Em livro, Ismail Xavier investiga como o cinema se tornou arte

O professor da USP e crítico de cinema busca respostas em “Sétima Arte: Um Culto Moderno”, reeditado pelo Sesc

Por - Editorias: Cultura
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Experiência de Eadweard Muybridge – Foto: Domínio público via Wikimedia Commons

Surgido no final do século 19, o cinema passou suas primeiras décadas sendo tratado como entretenimento para massas pouco instruídas. A crítica via os filmes como produções sem valor, preocupadas apenas com o sucesso perante o público e em ser divertimento barato. Em algum momento, contudo, isso mudou. E, se hoje é comum se referir ao cinema como a “sétima arte”, não é muito fácil encontrar as origens e explicações dessa valorização cultural.

A procura por essas respostas é o que motivou Sétima Arte: Um Culto Moderno, livro do professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e crítico de cinema Ismail Xavier. Elaborada a partir de sua dissertação de mestrado, a obra foi lançada em 1978 e agora recebe sua segunda edição, revista e ampliada.

Uma cena do filme francês “Viagem à Lua”, de 1902 – Foto: Domínio Público via Wikimedia Commons

Com o texto integral, o livro recebe nova introdução do autor e comentários atualizados, resultado da continuação das pesquisas de Xavier como teórico e professor de Crítica e História do Cinema Brasileiro.

Xavier parte do seguinte questionamento: como a forma estética cinematográfica se transformou em uma linguagem artística fundamentalmente moderna? Na investigação dessa pergunta, o pesquisador volta para as décadas de 1910 e 1920 e analisa manifestos das vanguardas artísticas e escritos teóricos, sobretudo aqueles produzidos na França e, mais tarde, no Brasil.

“Focalizar essa época (mais precisamente, o período que se inicia em plena Primeira Guerra Mundial e vai até o advento do cinema sonoro) significa estabelecer contato direto com a origem de muitos elementos da teoria e da estética cinematográficas”, escreve Xavier na introdução do livro.

Ricciotto Canudo: em 1911, ele usou pela primeira vez a expressão “sétima arte” para se referir ao cinema – Foto Domínio Público via Wikimedia Commons

De acordo com o autor, a primeira menção ao termo “sétima arte” surge em 28 de março de 1911, no Manifesto das Setes Artes, escrito pelo italiano radicado na França Ricciotto Canudo. Reproduzindo as palavras de Canudo, o livro apresenta sua definição e defesa do cinema:

“Sétima arte representa, para aqueles que assim a chamam, a poderosa síntese moderna de todas as artes: artes plásticas em movimento rítmico, artes rítmicas em quadros e esculturas de luzes. Eis a nossa definição do cinema: e, bem entendido, pelo cinema arte como o compreendemos e em direção ao qual nos batemos. Sétima arte porque a arquitetura e a música, as duas artes supremas, com suas complementares – pintura, escultura, poesia e dança –, formaram até aqui o coro hexarrítmico do sonho estético dos séculos.”

Para Xavier, a formulação de Canudo, assim como outras desse primeiro período, surgem repletas de traços idealistas, como a presença constante de um elogio extremado ao cinema, que tende ao culto e à fé em revelações incríveis. A intuição imediata de uma “essência universal” do cinema também é uma marca das reflexões desses autores.

Nesse culto e nessa intuição da “essência universal”, os primeiros teóricos da sétima arte viam o cinema como produto e imagem da modernidade industrial, do progresso técnico-científico e dos grandes centros urbanos repletos de energia elétrica e automóveis.

O professor da USP e crítico de cinema Ismail Xavier – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“O elogio estético ao cinema, num primeiro momento, ocorre em função de sua direta filiação técnica e industrial, bem como pela sua sintonia com as novas condições da experiência sensível, testemunhada no dinamismo de sua imagem”, analisa Xavier. Segundo o pesquisador, o valor positivo do cinema estaria, para esses autores, em sua modernidade, concebida dentro de um pensamento que entendia a modernidade como esquecimento e oposição à tradição, como ruptura radical com o passado.

“A nova arte das imagens, fruto de uma nova técnica, isenta de qualquer ingerência de uma tradição nela ausente”, comenta, “assumiria uma posição de extrema importância, pois em nenhum outro lugar estaria mais bem concretizado o ideal de um presente sem memória, que olha exclusivamente para o futuro.”

Ao olhar para o futuro negando o passado, o cinema deveria também se afastar do teatro e da narrativa, segundo esses autores. Criar uma linguagem autônoma passaria por retirar todas as “impurezas” da tela. “A defesa da especificidade do cinema e a busca de fundamentos para essa especificidade exigiam a luta contra o teatro, fato que marcou o pensamento cinematográfico dos anos 1920 em quase toda a Europa.”

Le Sortie de l’usine Lumière à Lyon, dos irmãos Lumière: em suas origens, o cinema era visto pela crítica como produções sem valor – Foto: Domínio Público via Wikimedia Commons

Xavier destaca, entretanto, que recusar a narrativa era um processo mais complexo, já que a luta dos teóricos precisava se pautar na realidade das produções que existiam no período. “A todos impunha-se a seguinte questão: como defender o específico fílmico e procurar a essência do cinema fora da narração sem ter de fechar os olhos para o que é predominante nos filmes?”, comenta o pesquisador.

O livro do professor Ismail Xavier – Foto: Reprodução

Escrito nos anos 1970, o livro de Xavier não representa apenas um olhar para o passado. Como o próprio autor assume na introdução à segunda edição, a obra é uma resposta à então recente consolidação dos estudos sobre cinema na Universidade e seu tratamento dentro dos preceitos da ciência. Nas palavras do próprio autor:

“Daí o título Sétima Arte: Um Culto Moderno, que anuncia o ponto de vista deste estudo, conduzido por uma avaliação crítica modulada pela atenção à historicidade do que se constrói como objeto de pesquisa, e se constituía, nos autores estudados, como celebração apaixonada do novo, algo que se afigurava em minha percepção como semelhante ao que, no momento em que eu desenvolvia essa pesquisa, ocorria na celebração de uma nova ciência do cinema, ressalvada a diferença de tom própria à cesura epistemológica’ em marcha aos olhos de pesquisadores universitários em torno de 1970.”

Sétima Arte: Um Culto Moderno, de Ismail Xavier, Edições Sesc São Paulo, 288 páginas, R$ 60,00.

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