Biblioteca Brasiliana lança livro sobre Rubens Borba de Moraes

Rubens Borba de Moraes (1899-1986): um dos maiores bibliófilos do Brasil – Foto: Prefeitura SP/Biblioteca Rubens Borba de Moraes

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Parte dos mais de 32 mil títulos ou 60 mil volumes pertencentes à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP tem origem no acervo de Rubens Borba de Moraes, um dos maiores bibliógrafos, bibliófilos e historiadores do Brasil, que doou sua coleção ao casal Guita e José Mindlin antes de seu falecimento, em 1986.

Pensando na importância de Rubens Borba de Moraes para a concepção e a construção da BBM, a curadora da  Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, Cristina Antunes, vai lançar no dia 13 de março, terça-feira, às 18 horas, o livro Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, pela BBM Publicações.

“Cogitei a possibilidade de realizar uma publicação que reunisse o conjunto das notas manuscritas por ele nos livros que constituem a sua biblioteca — hoje parte integrante da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Universidade de São Paulo —, o que me levou a elaborar o levantamento, registro e reprodução de toda a marginália presente nas referidas obras”, escreve Cristina na Introdução da obra.

O livro de Cristina Antunes, lançado pela BBM Publicações – Foto: Reprodução

Cristina trabalhou no levantamento, registro e transcrição de notas manuscritas em papéis avulsos, recortes de jornais e de catálogos, notas de vendas emitidas por livreiros e anotações feitas pelo bibliófilo, especificamente relacionadas aos livros que constituíram sua biblioteca pessoal.

Essas anotações continham informações sobre os autores e suas obras, suas biografias e os contextos em que eles estavam inseridos. Geralmente, eram feitas a lápis nas folhas de guarda dos livros (página que une a capa ao corpo do livro) ou na página de rosto (folha que traz informações como título, subtítulo e autor do livro).

Mas, apesar de nos livros de Rubens Borba de Moraes haver inúmeras notas, uma grande parte informava “de forma bastante econômica” somente a referência bibliográfica dos autores, “acompanhada do número do verbete e/ou do número da página do mesmo. Eventualmente, essa informação é complementada com alguma expressão, como ‘raro’, ‘raríssimo’, ‘é a 1ª edição’ etc.”, escreve Cristina.  

No que se refere aos recortes de artigos jornalísticos e às partes de páginas de catálogos, estas, também segundo Cristina, “representam informações complementares ao contexto bibliográfico”. Já as notas de vendas dos livros adquiridos por Rubens Borba de Moraes “são uma excelente fonte de informação sobre a procedência e os valores das obras na ocasião em que foram compradas, além de permitirem uma comparação com os valores atuais desses livros, geralmente presentes em catálogos de livreiros ou catálogos de leilões”. Quanto às notas manuscritas em folhas avulsas — ou seja, separadas dos livros —, embora raras, são “as que evidenciam maior interesse para o pesquisador em virtude da riqueza de informações que elas contêm”.

Foi esse aspecto que deu a certeza da importância de organizar um livro sobre os registros feitos pelo bibliófilo. “O conteúdo dessa empreitada que abrange o levantamento da totalidade das notas de Rubens Borba de Moraes que aqui se encontram devidamente organizadas e registradas, a meu ver, merece ser disponibilizado na forma de uma publicação impressa, que permitiria aos pesquisadores e interessados em bibliografia o acesso ao conjunto completo de informações que estão presentes nos livros de Rubens”, escreve Cristina.

À esquerda, capa de livro do acervo de Rubens Borba de Moraes, História da América Portugueza, de Sebastião da Rocha Pittta, a primeira história do Brasil a ser impressa, em 1730. À direita, imagem de nota de venda onde o livro foi adquirido

 

Um pouco da história de Rubens Borba de Moraes

Rubens Borba de Moraes nasceu em 1899, na cidade de Araraquara (SP), e morreu em Bragança Paulista (SP), em 1986.

Estudou na Faculdade de Letras de Genebra, na Suíça, onde lançou seu primeiro livro, Le Chevalier au Barizel (O Cavaleiro em Barizel, em português), uma peça de teatro encenada em fevereiro de 1919. No Brasil, manteve fortes laços com o grupo de artistas precursores do movimento modernista, que deu forma à Semana de Arte Moderna de 1922, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Guilherme de Almeida, Luís Aranha, Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade. Em 1923, publicou seu primeiro livro de ensaios, Domingo dos Séculos, e, no mesmo ano, começou a colaborar na criação e lançamento de revistas vanguardistas, como a Terra Roxa & Outras Terras e a Revista de Antropofagia.

Rubens Borba de Moraes, em 1922, durante a Semana de Arte Moderna – Foto: Wikimedia Commons

Contribuiu na fundação da Escola Livre de Sociologia e Política — hoje Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo —, idealizou e concretizou a criação do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, abrindo caminho para o desenvolvimento de bibliotecas públicas paulistanas, e fundou o primeiro curso de Biblioteconomia do Brasil, assumindo a direção da Divisão de Bibliotecas do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo e dedicando-se, a partir de então, aos livros e à biblioteconomia. Também foi diretor da Biblioteca Nacional durante os anos 1940 e, ao final daquela década, assumiu a direção da biblioteca e do centro de informações da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos Estados Unidos, cargo que ocupou por mais de dez anos.

Foi responsável pela organização de coleções e séries de livros, como a da Biblioteca Histórica Brasileira e a série Roteiro do Brasil, que inclui dois títulos: Cultura e Opulência do Brasil e Obras Econômicas.

“Rubens se dedicou especialmente a colecionar os autores brasileiros do período colonial”, afirma Cristina, lembrando que as coleções Bibliographia Brasiliana: Livros Raros Sobre o Brasil Publicados desde 1504 até 1900 e Obras de Autores Brasileiros do Período Colonial, que o bibliófilo organizou, são consideradas referências na pesquisa e nos estudos bibliográficos brasileiros.

“A importância da sua produção pode ser avaliada não só por sua qualidade, como pela preocupação de propagar a cultura brasileira”, escreve a bibliotecária da BBM. Ainda segundo ela, “Rubens era uma pessoa objetiva, prática e direta, que aproveitava todas as situações com que se deparasse para realizar pesquisas ligadas ao seu interesse bibliográfico”. Como um investigador, “seguia exaustivamente a pista dos livros que lhe interessavam, muitas vezes viajando a vários países para isso”.

O livro Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, de Cristina Antunes, será lançado no dia 13 de março, terça-feira, às 18 horas, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Espaço Brasiliana, Cidade Universitária, em São Paulo, telefone 11 2648-0320).