Casa de Dona Yayá recebe exposição sobre o bairro do Bixiga

As obras expostas foram criadas por jovens e idosos durante duas oficinas oferecidas pela Casa

Por - Editorias: Cultura
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Desenhos feitos pelos jovens e idosos durante as oficinas - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Desenhos feitos pelos jovens e idosos durante as oficinas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A Casa de Dona Yayá, que desde 2004 abriga o Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP, inaugurou, no dia 1º de dezembro, a exposição Cores do Bixiga na Yayá. As obras, que serão exibidas até o dia 24 de março de 2017, foram criadas por jovens e idosos do bairro do Bixiga durante duas oficinas que foram ministradas na Casa. A intenção era que os oficineiros retratassem, a partir de suas percepções, os elementos, tons, sabores e texturas do bairro. Todo o processo criativo foi coordenado pelo artista plástico e antropólogo Wagner Lins, mais conhecido como Arieh.

A proposta de realização das oficinas partiu do próprio Arieh, que teve contato com a Casa de Dona Yayá durante sua pós graduação na USP. Segundo ele, a ideia primordial era trazer a comunidade para ocupar este espaço público. Surgiu então uma primeira proposta desenvolvida para um grupo de 10 adolescentes da região: contar, à sua maneira e com os recursos disponíveis, a história de Dona Yayá. Durante a oficina, que aconteceu entre os dias 15 de abril e 24 de maio de 2015, os jovens ilustraram a rotina de confinamento de Yayá, além dos dramas familiares e o amor platônico pelo aviador Edu Chaves. Arieh propôs que os adolescentes criassem suas ilustrações a partir da arte Näif, ou arte ingênua, desprendida de dogmas estilísticos. “Nossa intenção era retratar as casas, o bairro e toda a história do Bixiga. Também queríamos construir um novo acervo para a Casa, que já tinha documentos, jornais, fotos, mas não este tipo de ilustração”, conta o artista.

Painéis criados com os desenhos do oficineiro Gabriel - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Painéis criados com os desenhos do oficineiro Gabriel – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Arieh ressalta algumas histórias interessantes entre os jovens que participaram das oficinas. Como a de Gabriel, menino que que estava abrigado em uma instituição do bairro e revelou extremo talento em seus desenhos. Suas figuras foram transformadas em grandes painéis que ocupam o centro da sala de exposição. Lins conta também que uma garota, Yolanda, sempre passava pela Casa e olhava com curiosidade, mas nunca entrava. Durante as oficinas, Yolanda finalmente entrou na Casa de Yayá para participar das atividades e ganhou o apelido de “a menina que espreitava”. Ela criou uma definição tão espirituosa quanto a sua para Yayá: “O pássaro na gaiola de ouro”. Arieh exalta, com estas histórias, a simplicidade dos garotos com quem conviveu durante a primeira oficina. “Desta maneira simples e ingênua, eles retrataram esta história tão dura e trágica”, completa.

Maquetes produzidas pelos idosos durante a segunda oficina - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Maquetes produzidas pelos idosos durante a segunda oficina – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Após a primeira oficina, o CPC organizou uma pequena exposição com as obras criadas pelos jovens artistas, que foi visitada por diversos grupos da região. Um deles, o Núcleo de Convivência para Idosos da Paróquia Nossa Senhora Achiropita, demonstrou interesse em também participar de uma oficina após a visita. “Eles me disseram que se os adolescentes podem, eles também deveriam poder”, comenta Arieh sobre a abordagem do grupo de cerca de 15 idosos. O orientador conta que o grupo demonstrou grande vitalidade, energia e trouxe uma enorme quantidade de ideias para retratar o bairro, suas histórias e relação com o Bixiga. “O grande legado desta oficina é justamente a integração espontânea que atingimos com a comunidade do Bixiga”, aponta Arieh sobre a experiência que coordenou junto ao CPC.

Wagner Lins, ou "Arieh", que coordenou as oficinas - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Wagner Lins, ou “Arieh”, que coordenou as oficinas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Gabriel Fernandes, membro do CPC e curador da exposição, ressalta que o CPC realiza periodicamente atividades de extensão “com a finalidade de promover um diálogo entre a universidade, as dimensões artísticas e as diversas comunidades da região”. Ele lembra que o Bixiga é um bairro multifacetado, com diversas comunidades e culturas distintas. “As pessoas geralmente associam o Bixiga à comunidade italiana, mas temos presenças negras importantíssimas, bem como nordestinas e de imigrantes”, lembra. A intenção deste tipo de iniciativa é então, segundo ele, potencializar o caráter que a Casa tem como espaço de encontro e criar uma ponte que ligue artistas como Arieh, a Universidade e toda a sociedade do bairro.

Assumindo a grande distância entre o universo acadêmico e a realidade dos moradores do Bixiga, Fernandes garante que também é uma função do CPC promover o “choque” ou o diálogo entre os diversos saberes. Para ele, “é preciso reconhecer a potencialidade de cada saber e criar espaços para que essas vozes, que geralmente estão silenciadas, se expressem”. O curador lembra ainda a importância do projeto para a preservação da cultura da região: “Criamos uma exposição pequena, modesta, mas que corrobora com nossa função, não só como órgão de cultura e extensão, mas como órgão ativo na manutenção do patrimônio cultural”.

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