Giverny é obra de arte a céu aberto

O lugar onde o mestre impressionista Claude Monet viveu por 43 anos tem mais de 8 mil metros quadrados de jardins e recebe cerca de 500 mil visitantes por ano

Por - Editorias: Cultura
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Water Lily Pond (1917-1919) / Impressionismo, Sèrie: Water Lilies - Pintura de Claude Monet
Water Lily Pond (1917-1919) / Impressionismo, Série: Water Lilies – Pintura de Claude Monet

É meio da manhã de um dia de junho. O céu nublado não intimida os inúmeros ônibus que, pouco a pouco, vão lotando o espaçoso estacionamento de Giverny, uma típica vila francesa da Alta Normandia, a cerca de uma hora de Paris. Muitos dos ônibus trazem turistas de todas as latitudes, mas uma parte considerável traz outro tipo de passageiros: pequenos alunos de quatro, cinco anos de idade, no máximo, que descem as escadas de forma cuidadosa e obediente e vão formando filas de baixinhos negros, ruivos, loiros e morenos. De dois em dois, mãozinhas dadas e prestando atenção no que seus professores-acompanhantes dizem, eles seguem o trajeto dos adultos curiosos.

O destino é o mesmo: a casa de Claude Monet (1840-1926), o mestre impressionista que fez de sua propriedade em Giverny um ateliê a céu aberto, graças aos enormes e encantadores jardins que atraem, anualmente, 500 mil visitantes. E frise-se: o “anualmente”, nesse caso, vale só de abril a outubro. Nos outros meses – quando o frio invernal é mais rigoroso e as flores quase que desaparecem –, a casa e principalmente seus jardins ficam fechados à visitação. Mas, quando estão abertos, o cenário é de deslumbramento, tanto para os adultos quanto para as crianças: sem distinção de idade, todos ficam fascinados com a quantidade absurda de flores, plantas ornamentais, árvores frutíferas que formam uma espécie de Éden em alguns momentos um pouco mundanos. A sensação é de se estar caminhando por uma obra de arte. E se está mesmo.

Veja a galeria de fotos do prof. Atílio Avancini:

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Claude Monet
O centro da existência de Claude Monet foi a casa campestre de Giverny durante 44 anos (1883 a 1926): o pintor fez de seu jardim um quadro vivo - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
O casarão do século XIX, que acolheu a sua família e o ateliê do artista, foi reconstituído e o mobiliário se aproxima daquele do tempo de Monet: a casa recebe a cada ano mais de 500 mil visitantes. - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
O colorido e o aroma das flores estão na atmosfera das obras do mestre do Impressionismo - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
Da grande janela, a luz inspiradora para os seus quadros: extensão única da vida interna do artista com o mundo natural - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
Identidade cultural da França: o perfume das lavandas emoldura o restaurante da Fondation Claude Monet - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
Monet passava horas a contemplar seu Jardim de Água, onde amava receber os seus convidados - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
Monet foi fascinado pelos jogos de luz e reflexos de nuvens sobre as águas: espelhos líquidos onde surgiam sua ninfas - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
Ligado ao “mundo flutuante” japonês, a árvore salgueiro-chorão (originária do Leste da Ásia) enquadra o lago num perfeito jardim oriental - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
A coleção de estampas japonesas de Monet atesta as influências da gravura oriental ukiyo-e sobre os pintores de sua época - Foto: Atílio Avancini
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Claude Monet
“Fora da pintura e da jardinagem eu não sou bom em nada” Claude Monet - Foto: Atílio Avancini
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Aquela sensação – ou vontade – que alguém já pode ter tido alguma vez na vida de entrar em uma cena de quadro, participar dela (como o também francês Georges Perec caracterizou com brilhantismo em seu livro A Vida: Modo de Usar), se materializa em Giverny. O caleidoscópio que a flora do lugar forma é exatamente igual ao que Monet via de sua janela na confortável e nem tão grande assim casa normanda circundada pelos mais de 8 mil metros quadrados de jardins. E que serviu de inspiração para ele por exatos 43 anos – desde que se mudou para o lugar, em 1883, até sua morte nos braços de seu grande amigo e político Georges Clemenceau, em 1926.

Monet se mudou para Giverny por achar que o bucólico vilarejo – à época com não mais que 300 habitantes – era o lugar ideal para viver com seus oito filhos pequenos e por achar que aquela paisagem e aquela luz eram as ideais para seu trabalho. Primeiro, ele alugou a casa e o terreno. Em 1890, com o sucesso das vendas de seu quadros, arrematou a propriedade. E se empolgou. Com a ajuda de  dez jardineiros e três motoristas, ele criou um paraíso natural, que virou seu ateliê permanente. Ele mal saía de casa para procurar outras fontes de inspiração, criando ali uma forma precursora de home office, se é que se pode dizer assim.

O artista plantou inúmeras espécies de flores, plantas ornamentais e árvores frutíferas, criou espontaneamente dois jardins – Jardim d’Água e Jardim da Normandia (ou Clos Normand) – e deixou que a natureza se encarregasse de ditar a beleza e a estética visual do lugar. E, convenhamos, a natureza fez um trabalho e tanto.

Com o tempo, um dos maiores – se não o maior – mestres do Impressionismo tornou-se um botânico amador dos mais dedicados. No final de sua vida, o artista havia plantado mais de 1.800 espécies de flores e plantas, que conviviam em harmonia singular. Raros bambus japoneses, macieiras, azaleias, cerejeiras, íris, tulipas, rosas, limoeiros, rosas chinesas, dálias, girassóis e hortênsias – e há muito mais – em suas cores variadas e cada qual com floração em data específica e planejada. “Todo o dinheiro que ganhei investi no meu jardim”, revelou Monet certa vez.

Clos Normand - Foto: Wikimedia Commons
Clos Normand – Foto: Wikimedia Commons

 

Mas a joia do lugar é, sem dúvida, o Jardim d’Água. É ali, com um lago irrigado por um riacho, onde os turistas mais se deslumbram e não param de tirar fotos de ângulos até improváveis, fazer selfies e engarrafar a ponte em estilo japonês que Monet mandou construir. E não é para menos: ao longo de duas décadas, o artista pintou 272 obras tendo esse jardim molhado como inspiração – só da ponte japonesa, foram 45. E é justamente lá que estão as ninfeias, suas principais musas inspiradoras. Essa planta aquática – também conhecida como lírio d’água – que tem uma flor de tonalidades que variam do azul ao amarelo, foi retratada em vários quadros de Monet. O mais famoso deles, o Lago das Ninfeias, Harmonia Verde, é uma das peças de resistência do Museu d’Orsay em Paris.

Quando Michel Monet, um dos filhos do mestre, morreu, em 1966, legou a propriedade à Academia de Belas Artes francesa. Mas só em finais dos anos 1970 e começo dos 1980 é que foi criada a Fundação Claude Monet, que até hoje administra o local e cuida para que tanto a casa normanda quanto os jardins sejam mais do que um museu aberto à visitação: a fundação se preocupa que o lugar seja, ainda hoje, um motivo de inspiração.

Fotos são de professor da ECA

As fotos que ilustram esta reportagem são do fotógrafo e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Atílio Avancini. Paulistano, ele é professor do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da ECA e do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA), na linha de pesquisa Poéticas e Técnicas. Fez pós-doutorado pela Université Sorbonne Nouvelle Paris 3 e foi  professor visitante na Kyoto University of Foreign Studies (Japão).  Autor, entre outros, do livro Entre Gueixas e Samurais: fotografias e relatos de viagem (2008), publicado pela Editora da USP (Edusp), Avancini já participou de cerca de duas dezenas de exposições fotográficas no Brasil e no exterior.

 

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