspiradores para a construção da ponte de Hebron – personagem central dessa trama.

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O livro de Iannace, que será lançado no dia 14 – Foto: Reprodução

A leitura e interpretação de Ricardo Iannace da obra rubiana, com suas pontes metafóricas e seus diálogos múltiplos, aviva a ideia de que a modernidade torna a literatura um espaço de reflexão, por acoplar ficção e crítica, fundindo, confundindo e distendendo até o limite a natureza dessas duas realidades, o que acaba por acentuar seu traço de comentário. “Um texto é uma leitura de outro texto”, afirma o crítico norte-americano Harold Bloom, em sua teoria da influência poética. E literatura é desleitura, “poemas” – ou obras – que se desleem uns aos outros.

No centenário de nascimento do escritor mineiro Murilo Rubião, o livro de Ricardo Iannace – aliás, com um projeto gráfico e com imagens igualmente singulares – torna-se uma comemoração ímpar. Murilo, leitor de seus críticos, adoraria essa desleitura de sua obra.

Murilo Rubião e as Arquiteturas do Fantástico, de Ricardo Iannace, Editora da USP (Edusp), 176 páginas. O lançamento do livro será no dia 14 de dezembro, quarta-feira, às 18h30, na Livraria da Vila (rua Fradique Coutinho, 915).

Sandra Regina Chaves Nunes é professora do Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

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