Fotografias e filmes etnográficos são apresentados na USP

A partir de 7 de agosto, mostras de filmes e de fotos destacam obras premiadas na área da antropologia

Por - Editorias: Cultura
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Do Bugre ao Terena, filme de Aline Espíndola e Cristiano Navarro – Foto: Divulgação

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O Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp) exibe de 7 a 11 de agosto filmes etnográficos selecionados no Prêmio Pierre Verger 2016. São onze trabalhos de pesquisadores na área da antropologia de todo o Brasil, que trazem para a tela do Cinusp discussões atuais como conflitos étnicos, questões de gênero, urbanidade e desequilíbrios sociais. A mostra é uma parceria do Cinusp com o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Dentre os contemplados pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), responsável pela premiação, está Pas Ho Dame, que aborda os processos locais de resolução de conflitos numa aldeia do Timor-Leste, mostrando suas consequências para a relação entre famílias. O filme de Daniel Schroeter Simião ganhou o primeiro lugar.

Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, tema de filme em cartaz na mostra do Cinusp e do Lisa – Foto: Juliana Brás Dias

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Das Nuvens Para Baixo
, que recebeu o segundo prêmio, é inspirado nos diários de Carolina Maria de Jesus, publicados no início dos anos 60. A produção de Marco Antonio Gonçalvez e Eliska Altmann vai em busca de personagens no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, para traçar relações entre vivências femininas e os significados da favela. Já o documentário O Voo da Beleza, de Alexandre Fleming Câmara Vale, que recebeu menção honrosa do júri, retrata a vida de travestis e transexuais brasileiras em Paris.

A mostra traz também Fabrik Funk, uma ficção construída através de pesquisas etnográficas que conta a história de uma jovem atendente de telemarketing e seu sonho de se tornar MC. A obra é codirigida pelas professoras da FFLCH Rose Satiko Gitirana Hikiji e Sylvia Caiuby Novaes, ao lado da professora-assistente da Universidade de Vitória, no Canadá, Alexandrine Boudreault-Fournier.

Exposição na FFLCH traz dez ensaios fotográficos selecionados no Prêmio Pierre Verger 2016 – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Premiação contempla trabalhos de estudantes, pós-graduandos, professores e pesquisadores de Antropologia – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Esta é a 11ª edição do Prêmio Pierre Verger, criado em 1996 e batizado em homenagem ao fotógrafo e etnógrafo francês que passou grande parte da vida em Salvador, na Bahia, e se destacou no estudo das religiões de matriz africana. A premiação acontece a cada dois anos e desde 2012 as obras que se destacam integram mostras itinerantes. Os selecionados de 2016 já excursionaram por João Pessoa (PB), Araraquara (SP) e Guarulhos (SP). Esta é a primeira vez que o Cinusp participa do circuito.

“Esse prêmio nasce para poder mostrar à comunidade antropológica os trabalhos que estavam sendo feitos com a imagem”, afirma a presidente do Prêmio Pierre Verger e curadora da mostra itinerante, Paula Morgado. Para a antropóloga, também funcionária e pesquisadora do Lisa, o que distingue uma obra etnográfica dentro do universo cinematográfico é o envolvimento com as pessoas, locais e temas do trabalho.

Ritual da fartura dos Yanomami de Ariabú, na região de Maturacá, no Amazonas, foi registrado em ensaio fotográfico – Foto: Gustavo Hamilton de Souza Menezes

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“Há um compromisso a longo prazo”, explica, “com esses sujeitos que são filmados, que podem ser sujeitos mesmos ou podem ser temas. Há um mergulho maior e uma cumplicidade com o tema.”

Os conflitos das metrópoles também são tema de análise na mostra – Foto: Anelise dos Santos Gutteres

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Olhar comprometido

Desde 2002, o Prêmio Pierre Verger também conta com uma categoria dedicada a ensaios fotográficos. Em sua oitava edição, os destaques de 2016 estarão expostos no prédio de Filosofia e Ciências Sociais da FFLCH, de 7 de agosto a 9 de setembro, em mostra também organizada pelo Lisa.

Entre os premiados estão Bruno José de Araújo Florêncio, Gabriela Pimental e Lady Selma Albernaz, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que levaram o primeiro lugar com a série Homens de Couro. Gustavo Hamilton de Souza Menezes, da Universidade de Brasília (UnB), também mereceu destaque com sua série sobre o ritual da fartura dos Yanomami de Ariabú, na região de Maturacá, no Amazonas. Rodrigo de Azeredo Grünewald, da Universidade Federal de Campina Grande, recebeu menção honrosa por Na Casa de Gentio.

Mostra de filme etnográfico é parceria entre o Cinusp e o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa) da USP – Foto: Pierre Verger

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“Em termos da estrutura não muda, mas em termos do olhar, é o olhar do antropólogo”, reflete Paula sobre a especificidade da fotografia etnográfica. “É um olhar que é comprometido, que necessita de uma imersão mais densa em termos de pesquisa. Você não faz um filme ou um ensaio fotográfico em uma semana e um filme documentário você pode fazer, o bom cineasta é capaz de fazer. Eu acho que o antropólogo não consegue. Não consegue porque não deseja também.”

“Para o antropólogo”, continua Paula, “interessa fundamentalmente o processo, às vezes, mais do que o seu resultado. Assim, os filmes feitos por antropólogos, chamados de “filmes etnográficos”, resultam de métodos distintos dos filmes feitos pelos demais cineastas, de uma metodologia que busca aproximar os sujeitos que filmam dos que são filmados em um longo processo de cumplicidade para entender o outro.”

Segundo Paula, esse olhar comprometido e cúmplice acaba levando o pesquisador a se debruçar sobre questões inquietantes e liminares, como é possível ver nos filmes ou nos ensaios fotográficos.

Paula Morgado: “O antropólogo faz do familiar o outro” – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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“São questões que causam curto-circuitos no nosso dia a dia, que a antropologia vai lá se deparar e estudar, vai se questionar por que ocorrem, como estão ocorrendo”, explica. E junto com esse olhar, continua Paula, vem o distanciamento, base do trabalho antropológico e que perpassa ambas as mostras.
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O antropólogo estuda a sua própria sociedade, só que ele faz do familiar o outro. Ele cria esse distanciamento para tentar entender onde estamos neste momento. Estamos interessados no nosso processo, mas sempre vendo o outro, que pode estar aqui do lado de casa, na favela do Real Parque, pode estar fazendo manifestações do bumba-meu-boi no Morro do Querosene, mas para mim podem ser distantes. Ele faz dessa coisa que está aqui do lado algo que é o diferente, para tentar entender essas diversidades na sua própria sociedade, que se diz igual, mas não é.

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A mostra de filmes etnográficos no Cinusp vai de 7 a 11 de agosto, com sessões às 16 e 19 horas. No dia 8, haverá debate com os diretores dos filmes A Briga de Cachorro com Onça e Pimenta nos Olhos. A exposição de ensaios fotográficos fica em cartaz de 7 de agosto a 9 de setembro. A entrada, em ambas, é gratuita.

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