A inquietude de Alex Flemming povoa os tapetes persas

O artista está sempre reinventando. A viagem agora está na intervenção “Anaconda”, na Casa-Museu Ema Klabin

Por - Editorias: Cultura
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Ouça no link acima entrevista de Alex Flemming no programa Via Sampa, da Rádio USP.
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A série traz serpentes de todas as cores que se destacam com a pintura acrílica metálica – Foto: Henrique Luz

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A arte de Alex Flemming está sempre procurando habitar superfícies inesperadas. Uma inquietude que foge da regra. Pinta sobre objetos em geral, como móveis, computadores, roupas e animais empalhados. Agora que o planeta vive as diferenças da multiculturalidade, escolheu pintar sobre tapetes persas – uma apropriação que traduz, como todas as suas criações, reflexões críticas.

A nova série Anaconda, que reúne pinturas sobre 13 tapetes persas de cores, desenhos e tamanhos diversos, está na Casa-Museu Ema Klabin. Nessa superfície tradicional da cultura persa e sobre o ritual do trabalho dos artesãos, Flemming desenhou serpentes. Os pigmentos de tinta acrílica foram desenvolvidos pelo artista no decorrer de dois anos. “Fiz vários testes para chegar a essa fórmula”, conta. “Pensei em utilizar a técnica do grafite, mas não gostei do resultado. Passei, então, às tintas acrílicas, com pigmentos metálicos que se fundem entre as tramas.”

O resultado provoca o visitante. As obras são para serem vistas e pisadas. E, como o próprio artista afirma, “causam um estranhamento”. Por que a serpente? Flemming deixa a leitura e a crítica por conta do público. “A cobra fascina pela beleza, pelo mimetismo da cultura persa. Mas quantas vezes pisamos em cobras e somos mordidos por elas? Ou então não sabemos onde elas estão?”
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Flemming apresenta a serpente integrada na trama do tapete persa – Foto: Henrique Luz

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A proposta de Flemming é que as cobras de sua arte possam encantar e, ao mesmo tempo, ser pisadas e apreciadas. “Eu acredito que as tintas terão a pátina do tempo. Vão se fundir e envelhecer com a trama criada pelos tecelões.”

Certo é que esses tapetes persas têm a mão e a sensibilidade do artista brasileiro, do arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. E também de um cidadão do mundo que aposta na trama da arte entrelaçando todas as culturas, todos os povos.
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“Quando lembro da FAU, dos seus professores e artistas, me dá vontade de voltar a ser estudante de novo.”

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Nos anos 1970, o estudante paulistano Alex Flemming, da FAU, iniciou a sua trajetória nas artes utilizando, ao mesmo tempo, pintura, fotografia, gravura e objetos. O caminho do artista e também do arquiteto foi se abrindo na diversidade. Como bem comentou o professor, arquiteto e artista Julio Katinsky: “A FAU forma pintores, escultores, gráficos, fotógrafos e também arquitetos”. Dessa regra Flemming, que foge das regras, faz parte.

Alex Flemming – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Há quase duas décadas, a emblemática mostra de 44 serigrafias de rostos anônimos e conhecidos expostas nas paredes de vidro da Estação Sumaré do Metrô, em São Paulo, surpreende. Está integrada no cotidiano da cidade. “Se eu não tivesse feito Arquitetura, com certeza não teria conseguido pensar essa obra no espaço”, diz. “Quando lembro da FAU, dos seus professores e artistas, me dá vontade de voltar a ser estudante de novo”, observa.

O conhecimento e a irreverência de Flemming transformam o viver em arte. Na série Solidão, pintou suas próprias camisetas, cuecas e também as malas que levaram o artista pelo mundo. Nelas, escreveu trechos de poemas de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes. Outra série inusitada foi a que apresentou na Bienal Internacional de São Paulo em 1991. “Foi quando o professor, cientista e sambista Paulo Vanzolini me deu os animais empalhados que seriam incinerados porque não tinham pernas, chifres. Eu os pintei e dei uma terceira vida a eles. A primeira foi na selva, a segunda nos laboratórios do Museu de Zoologia e a terceira foi quando viraram obras de arte.”

Serpentes de todas as cores encantam – Foto: Henrique Luz

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No final do ano passado, Flemming apresentou, com a curadoria de Mayra Laudanna, a mostra Retroperspectiva, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Refletiu sobre a circularidade da vida e da morte. “Tudo o que você faz é autorretrato. A arte não tem piedade”, afirma. “Você ou faz bem ou não faz. Ou você faz pensando em deixar resíduos ou não faz. Eu quero ser um artista que represente o século 21.”

Com esse conceito e atento aos rumos da sociedade contemporânea, o artista apresentou, naquela mostra do MAC, uma série que sugere o espaço de um cemitério. Porém, as lápides são 60 laptops, pintados de várias cores e com os nomes de seus donos. “Essas lápides são a representação da morte da tecnologia e da civilização”, afirma.

A exposição Anaconda, de Alex Flemming, fica em cartaz até 17 de dezembro, de quarta a domingo, das 14h às 17h, na Casa-Museu Ema Klabin (Rua Portugal, 43, Jardim Europa, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 3897-3232.

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