Jornalista critica o jeito de divulgar a ciência no País

Em palestra no Instituto de Física da USP, Maurício Tuffani afirma que visão do jornalismo científico como uma atividade que trata do “exótico” atrai a desconfiança dos cientistas e prejudica a divulgação da ciência no Brasil

Por - Editorias: Cultura
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Palestra de Maurício Tuffani "O atual cenário da comunicação e os desafios do jornalismo científico" - Fotos: Cecília Bastos/Usp Imagens
Em sua palestra, Maurício Tuffani abordou a trajetória da imprensa – Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens

O jornalismo científico é visto pelos próprios meios de comunicação e pela sociedade como uma atividade que trata de temas exóticos. Isso causa problemas para a divulgação científica no País, que perde em qualidade e atrai a desconfiança dos cientistas, que muitas vezes se recusam até mesmo a conceder entrevistas.

Esse é um dos problemas do jornalismo científico no Brasil apontados pelo jornalista Maurício Tuffani, editor do blog Direto da Ciência, que no dia 4 de agosto fez palestra no Instituto de Física (IF) da USP, durante o colóquio O atual cenário das comunicações e os desafios do jornalismo científico. Para ele, é como se as matérias sobre ciência servissem “como sobremesa para o indigesto cardápio do noticiário”, diz.

Tuffani também apontou que o tratamento dado ao jornalista de ciência é o de ser habilitado a traduzir a linguagem científica para o público, o que ele chama de “função prometeica” (em referência ao mito grego de Prometeu, que roubou o fogo do Monte Olimpo para trazê-lo aos mortais). “Esse modelo é deficitário. Muito dos estudos científicos se perde nessa ‘tradução’.”

Na preocupação com essa forma de divulgar a ciência adotada pela imprensa, os cientistas acabam gerando mais problemas em vez de soluções, ao exigir que o texto passe pela avaliação prévia deles próprios antes de ser publicado, disse Tuffani. Para ele, além de essa prática descambar em censura e gerar um jornalismo “chapa branca”, ela é ineficiente, pois, no final das contas, o texto pode voltar a sofrer alterações – mesmo depois de passar pelo crivo do cientista – quando chega ao editor, voltando à estaca zero.

Uma medida adotada pelos acadêmicos que Tuffani acredita ser ineficaz é o ensino das atividades científicas dado nas aulas de História e Filosofia da Ciência, nas faculdades de Jornalismo. “Isso não resolve, porque não surte efeito na imprensa. Mesmo que o jornalista tenha uma boa formação, na redação aquela lógica de produção deficitária prevalece”, avalia.

Palestra de Maurício Tuffani " O atual cenário da comunicação e os desafios do jornalismo científico” - Fotos: Cecília Bastos/Usp Imagens
Problemas do jornalismo científico no Brasil foram tema de destaque da palestra de Tuffani – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Sua sugestão para o problema é de ordem mais prática. “Não acredito em soluções acadêmicas, e sim na seleção e capacitação dos profissionais. Para trabalhar em ciência na imprensa, a pessoa tem que gostar de ciência, ter o hábito de ler livros de divulgação científica. Isso é muito mais importante que uma especialização acadêmica”, defendeu o jornalista.

Tuffani enxerga alguns grandes desafios para o jornalismo científico na atual conjuntura. Entre eles estão a criação e manutenção de espaços para profissionais especializados, a ampliação do espaço para informações de interesse público, diante da vantagem crescente dos interesses de grupos particulares, o apoio para investigações jornalísticas e ferramentas de segurança de sigilo das fontes e a priorização da produção de informação, em detrimento da mera distribuição de conteúdo. “Em última análise, os problemas do jornalismo científico são os mesmos do jornalismo em geral.”

Tendências do jornalismo

Em sua palestra, Tuffani apresentou resultados de um estudo realizado pela Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos, o Project for Excellence in Journalism (PEJ). Nesse estudo, foram analisadas reportagens de grandes veículos de comunicação on-line e impressos dos Estados Unidos e entrevistados os autores e leitores dessas reportagens, para chegar a conclusões sobre as tendências da imprensa para o futuro.

Palestra de Maurício Tuffani " O atual cenário da comunicação e os desafios do jornalismo científico” - Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens
Palestra fez parte do já tradicional evento Colóquio do Instituto de Física da USP – Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens

De acordo com esse estudo exposto por Tuffani, as tendências verificadas apontaram uma mídia cada vez mais voltada à reprodução e difusão de conteúdo e menos à produção de informação; a queda de tempo dedicado à verificação e à elaboração da informação; a perda de espaço de temas de interesse público para o mundo dos negócios; a crescente influência dos governos e grupos de interesses e corporações (levando a um contexto favorável para a manipulação da opinião pública); e o paradoxo do crescimento do número de canais informativos ao mesmo tempo em que diminui a diversidade de temas, o que resulta na homogeneização do noticiário. Sobre este último item, o jornalista comentou que, “tempos atrás, chegar com uma informação ou uma pauta inovadora na redação era algo valorizado, incentivado; hoje, corre-se o risco de uma pauta dessa ser rejeitada, afinal só se tem interesse em publicar o que os outros veículos também estão publicando”. Tuffani avaliou que “a imprensa não tem muita diversidade de opinião nem mesmo na busca de fontes para a informação”. Segundo ele, a maioria dos jornais procura sempre as mesmas fontes.

Todas essas tendências se confirmam atualmente, segundo Tuffani. Citando o livro Comunicação e Jornalismo – A Saga dos Cães Perdidos, do professor da USP Ciro Marcondes Filho, ele destacou que elas são reflexo de processos ocorridos ao longo da história do jornalismo, em que a informação gradualmente se transformou em mercadoria e foi dominada por grandes conglomerados de mídia, como a Fox, que misturam a informação ao entretenimento. “Essa conglomeração tem efeitos terríveis no que diz respeito à qualidade da informação”, ressaltou Tuffani.

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