Ex-estudantes falam do idealismo de ser arquiteto e urbanista

Na exposição “FAU 70 Anos”, professores se reúnem para relembrar suas trajetórias

Por - Editorias: Cultura
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Manifestação de estudantes em 1969 no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, projetado por Vilanova Artigas – Foto: Divulgação/FAU-USP

“Nossa, esse cabeludo aqui é você? E esse aqui sou eu? Não acredito.” A surpresa dos sonhadores de 1968 diante do álbum de retratos exposto na inauguração da mostra FAU 70 Anos trouxe de volta o bom tempo da geração de briga. Tempo em que os estudantes sonhavam em cursar Arquitetura e Urbanismo para planejar uma cidade mais humana.

“Olha, vou te mandar esse retrato meu que foi exposto na sala da diretoria”, promete o professor Issao Minami, na época um garoto de Mococa, interior paulista, conhecido pelo seu programa de rádio A Voz dos Estudantes. Veio para São Paulo com o sonho de ser arquiteto. “Quem está na janela, magro e cabeludo, sou eu. É a FAU Maranhão em 1970. Essa foto foi tirada pelo professor Cesar Bergstron e virou um pôster que, durante anos, ficou na parede da sala da diretoria”, conta. “Fiquei muito orgulhoso, porque o diretor era o professor Nestor Goulart Reis Filho. Nessa época, participava do grêmio da FAU junto com o professor Júlio Maia de Andrade.”

Minami está ali de calça jeans boca de sino, cabelos até os ombros, no alpendre do casarão art nouveau da Rua Maranhão. “Em 1949, começa o novo curso de Arquitetura e Urbanismo da USP neste prédio cedido pela família Álvares Penteado”, esclarece o ex-estudante. “Luís Inácio de Anhaia Melo foi o primeiro diretor e foi o fundador da FAU, junto com Vilanova Artigas. Ele tinha uma visão urbanística, política e social de São Paulo, foi aluno de Ramos de Azevedo e tinha sido prefeito da cidade.”

O professor, na época um estudante idealista, coordenou vários projetos pela cidade de São Paulo, como a despoluição visual da Avenida Angélica. Também é um dos defensores da preservação da Vila de Paranapiacaba como um patrimônio ambiental, tecnológico e arquitetônico.

“Essa jardineira era a alegria dos estudantes. Fomos para diversos lugares em Curitiba, Salvador e até para a Argentina”

O histórico prédio da Rua Maranhão, doado à USP pela família Penteado. No alpendre, o então estudante Issao Minami (clique na foto para ampliar)

“E vocês se lembram da jardineira da FAU?” -, questiona Luiz Fernando Manini, arquiteto responsável por inúmeros projetos na cidade e no País. Na década de 1970, associou-se ao escritor Joaquim Guedes, professor da FAU, fazendo projetos em larga escala por todo o País. Entre as lembranças despertadas pela mostra FAU 70 Anos, estava a tal jardineira e Manini ainda estudante, músico, amigo de Chico Buarque. Lembra a alegria que sentiu quando tocou chibata em Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, interpretada por Jair Rodrigues. “Foi a música do Festival da Record, em 1966, que dividiu o primeiro lugar com A Banda, de Chico Buarque”, emenda Minami.
A roda de estudantes, funcionários, professores, que se formou diante dos retratos, foi aumentando. E uma história emendava outra. Mas e a tal jardineira, para que servia? “Essa jardineira era a alegria dos estudantes. Um caminhão dirigido pelo motorista Benjamin, que tinha o codinome de Lerdo”, recorda Manini. “Na verdade, o veículo era para levar os estudantes para congressos, auxiliar em pesquisas e eventos de importância acadêmica, algo oficial. E lá íamos nós no caminhão cruzando cidades, Estados, até fora do País. Fomos a um seminário em Curitiba e fizemos pesquisas na Argentina.” Como bem justifica o cartaz ao lado do álbum de retratos na exposição: “Professor já foi aluno”.
E lembranças da época da jardineira não faltam. O caminhão com tantas histórias acabou sendo desativado no início da década de 1970.

“Ali estava uma arquitetura nova, espetacular, generosa e coletiva, povoada por colegas amáveis e fraternais.”

Em 1969, o curso de graduação foi transferido para o novo prédio construído na Cidade Universitária. “Quando vi o prédio novinho projetado por Vilanova Artigas, não tive dúvidas. Foi amor à primeira vista. O casamento, uma mera consequência”, conta o professor Bruno Padovano. “Imagine o deslumbramento de quem chegava de uma escola convencional na África do Sul, num edifício do funcionalismo ortodoxo. Muito bom estar ali, em uma referência da arquitetura moderna brasileira. Decidi ser FAU para sempre.”
Padovano continua narrando a sua história. “Além do prédio, apreciei os professores e funcionários, um melhor que o outro. Como agradecer mestres do nível de Nestor Goulart Reis Filho, Júlio Katinsky e Mario Franco, entre tantos outros, pelas suas magníficas aulas, João Carlos Cauduro e Ludovico Martino, pela sua amizade e receptividade, Siegbert Zanettini, pelos seus traços compartilhados, Joaquim Guedes e sua visão critica, Élide Monzeglio, pela sua graça e incentivo à expressão livre de uma arquitetura entendida como a arte da construção de seu tempo?”
O professor que, hoje, já perdeu a conta dos mestres e doutores que formou, cita a FAU como escola no mais sagrado sentido. “Aberta e multifacetada, consolidou-se numa faculdade capaz de abrigar a busca do conhecimento sobre um tripé, que une ensino, pesquisa e extensão na graduação e pós, tendo formado milhares de alunos nos dois níveis de formação acadêmica: arquitetos e urbanistas, mestres e doutores. Hoje temos alunos e alunas de vários países que tornam o ensinar uma atividade prazerosa, sempre.”
Até chegar 2018, Padovano viu muita água passar debaixo da ponte, como ele mesmo destaca. Mas sempre feliz na correnteza. “São quase 50 anos daquele longínquo 1969, após mais de 40 de atuação docente.”
Hoje, a FAU conta com cerca de 1.384 alunos de graduação em seus cursos e com 679 alunos de mestrado e doutorado e é amplamente reconhecida nacional e internacionalmente pela qualidade de seu ensino e sua pesquisa. A história da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo com os seus grandes mestres, artistas, designers, arquitetos, urbanistas e os irreverentes idealistas está na exposição FAU 70 Anos.

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