Cinemateca Brasileira conserva 45 mil obras cinematográficas

Aos 70 anos de existência, a instituição que representa um dos grandes legados de Paulo Emilio Salles Gomes luta com dificuldades pela preservação da memória do cinema nacional

Por - Editorias: Cultura
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Fachada da Cinemateca Brasileira, em São Paulo – Foto: Everton Zanella Alvarenga/Wikimedia Commons

Em 2016, ano em que se comemora o centenário do crítico de cinema e professor da USP Paulo Emilio Salles Gomes, a Cinemateca Brasileira, um de seus grandes legados à cultura nacional, também faz aniversário. “O Segundo Clube de Cinema de São Paulo foi inaugurado em 1946, e esta é a origem de tudo”, diz Olga Futemma, atual diretora da Cinemateca e ex-aluna de Paulo Emilio. “Completamos 70 anos de vida institucional, com muita dificuldade, mas sem descontinuidade, o que é fabuloso, porque a consciência em relação à necessidade da existência de uma cinemateca no Brasil era nula.”

A ideia dessa necessidade nasce com Paulo Emílio, que militou durante 20 anos pela criação e consolidação da instituição, conseguindo para ela apoio internacional e do poder público. “Manter uma instituição, uma ideia, um projeto, é algo muito difícil. Mas criar algo do zero requer muita visão. É preciso ser um visionário, e Paulo Emilio foi um visionário”, diz Olga. Ainda assim, a Cinemateca Brasileira passou por diversas dificuldades, desde incêndios em virtude da alta combustibilidade dos rolos de filme de nitrato de celulose do acervo a problemas financeiros e estruturais e falta de apoio político.

Carlos Augusto Calil, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e também ex-aluno de Paulo Emilio, lembra que esses problemas causaram um sentimento de enorme amargura no crítico. “Paulo Emilio morreu com a convicção de que a Cinemateca era um projeto fracassado”, diz ele. “Ele dizia ‘eu fracassei. Talvez vocês consigam, mas eu fracassei’”.

Carlos Augusto Machado Calil - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Carlos Augusto Machado Calil – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Olga, embora concorde que Paulo Emilio tivesse grande frustração pela dificuldade em consolidar a instituição, relembra um conceito dito por ele em suas aulas, para encontrar uma visão mais positiva. “Ele dizia que nunca se deve perder de vista o geral, por isso eu acho que dentro dele havia essa força de tentar enxergar o geral, não ser esmagado pela conjuntura, pelas dificuldades do momento. Eu gosto de pensar nisso, porque realmente a Cinemateca foi uma luta do Paulo Emilio de uma vida inteira”, diz. Para ela, Paulo Emilio conseguiu formar pessoas comprometidas com o projeto, inclusive o próprio Calil, que conseguiu, com o então prefeito de São Paulo Jânio Quadros, o terreno onde hoje se encontra a Cinemateca, no largo Senador Raul Cardoso, no bairro paulistano de Vila Clementino, muito próximo de onde Paulo Emilio morava.

O local, que foi antes o matadouro da cidade, no final dos anos 1980 era um grande depósito de postes de iluminação. Levou nove anos para que todos os setores da Cinemateca estivessem ali instalados, e hoje, segundo Calil, ela é uma das cinematecas mais bem localizadas do mundo. “Paulo Emilio não poderia imaginar a Cinemateca hoje, com toda a capacidade de restauração, os avanços tecnológicos… Isso nunca passaria pela cabeça dele”, diz Calil. Para Olga, além da bela arquitetura e do espaço disponível, “o fato de todos os setores estarem reunidos junto com o acervo foi fundamental para o desenvolvimento futuro da Cinemateca. Temos um acervo precioso de 200 mil rolos de filmes, que correspondem a cerca de 45 mil obras. Isso tudo precisa de uma integração para funcionar”.

Olga ressalta “os três tesouros” da Cinemateca Brasileira hoje: “O primeiro é, sem dúvida, o acervo. O segundo é o quadro técnico, hoje muito reduzido e com contrato precário, mas com uma disposição impressionante para o trabalho. E o terceiro é este espaço magnífico, que também precisa de um cuidado especializado”.

Bibliotecas

Além do acervo de filmes, a Cinemateca abriga também a Biblioteca Paulo Emilio Salles Gomes, composta de cerca de 4.700 livros, além de pesquisas acadêmicas e outros materiais e documentos relacionados ao cinema. Parte do acervo foi concedida pelo próprio Paulo Emilio. Ao longo dos anos, mais exemplares foram incorporados através de doações, até que, entre 2007 e 2012, foi firmada uma parceria entre o Ministério da Cultura e a Sociedade Amigos da Cinemateca, que possibilitou um aumento no quadro de funcionários, resultando na ampliação da biblioteca. Hoje, a parceria não existe mais, e a biblioteca voltou a depender de doações.

Olga Futemma coordenadora-geral da Cinemateca Brasileira - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Olga Futemma, coordenadora-geral da Cinemateca Brasileira – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Outro valioso arquivo da Cinemateca é o acervo pessoal de Paulo Emílio, que reúne cerca de 5 mil livros sobre temas que o interessaram ao longo da vida, como história, política, sociologia, psicologia e literatura, somados a cerca de dez mil documentos, correspondências e ainda objetos pessoais do intelectual, como troféus e estatuetas. “Através da imersão em seu arquivo pessoal, é possível entender melhor a formação de seu pensamento”, diz Olga. Por ser um acervo único, essa área pode ser visitada apenas por pesquisadores. Porém, a equipe da Cinemateca está trabalhando na digitalização desse material para disponibilização pública. “Além de democratizar o acesso às obras, a digitalização possibilita a preservação do acervo físico, que passa a ser menos manuseado”, explica a diretora.

Esse projeto de digitalização integra a função social da Cinemateca Brasileira, que Olga qualifica como inquestionável. “Durante muito tempo o cinema foi visto apenas como entretenimento descartável, fugaz. Com o trabalho de Paulo Emilio e seus colegas, isso foi mudando, mas acho que essa mudança ainda não se completou”, avalia ela. “Quando se fala em Cinemateca, todo mundo acha ótimo, mas ninguém faz nada. As pessoas são simpáticas à ideia, mas a ação não corresponde a essa simpatia.” Para Olga, houve avanços nesse sentido, porém a ideia de que a memória cinematográfica é necessária para a identidade de um povo ainda não foi devidamente incorporada. “A preservação audiovisual ainda não entrou na cadeia produtiva do cinema, que é produção, distribuição e exibição. Falta uma perna aí, que é a preservação.”

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