Coletivo de jovens artistas faz espetáculo de estreia no Tusp

Criada por um grupo de alunos de várias disciplinas da USP, a peça (.dentro) fica em cartaz do dia 22 ao dia 28 de julho

Por - Editorias: Cultura
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Cena do espetáculo teatral (.dentro) - Foto Cecília Bastos/Usp Imagens
Cena do ensaio da peça (.dentro), realizado no dia 21 de julho – Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens

O Teatro da USP (Tusp) é palco da estreia profissional de um coletivo artístico de alunos da USP com o espetáculo (.dentro), em cartaz do dia 22 de julho ao dia 28 de julho. As apresentações ocorrem às sextas-feiras e sábados às 21 horas e aos domingos às 19 horas.
Resultado de um projeto iniciado há cerca de dez meses numa disciplina do curso de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a peça extrapolou os objetivos acadêmicos e chegou ao Tusp, explica a diretora Maíra do Nascimento. “Somos todos ‘filhos’ da USP, e toda a origem do trabalho está lá. Na matéria de Direção Teatral III, com orientação do professor Antônio Araújo, formamos o grupo da peça, que permanece basicamente o mesmo desde então”, diz Maíra. “O que tínhamos em mente era fazer algo de meia hora de duração, mas chegamos a uma hora e 15 e gostamos muito. Então decidimos continuar além da disciplina.”

Maíra do Nascimento Azevedol - Foto Cecília Bastos/USP Imagens
Maíra do Nascimento: peça é inspirada em filme do diretor grego Yorgos Lanthimos – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Formado por alunos dos cursos de Artes Cênicas, Artes Plásticas, Música, Audiovisual e Têxtil e Moda, o coletivo, ainda sem nome, inspirou-se no filme Dente Canino, do diretor grego Yorgos Lanthimos, para a construção da peça. “O filme faz parte de uma leva de filmes gregos pós-crise de 2008, e é muito impactante e perturbador, além de dialogar com o mundo em que vivemos hoje”, relata Maíra. “Gosto muito dele e, quando eu o mostrei à equipe, todos também se apaixonaram, e decidimos usá-lo como um ‘norte’ para planejar a nossa peça.”
Embora não seja uma adaptação propriamente dita do filme para o teatro, a diretora afirma que a inspiração é perceptível. “Quem assistiu ao filme e for ver a peça notará as referências, inevitavelmente, porque, ao mesmo tempo em que não fizemos uma adaptação, também não nos distanciamos tanto do filme, apenas pegamos alguns de seus elementos e os trouxemos para outro lugar”, diz a diretora. “É interessante ver como um projeto que saiu do cinema se transforma e encontra um lugar quando vem para o teatro. Você precisa falar de outro jeito. O texto é diferente, as cenas, coisas que funcionavam muito no cinema não tinham força nenhuma no palco. Aprendemos essas diferenças nas linguagens.”
O enredo do espetáculo mostra um casal que decidiu criar seus filhos confinados dentro de casa. O pai é o único que vai além das quatro paredes, e ele e a mãe educam seus filhos através de regras e jogos de linguagem, para protegê-los dos perigos do mundo exterior. Criados desde que nasceram dentro da casa, os filhos, já adultos, porém alienados, são como crianças, mas suas características distintas são o fator que faz a trama se desenrolar. “A filha mais nova é mais suscetível às regras e padrões, repetindo-os ao pé da letra. O filho é mais curioso, e às vezes capta brechas na linguagem dos pais quando estes falam do mundo lá fora. Mas é em torno da irmã mais velha, com uma trajetória conturbada, que se desenvolve a desordem e a desorganização desse ambiente familiar”, descreve a diretora.

Foto Cecília Bastos/Usp Imagens
Na peça, família vive enclausurada na própria casa – Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens

O eixo da história se apresenta como uma alegoria das relações familiares e sociais, permeadas pelo medo do outro, pelo afeto e pela violência. Essa violência acaba se fazendo presente na rotina da família, apesar da busca dos pais por manter seus filhos a salvo de perigos. “Acompanhamos a rotina dessas pessoas dentro da casa. Claro que é impossível passar uma vida enclausurado. O dia a dia se torna tedioso, e essa existência acaba descambando em violência” diz Maíra. A violência pode ser vista também na performance dos atores. “Fizemos uma pesquisa, por exemplo, em relação à tensão presente nos corpos dos atletas de esportes altamente violentos, além de nos inspirar no grupo de dança Cena 11, que tem uma dinâmica de queda muito forte em sua coreografia. Incorporamos esses traços gestuais aos personagens, ao modo como se abraçam, como se tocam, como agem.”

Anacronismo

Outro ponto de destaque da peça é o anacronismo, como explica Maíra. “Como essa família passa a vida confinada dentro da casa, ela não poderia ser como nós somos aqui fora, e não só no gestual, mas também na fala, na linguagem. Além disso, pelos figurinos bastante coloridos e o cenário infantilizado, cria-se um anacronismo: não é possível saber se é uma família do futuro, do passado ou do presente. Os aniversários são importantes nisso também. Não sabemos se são realmente uma contagem das idades das ‘crianças’ ou não.”

Foto Cecília Bastos/Usp Imagens
(.dentro) fica em cartaz no Tusp até 28 de julho – Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens

De acordo com Maíra, as festas de aniversário celebradas pela família são uma das estratégias usadas pelos pais para a adaptação dos filhos à realidade do isolamento. “É como se fosse o ‘pão e circo’ da família, é um momento em que os filhos podem se manifestar, discursar, não apenas ouvir.” Outro fator, mas dessa vez de intimidação, é a chuva, que de acordo com o pai é constante lá fora. “Não é claro se realmente chove ou se é apenas um artifício dos pais para manter os filhos dentro de casa”, diz a diretora.
Assim constrói-se uma espécie de adestramento ideológico dos filhos, que acreditam no que os pais dizem sobre o mundo exterior, e isso é representado também na cenografia da peça, na qual os cômodos não são separados por paredes. “As barreiras estão na cabeça dos personagens, e deixamos isso implícito também no cenário”, explica Maíra.
Apesar desse distanciamento do mundo real, a intenção da peça, segunda a diretora, é que o público se reconheça naquela família excêntrica. “Conforme construíamos  a peça, fomos nos encontrando com o cotidiano real para inserir na vida da família. Trabalhei muito com a ideia de cotidiano estranhado, isto é, apesar de se tratar de uma realidade muito diferente, é impossível não fazer relações com nossas vidas reais, nossos medos, nossas barreiras, nossos costumes.”
As entradas para o espetáculo, que tem classificação etária de 16 anos, custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia) e podem ser adquiridas no Tusp nos dias da apresentação, a partir de duas horas antes do seu início. O endereço é rua Maria Antonia, 294, Consolação, em São Paulo. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3123-5222, pelo site do Tusp (www.usp.br/tusp), no site do espetáculo (www.dentro-teatro.com) e em sua página no Facebook (www.facebook.com/dentroteatro).

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