Em “Mayombe”, selva faz surgir o “homem novo” angolano



Para o professor Mário Lugarinho, Mayombe traz as indagações de Pepetela sobre o surgimento do homem novo, necessário para a Angola livre – Fotomontagem sobre as várias capas de Mayombe

.

Publicado em 1980, Mayombe é fruto direto da participação de seu autor na guerra de independência de Angola, que se estendeu de 1961 até 1974. A partir de suas vivências, Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, apresenta ao leitor a história de guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e suas ações dentro da floresta do Mayombe, região que compreende parte da República Democrática do Congo, Angola, Congo e Gabão.

Segundo Lugarinho, a escrita do Mayombe se deu durante um período de estagnação da guerra, propício à reflexão – Foto: Lucas Pecoraro / USP Imagens

Pepetela começou a rascunhar as primeiras linhas do romance em 1969, encerrando-o em 1971. “Nós estamos num contexto histórico bastante conturbado”, explica o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Mário César Lugarinho. “Desde 1961”, conta o professor, “se iniciou a guerra de independência, tendo o exército português tentado manter a condição colonial angolana e os vários movimentos, especialmente o MPLA e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), lutado pela independência.”

Durante o período de escrita da obra, a guerra vivia um momento de paralisia, como se os dois lados estivessem ganhando, afirma Lugarinho. “Parece que não há ações bélicas acontecendo, apesar de haver alguns ataques por parte dos guerrilheiros ou do exército português. É como se fosse uma guerra congelada, há muito tempo para conversa durante a narrativa. É um momento de reflexão, dado por essa situação de forças que não são simétricas, mas que estão equilibradas pelas posições que ocupam no território.”

Soldados portugueses nas matas angolanas durante a guerra de independência de Angola (1961-1974) – Foto: Joaquim Coelho / Copyrighted free use via Wikimedia Commons

Pertencente ao MPLA, que viria a governar Angola desde a independência até hoje, Pepetela faz dos homens do movimento os protagonistas do romance. Segundo Lugarinho, o grupo foi um dos mais destacados na luta de libertação nacional.

“Primeiro”, revela o professor, “por conta do MPLA ter se aliado, desde a sua formação, ao bloco soviético, com treinamento, ajuda militar, econômica, tática, tudo que se pode imaginar, vindo da antiga União Soviética, que deu suporte para o início da luta armada.”

Em segundo lugar, destaca Lugarinho, a proeminência do MPLA no processo de independência se deu em virtude da formação acadêmica que seus militantes receberam na União Soviética, desde os anos 1950 e principalmente durante os anos 1960. “Você tem uma dimensão muito específica do que o MPLA possui, com grande parte do seu comando formado por intelectuais que são, ao mesmo tempo, soldados.” Como reflexo da amplitude da influência do grupo, o professor aponta que toda a literatura nacional angolana desenvolvida a partir dos anos 1950 foi produzida por intelectuais ligados ao MPLA.

Ao longo da obra, contudo, Pepetela não procura criar um relato documental dos guerrilheiros ou do movimento, conforme defende Lugarinho. “Há críticos que vão dizer que é um retrato muito fiel e há críticos que vão dizer que é um retrato muito idealizado”, pondera o professor.

“Eu diria que os personagens de Mayombe têm, sim, um toque de idealização, na medida em que você tem uma cordialidade, especialmente no comandante Sem Medo, excessiva. Uma cordialidade que é dada por uma certa doçura. O comandante é um homem pacífico. Ele rejeita as atitudes extremas que a guerra impõe.”

“Acho que o Pepetela”, continua o professor, “quando confere essa característica singular a esse grupo de guerrilheiros, principalmente ao seu comandante, está querendo dizer ‘nós estamos indo à guerra, mas nós não queríamos ter ido à guerra’.”

Para expressar os pensamentos e sentimentos desses homens ao longo dos seis capítulos do livro, o autor lança mão de uma variedade de narradores, traço marcante de Mayombe. Além do narrador onisciente que conduz a trama, a palavra é passada constantemente para os personagens do romance.

Primeira edição brasileira de Mayombe, publicada em 1982 – Foto: Lucas Pecoraro / USP Imagens

“Os vários narradores estão compondo um quadro muito complexo da situação de guerra”, explica Lugarinho. “Não haveria como ter uma única voz a falar sobre todas as operações, sobretudo o que acontece no espaço da floresta. Cada experiência de cada personagem, ou de cada narrador, é muito particular e muito singular para ser contada por alguém que soubesse todas as verdades.”

Como contraponto aos guerrilheiros existe a própria floresta. Central na obra, a ponto de batizá-la, a selva é o espaço da transformação dos personagens, vital para a mensagem que Pepetela quer passar.

“Em Mayombe você tem a experiência desse espaço, absolutamente estranho, que é a selva”, comenta Lugarinho. “A maior parte dos personagens não é oriunda da selva. Eles vieram de espaços urbanos, tiveram treinamento de guerrilha, mas naquela selva, especificamente, não tiveram. Portanto, é o contato com aquilo que eu chamaria de alteridade, de alteridade absoluta. E no contato com a alteridade absoluta, nós nos descobrimos completamente outros. E é isso que está colocado em jogo em Mayombe, no fim.”

Em Mayombe, uma surucucu africana (Bitis arietans) causa confusão entre os guerrilheiros – Foto: Julius Rückert  via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

Para o professor, a vivência na selva é o que torna possível aos guerrilheiros refletirem sobre si mesmos. “Quem nós somos, afinal de contas, vivendo e lutando nessa floresta, nesse espaço absolutamente infernal que me faz me desconhecer? Esse espaço me transforma. No que ele me transforma?”

Esses questionamentos estariam em sintonia com o projeto do homem novo, item fundamental dos programas partidários da esquerda do século 20, especialmente daqueles alinhados à União Soviética, como o MPLA.

Capas de diferentes edições do livro de Pepetela – Fotos: Divulgação

“O que é ser esse homem novo?”, questiona Lugarinho. “É ser um indivíduo capaz de descobrir uma nova dimensão na relação entre seres humanos, não mais estabelecidas por uma hierarquia baseada numa tradição. E que tradição é essa? No caso de Angola, é o tribalismo, as tradições que mantiveram os vários grupos étnicos que formavam a população angolana separados e lutando, completamente desarticulados, contra os portugueses. Ser esse homem novo é descobrir a sua condição de angolano, superando e ultrapassando quaisquer traços daquilo que se denomina tribalismo.”

Conforme explica o professor, as transformações que levariam ao surgimento desse homem novo seriam fundamentais para o nascimento de uma nação efetivamente liberta, dentro da perspectiva do MPLA. E, nesse sentido, a floresta teria papel de destaque.

O escritor angolano Pepetela – Foto: via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

“Passar pelo Mayombe, pela guerrilha na selva era fundamental para se superar quaisquer traços que os ligassem à permanência do tribalismo, que seria a maior barreira para a efetiva libertação de Angola.”

Mesmo com questões específicas do contexto histórico em que foi escrito, Mayombe oferece diálogo com o Brasil, na perspectiva de Lugarinho. E a presença na lista de leituras obrigatórias da Fuvest significa o reconhecimento da importância das literaturas africanas na formação do estudante.

“Lidar com as literaturas africanas é lidar com uma realidade que é próxima, mas, ao mesmo tempo, muito diversa da nossa. É uma parte da nossa história, uma parte da nossa realidade, do nosso cotidiano, da nossa cultura, que nós esquecemos que existe.”

.

.

Conheça as outras obras exigidas na Fuvest 2018
.