Estudos sobre efeitos do treinamento mostram que “genética favorável” não é tudo no esporte

Tipo de treinamento pode induzir à mudança no padrão de fibras musculares, para adaptação a provas de força ou resistência

Por - Editorias: Ciências
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Esteiras para pesquisas do Departamento de Fisiologia - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Esteiras utilizadas em pesquisas sobre a fisiologia dos atletas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O tipo de treinamento é um dos fatores que influenciam as características da musculatura dos atletas, conforme as provas que realizam, de força ou de resistência. Essa adaptação é definida como “plasticidade fenotípica” pelo professor José Eduardo Bicudo, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que pesquisa os fenômenos ligados à fisiologia do esporte. Os treinos podem determinar que as fibras musculares se contraiam mais rapidamente, como na corrida de 100 metros ou no arremesso de peso, em que a força é fundamental, ou que os músculos aumentem a capacidade de absorver e processar oxigênio, fundamental na maratona, que exige grande resistência. Mesmo em um esporte coletivo, como o vôlei, uma posição pode exigir mais elasticidade do que força.

Todos os seres humanos compartilham o mesmo genoma (genótipo). Entretanto, dependendo do ambiente em que a pessoa se encontra, o genótipo vai se expressar de diferentes maneiras (fenótipo). “Por exemplo, no caso de um esquimó que vive no Ártico, o clima frio induz a um menor desenvolvimento de glândulas sudoríparas do que em uma pessoa que reside em países tropicais, com temperaturas mais altas”, diz o professor. “No caso dos atletas, além da aptidão e do biótipo, o tipo de treinamento pode influenciar nas características da musculatura esquelética, em um processo chamado de plasticidade fenotípica”.

Para demonstrar a plasticidade fenotípica, Bicudo cita o exemplo de dois corredores do atletismo: o jamaicano Usain Bolt, especializado em provas de curta distância, como os 100 metros rasos, e o brasileiro Marilson Gomes dos Santos, que corre a maratona, prova com extensão de 42 quilômetros. “Bolt possui um biótipo longilíneo, adequado para provas de 100 e de 200 metros. São disputas em que o atleta precisa aumentar a força de aceleração em curto espaço de tempo”, conta. “Por isso, ele realiza um treinamento de força, de modo que as fibras musculares realizem contrações rápidas, que necessitam de pouco oxigênio para seu funcionamento. Numa corrida de 100 metros, que dura cerca de 10 segundos, o atleta consegue inspirar e expirar o ar não mais que uma vez.”

Professor José Eduardo Pereira Wilken Bicudo - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Professor José Eduardo Bicudo no laboratório – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No halterofilismo, o treinamento dos atletas também é voltado para o desenvolvimento de força. “Assim como os corredores de curtas distâncias, eles precisam colocar força máxima para um deslocamento muito curto, no caso, o movimento de erguer o peso com os braços. Desse modo, as fibras musculares também se adaptam para fazer contrações rápidas”, observa o professor. Entre os atletas do arremesso de peso, o treino é voltado para aquisição de massa muscular. “Isso permite com que exerçam uma força muito intensa em um tempo bastante curto, ou seja, no momento do arremesso.”

Resistência

No caso de Marilson Gomes dos Santos, a maratona, que costuma durar mais de duas horas, exige do atleta um custo energético muito elevado. “Para manter a potência durante 42 quilômetros, o atleta precisa de mais oxigênio, já que as contrações das fibras musculares precisam ser mais lentas”, diz Bicudo. Nas células do corpo humano há uma organela que é considerada a “usina energética do músculo”, a mitocôndria. “Para processar esse oxigênio, o treinamento pode induzir à formação de um maior número de mitocôndrias. Como o oxigênio chega às mitocôndrias pela corrente sanguínea, a rede de vasos capilares nos músculos também se amplia.”

O professor aponta que no vôlei o treinamento mescla força e resistência, já que as partidas não têm uma duração definida, que podem estender-se por várias horas. “No caso dos levantadores, o treinamento é um pouco diferente, pois é preciso mais elasticidade para lançar a bola, já os cortadores treinam mais a força para bloquear os adversários”, observa. “No futebol, antes havia uma maior variedade entre os jogadores, alguns tinham a explosão dos velocistas, outros tinham maior resistência, como os maratonistas. Hoje, a diferença entre os atletas é cada vez menor.”

Bicudo atua no Laboratório de Energética e Fisiologia Teórica (LEFT) do IB, que atualmente desenvolve dois projetos de pesquisa apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Um dos estudos é sobre a variabilidade cardíaca em função do exercício físico realizado e outro, sobre o efeito do treinamento físico no perfil hormonal de atletas, em especial quanto aos níveis de testosterona e cortisol, este último um hormônio associado ao estresse. Os testes são realizados com atletas em esteiras rolantes no laboratório.

Em parceria com os professores José Guilherme Chauí-Berlinck e Mário Sérgio Andrade Ferreira da Silva, Bicudo escreveu o artigo Para garimpar mais que ouro – uma análise do desempenho olímpico brasileiro, publicado na Revista da Biologia. O texto analisa o desempenho do Brasil nos jogos olímpicos entre 1976 e 2012 e conclui que, embora o País seja mais populoso do que metade das nações que costumam ficar entre as dez primeiras colocadas no quadro de medalhas, dificilmente consegue ficar entre os 20 primeiros colocados. “Isso acontece porque falta um maior investimento social para identificar nas escolas futuros atletas de modo amplo e sistemático”, ressalta. “Por ser a sede dos jogos de 2016, o Brasil poderá obter mais medalhas, porém sem valorizar a educação física escolar muitos potenciais serão desperdiçados.”

Mais informações: email jebicudo@usp.br, com o professor José Eduardo Bicudo

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