Ana Maria Tavares retoma trajetória na Pinacoteca

Com mostra retrospectiva, a professora e pesquisadora da USP volta a ocupar o museu onde inaugurou sua carreira

Por - Editorias: Cultura
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20170117_pinacoteca10_1280pxCorredores do museu transformam-se em obra com trabalho intitulado Parede Loos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Convidada a voltar ao mesmo lugar onde, em 1982, inaugura sua carreira com a individual Objetos e interferências, a artista plástica Ana Maria Tavares – que, atualmente, é professora do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da mesma instituição – ocupa a Pinacoteca do Estado de São Paulo pela segunda vez, com a exposição retrospectiva No lugar mesmo.

Para a artista*, voltar a expor no museu é como “revisitar o presente, carregado de passado, a partir do lugar mesmo, ou dos lugares mesmos”, em referência tanto ao espaço onde inicia sua trajetória quanto aos contextos enfocados por sua obra – a natureza tropical e a arquitetura, entendidas aqui como construções ideológicas do projeto moderno no Brasil, projeto cujas implicações políticas, econômicas e sociais são questionadas por seu trabalho.

Entre instalações, esculturas, vídeos, peças sonoras e outras obras bi e tridimensionais são mais de 160 trabalhos que se espalham pelo primeiro andar do edifício da Luz, piso destinado às exposições temporárias. As obras, que ocupam as sete salas do andar, assim como os espaços do octógono, lobby e corredores do mesmo piso, mostram ao visitante um percurso de exploração realizado pela artista que não se limita a uma única linguagem ou procedimento e provocam reflexões sobre problemáticas e conceitos trazidos por ela em suas obras.

Em cartaz desde novembro de 2016, a exposição permanece na programação do museu até dez de abril deste ano revisando uma seleção significativa de trabalhos produzidos pela artista ao longo de seus quase 35 anos de carreira e, também, trazendo uma reflexão sobre a história e o lugar da Pinacoteca.
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Vitórias-Régias - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Vitórias-régias – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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De antologia para atualidade inaugural

A exposição faz parte da série de mostras antológicas realizadas no museu que retomam a carreira de artistas que iniciaram suas trajetórias no Brasil na década de 80. Entretanto, apesar de ser uma retrospectiva, a mostra não só retoma, mas, também, ressignifica a produção de Ana Maria do momento em que inicia sua carreira até agora. “A ideia surgiu como uma retrospectiva, uma antologia, mas, nas conversas com a artista, ela foi se desenvolvendo em um projeto que acabou se configurando como uma intervenção dentro do espaço da Pinacoteca”, explica Fernanda Pitta, curadora da exposição.

Em 2016, a mostra foi eleita pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como a melhor produção retrospectiva do ano em artes visuais. Diferentemente de uma antologia tradicional, segundo Fernanda, em No lugar mesmo, as obras foram distribuídas sem se pautar pela cronologia, pelas técnicas utilizadas ou por qualquer outro tipo de arranjo convencional do trabalho da artista. Ao invés disso, a distribuição dos trabalhos se deu de modo a construir novas relações entre si e com o espaço ocupado. Assim, um novo trabalho foi criado a partir de trabalhos anteriores e, o que poderia ter sido uma retrospectiva tradicional, transformou-se em “atualidade inaugural”.

Mas não foram só os trabalhos da artista os atualizados: o primeiro andar do museu também foi transformado em outro, convidando o visitante a ocupar e ver o edifício, também, de outra forma. Na mostra, apesar de se apropriar do eixo original da arquitetura do edifício da Pinacoteca, a distribuição das obras sugere novas e diferentes formas de circulação, convocando o visitante a ter de escolher que rota seguir. Desse modo, ao mesmo tempo em que revisa a trajetória da artista e traz novos significados aos seus trabalhos, a exposição sugere ainda uma reflexão sobre o lugar e a história do museu através da ocupação do próprio espaço.
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A visitante Paula em instalação Paisagem para Exit III com Parede Niemeyer (Estação Luz) - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A visitante Paula em instalação Paisagem para Exit III com Parede Niemeyer (Estação Luz) – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Para a visitante Paula Alzugaray, o modo como a mostra extravasa as salas da exposição chama a atenção. “Você passar pelo corredor e o próprio ser uma obra em si, é surpreendente. Escapa qualquer perspectiva que você tenha ao entrar em um espaço de museu, onde você acha que vai encontrar cada coisa no seu lugar, uma vez que, aqui, as coisas se espalham, saem dos lugares, escapam.” O corredor transformado em obra, ao qual a visitante se refere, é o trabalho intitulado Parede Loos que, com suas listas pretas na parede, guia quem por ali passar.

A instalação nos corredores anuncia que, devido ao modo como o espaço foi ocupado, o visitante pode, além de acompanhar o percurso de exploração adotado pela artista desde o início de sua trajetória, vivenciar uma experiência reflexiva e de passagem. Com o espelhamento da instalação Paisagem para Exit III com Parede Niemeyer (Estação Luz), o octógono, delimitado, torna-se infinito. Esculturas em forma de objetos do cotidiano, como retrovisores, bancos e catracas convidam a se fazer uma pausa e quebrar o ritmo de circulação. Para os visitantes mineiros Thiago Victor Morais Ramos e Hannah de Assis Soares, a experiência valeu a pena. “São coisas muito curiosas que tiram a gente da rotina, mas que também remetem às coisas que estamos habituados”, afirmou Ramos.
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* As menções às falas de Ana Maria Tavares aqui utilizadas foram retiradas de texto que estará em catálogo bilíngue (português-inglês), previsto para ser lançado pela artista, em conjunto com a Pinacoteca, em fevereiro. O livro também conterá visões sobre a exposição, ensaios, críticas e depoimentos de artistas brasileiros contemporâneos contando como a obra de Ana Maria Tavares influenciou sua produção.

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Galeria de imagens No lugar mesmo

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Pergaminho (1991) - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Container, Escada e Logbook (1990) - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Coluna Niemeyer com Catraca (1997) - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Sinfonia Tropical para Loos I a VI (2014) e Coluna Niemeyer com Sofá e Espelho (1997) - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Fortuna (2009) - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Vista Geral da sexta sala - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Estudo para Airshaft - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Vista da sexta e sétima sala - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Os visitantes Thiago e Hannah em sala com a videoinstalação Deviating Utopias II (2015) - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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