Em evento na USP, professora de Lyon mostra as vertentes da literatura medieval francesa

As características dos textos literários medievais franceses e suas relações com outras formas de literatura – entre elas, a de cordel – serão analisadas pela professora Beate Langenbruch, da École Normale Supérieure de Lyon, na França, em encontro promovido pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), no dia 15, quarta-feira

Por - Editorias: Cultura
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“Uma visita aos jardins literários franceses da época medieval” é o tema do Café Acadêmico, evento que o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP promove no dia 15 de junho, quarta-feira, às 18 horas. Realizado em parceria com o Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o encontro terá a participação da professora Beate Langenbruch, da École Normale Supérieure (ENS) de Lyon, na França, que falará sobre literatura medieval francesa, acompanhada pelos professores Paulo Iumatti, do IEB, e Álvaro Faleiros, da FFLCH.

Escritor medieval Chrétien de Troyes – Imagem: Wikimedia Commons
Chrétien de Troyes, escritor medieval – Imagem: Wikimedia Commons

Segundo os professores, o evento tem os objetivos de aprofundar as relações entre a ENS e a USP, estreitar laços entre pesquisadores dessas universidades e difundir o conhecimento sobre a literatura medieval. Além disso, durante o encontro, haverá um diálogo entre os três professores, que têm especialidades diferentes, mas com muitos pontos de contato.

“Já descobrimos muitos fenômenos parecidos em nossos textos”, explica a professora Beate. “A literatura medieval francesa é caracterizada pela oralidade e pelos procedimentos típicos da literatura em versos, que é o campo de especialização do professor Álvaro Faleiros. Além disso, um dos textos que vou citar, La Chanson de Roland (A Canção de Rolando), poema épico do século 11, é um dos ‘avós’ da literatura de cordel, portanto, tem tudo a ver com as pesquisas do professor Paulo Iumatti.”

O professor Iumatti reforça o que diz a professora. “Estudo um gênero da literatura de cordel, o marco, que tenho a intenção de pesquisar se tem ou não alguma relação com a literatura medieval europeia. Além disso, nós três temos no cerne de nossos estudos as formas poéticas atravessadas pela oralidade. Nesse ponto em comum, nossos diálogos têm sido bastante fecundos.”

Marie de France, escritora medieval – Imagem: Wikimedia Commons
Marie de France: “narrativas maravilhosas” – Iluminura: Wikimedia Commons

A literatura medieval francesa tem como características marcantes, além da oralidade e da estruturação em versos, os temas épicos (as chamadas canções de gesta, ou chansons de geste, como A Canção de Rolando) e também a poesia lírica e as trovas. “A prosa ainda era muito incipiente, aparecendo apenas em algumas crônicas sobre a vida do rei”, explica o professor Faleiros. “Tudo era escrito em versos. As canções de gestas sobre batalhas, reis e guerreiros assemelham-se às epopeias clássicas greco-latinas, como a Ilíada, de Homero, por exemplo.”

 

No gênero das canções de gestas, a professora Beate Langenbruch destaca as histórias dos heróis Ferrabrás e Renaut de Montauban, que envolvem o imperador Carlos Magno e seus paladinos, além daquele que ela chama de “escritor maior do século 12”, Chrétien de Troyes, cujos romances (também escritos em versos) introduziram heróis como Lancelote, Percival e outros famosos integrantes do ciclo do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. “Penso também em duas mulheres: Marie de France, que fez narrativas maravilhosas em seus Lais, e Christine de Pisan, uma precursora do feminismo que criticava a misoginia do meio literário da época, por exemplo, nas Querelles des femmes (controvérsias sobre a questão das mulheres).”

Poeta provençal Bernard de Ventadour –Iluminura: Wikimedia Commons
O poeta provençal Bernard de Ventadour –Iluminura: Wikimedia Commons

“Há também, por outro lado, as canções de amor da poesia lírica trovadoresca, de origem provençal”, continua o professor Faleiros. “Elas eram compostas no idioma da Provença, que na época ainda não fazia parte da França, que ainda estava se formando como nação, e mais adiante tornaram-se importantes para o que hoje é a língua francesa, por exemplo, com Bernard de Ventadour (ou Bernat de Ventadorn), poeta provençal que circulava pelo que hoje é o norte da França.”

 

O professor diz que essas obras são muito próximas da poesia galego-portuguesa. “Havia as canções de amigo, as canções de escárnio – das quais o grande nome é François Villon, um dos últimos poetas medievais e, grosseiramente comparando, um Gregório de Matos francês, cujas obras são muito apreciadas e traduzidas no Brasil. Já um dos mais importantes poetas das canções de amigo era Charles d’Orléans, também muito estudado e apreciado.”

Faleiros conta que as canções, tanto as de gesta quanto as trovadorescas, nasciam de fato como poemas musicados, acompanhadas de alaúde, “algo como faziam Chico Buarque e Caetano Veloso”, apresentadas nas cortes, e com o tempo passaram da oralidade para o papel. “A natureza ao redor dos castelos também foi importante para compor o imaginário das canções.”

Daí vem a ideia dos jardins literários, cujo clima bucólico será analisado no evento. De acordo com a professora Beate, “os castelos e monastérios da época possuíam jardins extraordinários, e esses jardins estavam presentes na literatura. Na palestra, vamos abordar esse tema e os usos sociais do jardim na literatura medieval francesa”.

A palestra, que será realizada em português, com leituras dos textos no idioma original e posterior tradução e análise, ocorrerá na sala 13 do Complexo Brasiliana (rua da Biblioteca, sem número, Cidade Universitária, São Paulo). A entrada é gratuita, mediante inscrição neste site: https://www.doity.com.br/uma-visita-aos-jardins-literarios-franceses-da-epoca-medieval/inscricao.

A morte de Roland na batalha de Roncevaux (1455-1460) – Iluminura: Jean Fouquet/ Wikimedia Commons
A morte de Roland na batalha de Roncevaux (1455-1460) – Iluminura: Jean Fouquet/ Wikimedia Commons
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