Estudo de ciências nas escolas precisa ser debatido, defende pesquisador

Tese de doutorado questiona a forma como é feito o ensino de ciências nas escolas

Por - Editorias: Ciências
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Seminário IFUSP1.jpg - Juliano Camillo deu seminário sobre o ensino de ciências para alunos do IF - Foto: Arquivo do pesquisador
Para o físico Juliano Camillo, ciências devem ser ensinadas de forma crítica e contextualizada – Foto: Arquivo do pesquisador

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Motivado pela crença de que a educação em ciências da natureza, bem como a forma como se lida com os problemas de aprendizagem em sala de aula, não pode ser determinada por manuais didáticos, o pesquisador Juliano Camillo questiona a naturalidade com que enxergamos o jeito de ensinar ciências hoje. Em trabalho intitulado Contribuições iniciais para uma Filosofia da Educação em Ciências, que recebeu menção honrosa da Capes, o pesquisador aponta que, quando a questão do porquê de se estudar física, por exemplo, é feita, a resposta imediata é a de que tal conhecimento é necessário para a participação em uma sociedade cada vez mais indissociável da ciência e tecnologia. O que sua pesquisa discute é que a perspectiva subjacente a essa resposta não observa como se dá a relação entre aprendizagem individual e a aplicação na coletividade, o processo de desenvolvimento humano e o lugar do conhecimento científico. “Temos um discurso de que o conhecimento científico leva necessariamente à atuação na coletividade, mas ao mesmo tempo só ensinamos conceito científico isolado do resto do mundo. É preciso problematizar essa relação”, ele explica.

Ancorado nas teorias do psicólogo russo Lev Vygotsky e em trabalhos do educador Paulo Freire, Camillo sugere que devemos parar de ver o conhecimento científico como algo imutável que um professor possui e pode passar ao seu aluno, mas enxergá-lo como algo que é também produzido enquanto está sendo consumido.

Além disso, Camillo lembra que a ciência, assim como as pessoas, não está isolada. Para ele, não faz sentido que se estude um determinado conhecimento científico sem estudar o contexto em que ele se insere. “Quando olhamos para a mecânica clássica, estamos olhando para o que está acontecendo na sociedade naquela época, como é que Newton formula aquelas ideias, qual o sentido daquilo para aquela sociedade”, explica, ao pontuar a importância e abrangência deste tipo de conhecimento.

“Não podemos simplesmente dizer que a mecânica está errada, já que temos agora a relatividade de Einstein. Ao refletirmos sobre mecânica clássica, devemos levar em conta o processo histórico de produção deste conhecimento, o lugar que ele ocupou e ocupa na sociedade, e o modo como foi revolucionário”.

Individual e coletivo

A Teoria da Atividade tem sua base no início do século 20 com o psicólogo russo Lev Vygotsky e foi desenvolvida posteriormente por muitos colaboradores, como Alexei Leontiev e Alexander Luria. A teoria é abrangente e possui diversas interpretações e ramificações, mas pressupõe que um indivíduo não é isolado no mundo, está inserido em uma rede de atividades. Em suma, a repercussão de uma determinada ação não deve levar em conta somente a reação desejada, mas também o contexto, o ambiente, e o processo histórico, por exemplo. Segundo ela, o ser humano se constitui como tal conforme interage, transforma, constrói e atua nessa rede em que está inserido. Influenciada por essa teoria, a pesquisa de doutorado de Camillo no Instituto de Física (IF) da USP propõe justamente que se questione a forma isolada com a qual são tratadas a individualidade e a coletividade no processo de ensino e aprendizagem de ciências, e a produção e o consumo de conhecimento.

Laboratório no Instituto de Física da USP - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Laboratório no Instituto de Física da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Camillo, que se formou em física na Unicamp, conta que a motivação para a tese de doutorado surgiu ainda quando ele fazia mestrado, também na USP. Ele explica que foi durante suas pesquisas para a dissertação que começou a se interessar pela relação entre individualidade e coletividade. “A minha questão naquele momento era experimentação, e como as pessoas enxergam as coisas de um jeito próprio. Em um experimento, por exemplo, eu via corrente elétrica, fóton, e os alunos não viam a mesma coisa, não enxergavam aquilo que eu estava enxergando”. Camillo descreve o processo de ensino-aprendizagem como algo binário onde só há espaço para certos e errados, se o professor diz que em determinado experimento é possível perceber a corrente elétrica, o aluno, passivo, deve aceitar e registrar, não há espaço para análises e debates.

Somado a isso, Camillo conta que o estudo das ideias de Vygotsky, Leontiev e da Teoria da Atividade começaram a despertar as questões trabalhadas em sua tese: “comecei a ter mais interesse em aprofundar essas questões. O que significa essa individualidade nesse conjunto teórico? O que significa aprender alguma coisa?”

Qual é o papel do conhecimento científico nesse processo de me constituir como ser humano?”

Camillo deixa claro que sua tese é um estudo de base, que não propõe soluções imediatas para as adversidades do ensino de ciências no mundo, mas que aponta, através da sugestão de articulação de uma filosofia da educação em ciências, para a necessidade de se debater as questões relacionadas aos problemas de aprendizagem sob uma nova ótica que enxergue o desenvolvimento humano como algo que acontece a partir da interação entre individual e coletivo, produção e consumo de conhecimento. “A redução que estamos fazendo não está explicando todo o processo. É preciso modificar a ótica pela qual estamos atacando o problema para entender como é que se dá a passagem do individual para o coletivo, e do coletivo para o individual”, ele explica.

A tese de Juliano Camillo teve orientação do professor Cristiano Rodrigues de Mattos, do IF, e pode ser acessada neste link.

Mais informações: e-mail julianocamillo@gmail.com

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