Exposição apresenta a arte produzida no espaço cultural entre o Brasil e o Japão

A mostra “Olhar InComun: Japão revisitado”, com a curadoria da professora Michiko Okano, do Centro de Estudos Japoneses da USP, está em cartaz no Museu Oscar Niemeyer (MON), de Curitiba (PR). Entre os 21 artistas estão alunos de graduação e pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Eles não são japoneses nem brasileiros. Não estão lá nem cá. A sua arte traduz o ser nipo-brasileiro e as cores de uma cultura no entre-espaço

Por - Editorias: Cultura
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Instalação de César Fujimoto na exposição “Olhar InComun: Japão Revisitado”
Instalação de César Fujimoto na exposição “Olhar InComun: Japão revisitado”

 

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O visitante vai caminhando entre as curvas desenhadas por Oscar Niemeyer e não sabe se olha para o grande olho amendoado – uma torre envidraçada – ou para o reflexo da construção e das árvores no lago artificial ao redor do pilar amarelo. Nos grandes vãos da edificação, a arquitetura faz um pacto com a arte moderna.

Entre as curvas da passarela externa é possível ver o céu, o sol, a luz do entardecer. O desenho de Oscar Niemeyer propicia a contemplação. Nesse ambiente minimalista, onde flui o silêncio, 21 artistas, sob a curadoria de Michiko Okano, professora colaboradora no Programa de Pós-Graduação do Centro de Estudos Japoneses da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, estão apresentando a mostra “Olhar InComun: Japão revisitado”.  A arte de todos traduz o olhar de quem vive no entre-espaço do Brasil e do Japão e tem o nascer e o pôr-do-sol como referência em seu processo de criação.

Museu Oscar Niemeyer (MON) - Foto: Wikimedia Commons
Museu Oscar Niemeyer (MON) – Foto: Wikimedia Commons

“A exposição nasceu de uma indagação sobre a denominação artista nipo-brasileiro, que engloba desde os japoneses até os seus descendentes nascidos no Brasil, que, atualmente, estão na quinta geração”, explica Michiko. “Além de possuir o laço sanguíneo com o Japão, os artistas contemporâneos participantes desta exposição – japoneses, filhos e netos de japoneses ─ apresentam olhares entre-espaços, isto é, entre o Brasil e o Japão, embora em diversos níveis e modos de envolvimento com o universo japonês.”

O visitante sobe a rampa interna e se depara com uma parede branca com a caligrafia japonesa shodô, que significa “Caminho da Escritura”, pintada pelo artista japonês Futoshi Yoshizawa. Escreveu: 黄イペーととも咲き誇る桜かな. “É uma poesia de sua autoria, denominada Trajetória Multidimensional (2016), trazendo a temática da imigração e da convivência dos japoneses no Brasil. Convém lembrar que tanto a poesia quanto a caligrafia ocupam um lugar de destaque na arte nipônica”, observa a curadora.

Interessante observar os traços e a forma como Yoshizawa movimenta o pincel. Um gesto preciso, que exige disciplina, precisão e sutileza. O calígrafo imprimiu na parede um haicai, poema japonês com 17 sílabas:

Com Ipês Amarelos

florescem briosas

as cerejeiras

 

Michiko orienta os alunos da pós-graduação em Artes da USP e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Quando iniciei a minha pesquisa sobre os artistas nipo-brasileiros, em 2013, queria descobrir em que medida a representação da ‘japonesidade’ correspondia à proximidade sanguínea do artista com o Japão”, explica. “Contudo o desenvolvimento do trabalho mostrou que tal questão é mais complexa e exige abranger as singularidades, que devem ser analisadas e enredadas. São várias ‘japonesidades’ que confluem, dependendo da vida de cada artista: a da experiência de vida no Japão, a da memória dos familiares e grupos de convivência, a da paixão pela cultura nipônica, a da negação de certos aspectos japoneses ou, ainda, a da idealização do Japão.”

Uma grande tribo

Nas imagens da montagem da exposição, é possível ver a movimentação dos artistas e da participação do público. Na parede, outro haicai assinado pela poeta Marília Kubota. Ela orienta: “Nesta tribo/ nada é proibido/ siga os sentidos”. O código verbal, como bem lembra a professora Michiko Okano, é frequente nas imagens.

O Japão notabiliza-se pela estética de dizer o máximo com o mínimo de palavras, tida como uma das formas elegantes e requintadas de comunicação.”

É realmente uma grande tribo. Emociona ver o grande dragão grafitado na parede branca. Uma figura imponente e um desenho invasivo, como compete ao grafite, também presente na arte pop japonesa. Na arte brasileira, nem se fala. Basta ver os muros da cidade. O artista Atsuo Nakagawa traz a imagem símbolo. “É o masculino e enérgico dragão que ressurge como um resgate dos elementos nipônicos”, explica Michiko.  Nakagawa nasceu e viveu em Kyoto. Mas há três anos veio morar no Brasil. “O dragão é o único animal mitológico do zodíaco chinês, possante e provocador de chuva. Nesta mostra ele surge representando a street art.” O artista faz questão de avançar as paredes e invade o espaço de outro artista para assinar seu nome.
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Foto: Simonia Fukue
Foto: Simonia Fukue

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Uma liberdade que se contrapõe à estética da arte zen, voltada ao mínimo e ao essencial da existência, como na obra da nipo-brasileira Mai Fujimoto. “Possuidora de uma sensibilidade delicada e refinada, ela reinterpreta, em uma das suas três obras expostas, com o curioso título então aplicam o ouro para evidenciar suas falhas, fraturas, defeitos (2014), o kintsugi ou arte de remendar. Trata-se de uma técnica japonesa de reparar as peças de cerâmica quebradas por meio do preenchimento das fendas produzidas com uma mistura de cola e pó de ouro”, esclarece a curadora. “Desse modo, a peça é recomposta ao valorizar a naturalidade das fissuras criadas, o que traduz a postura de aceitar a desconstrução e a fragmentação ocorridas ao acaso. É o ato de aceitar a efemeridade das coisas, de estar disponível para as mudanças e de celebrar a imperfeição.”

A mostra é um misto da ancestralidade das delicadezas do Japão e a vibração das cores do cotidiano do Brasil. “Olhar InComun” desperta as lembranças daqueles que viram seus avós no cotidiano das lavouras. A instalação da paranaense Sandra Hiromoto tem nove tambores pintados com estereótipos femininos da xilogravura ukiyo-e. Faz uma referência aos tambores ou ofuros muito usados nos sítios e fazendas. “Como não recordar do banho quente nesses tambores preparados pela minha avó para toda a família? Um ritual de fim de tarde. Primeiro, banhavam-se os homens, depois as mulheres e, por último, as crianças. Todas se enfileiravam depois de passar horas correndo na plantação branquinha de algodão para relaxar nos ofuros. Enxaguavam-se com uma caneca. E, depois de limpos, mergulhavam, um por vez, nos tambores que ficavam sobre a lenha esquentando e esquentando.”

Na última sala da exposição, um presente para os visitantes. Todos têm o direito de ficar nos balanços, como se estivessem à sombra de uma árvore, ouvindo a cantora e compositora mestiça Fernanda Takai, vocalista da banda Pato Fu, entoando em japonês e em português, com sua voz doce e afinada, a música Nagoya, composta por ela e o brasileiro João Donato. “Essa multiplicidade encontrada na atual geração de nipo-brasileiros é preciosa, porque, daqui a algumas dezenas de anos, em futuras gerações, provavelmente o panorama será outro”, reflete Michiko Okano. “Captar essas manifestações em pleno vigor, neste momento, é, portanto, uma oportunidade valiosa, que não se pode deixar passar.”
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O haicai da poeta Marilia Kubota

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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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Exposição “Olhar InComun: Japão revisitado” - Foto: Simonia Fukue
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A exposição “Olhar Incomun: Japão revisitado” fica em cartaz até 11 de setembro, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, no Museu Oscar Niemeyer (rua Marechal Hermes, 999, Centro Cívico, em Curitiba, PR). Entrada: R$ 12,00. Grátis às quartas-feiras. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (41) 3350-4400

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Cena da performance “Esta não sou eu”, de Erika Kobayashi, na exposição “Olhar InComun: Japão Revisitado”
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