Gravuras registram a história do Brasil e das artes gráficas

A Pinacoteca de São Paulo apresenta a mostra “Imagens para uma nação”, que reúne 100 gravuras de diversas coleções

Por - Editorias: Cultura
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A Rendição de Uruguayana , artista não identificado – Foto: Isabela Matheus
A Rendição de Uruguayana, artista não identificado – Foto: Isabela Matheus

A trajetória do Brasil apresentada através das gravuras expostas em duas salas na Pinacoteca do Estado de São Paulo resgata também os primeiros passos da arte no Brasil. A mostra Imagens para uma nação conta em 100 obras o período de introdução e desenvolvimento das técnicas gráficas no País. Importante refletir também sobre a importância dos desdobramentos desses primeiros desenhos dos primeiros artistas gravadores no desenvolvimento social, econômico e político do País.

A exposição conta com a curadoria de duas pesquisadoras com formação na Universidade de São Paulo. Marianne Farah Arnone é graduada e doutoranda no Departamento de Artes Visuais. E Francis Melvin Lee é arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Johann Moritz Rugendas em Vistas do Brasil, de 1829 – Foto: Isabella Matheus (clique na imagem para reexibi-la inteira)

“A imagem gravada foi essencial para a construção do imaginário do império português nos trópicos, e depois da jovem nação brasileira”, explica Francis. “Atento à sua importância, o príncipe regente D. João implantou a imprensa, até então proibida, logo que chegou ao Brasil em 1808, e encomendou as primeiras gravuras oficiais: a planta da nova capital e estampas didáticas.”

A seleção das imagens resultou da pesquisa de Marianne e Francis em vários acervos. Além da Pinacoteca, há gravuras que pertencem às coleções da Biblioteca Nacional, Museu D. João VI – UFRJ, Instituto Moreira Salles, Itaú Cultural, Instituto Hercule Florence e, na USP, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, o Museu Paulista e o Instituto de Estudos Brasileiros. “A exposição é resultado das nossas dissertações, que foram defendidas na mesma época”, explica Marianne. “Ambas tratavam de pesquisas relacionadas ao estudo da gravura no Brasil durante o século 19. O trabalho de Francis estuda o desenvolvimento da gráfica no Brasil durante o período joanino, enquanto o meu observa a gravura na segunda metade do século 19, momento em que a gráfica, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, encontra-se melhor estabelecida no País e a gravura surge atrelada ao desenvolvimento da imprensa e as publicações ilustradas.”

Litografia de Antonio de Pinho Carvalho, de 1881 – Foto: Divulgação
Litografia de Antonio de Pinho Carvalho, de 1881 – Foto: Divulgação

Os primeiros livros

O visitante vai poder observar as primeiras ilustrações dos livros editados no País. Um exemplo é a litografia de Antonio de Pinho Carvalho apresentando a Condessa D’Eu, feita no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, criado em 1856. A imagem é de 1881. “Apesar de não ser encarada, nesse momento, como um dos ramos das belas artes como a pintura e a escultura, a gravura foi uma ferramenta utilizada como material didático fundamental na Academia Imperial de Belas Artes”, conta Marianne. “Foi amplamente utilizada para que os alunos tivessem acesso aos modelos e às obras dos grandes mestres da tradição europeia. Também foi uma ferramenta para a divulgação da produção artística brasileira e para auxiliar na construção de uma arte nacional, tema bastante discutido no período.”

Largo da Glória, do gravurista inglês Henry Chamberlain, 1821 – Foto: Isabella Matheus

D. Pedro I, imperador do Brasil, está presente na mostra em buril sobre papel. O desenho é de Francisco Antonio Silva Oeirense feito a partir de uma pintura de Simplício Rodrigues de Sá. Há também a xilogravura do alemão Johann Moritz Rugendas intitulada Vistas do Brasil. Ou uma cena dos escravos com cestos de roupas na cabeça passando tranquilos na gravura Largo da Glória, de 1821, assinada pelo inglês Henry Chamberlain.

Apesar das imagens nem sempre documentarem a realidade tal e qual, as pesquisadoras acreditam que, a partir delas, é possível entender a história do Brasil. “Como outros tipos de imagens que se propõem a documentar e retratar as questões relacionadas ao País em diversos períodos, também as gravuras necessitam serem vistas sob um olhar crítico”, observa Marianne.

Curadoras recomendam questionar e problematizar as imagens – Foto: Divulgação
Curadoras recomendam questionar e problematizar as imagens – Foto: Divulgação

“Importante olhar as imagens buscando questionar e problematizar seus usos e conteúdos no momento em que foram veiculadas. Como no século 19 no Brasil a imagem gráfica era entendida mais como um produto da indústria e, portanto, afastada do universo das belas artes, ela estava imbricada a uma série de atividades desempenhadas naquele período. Foi muito utilizada pela imprensa em um momento em que se discutia e se buscava a consolidação de uma identidade nacional para o País; dessa forma a imagem gráfica foi empregada em vários projetos que tinham como objetivo auxiliar a construção de uma imagem para o Brasil.”

Imagens para uma nação está no segundo andar da Pinacoteca – Praça da Luz, 2. A visitação é aberta de quarta a segunda-feira, das 10h às 17h30, com permanência até as 18h. Os ingressos custam R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Crianças com menos de 10 e adultos com mais de 60 anos não pagam. Aos sábados a entrada é gratuita para todos os visitantes. Mais informações pelo tel. (11) 3324-1000; em cartaz até 5 de junho.

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