Efeitos das Olimpíadas na formação de treinadores foram modestos

De acordo com pesquisa, evento foi pouco aproveitado para aprimorar atividades educacionais e promover intercâmbio de experiências entre os técnicos

Editorias: Ciências - URL Curta: jornal.usp.br/?p=264741
Antonio Carlos Barbosa, diretor técnico da Seleção Brasileira de Basquetebol Feminino nos jogos –
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Três anos após os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o legado do megaevento para o Brasil ainda é tema recorrente de questionamentos e debates tanto pela mídia quanto pela academia. As discussões perpassam questões como a subutilização e a degradação das arenas olímpicas e os reais efeitos socioeconômicos no País. A docente da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, Ana Lúcia Padrão dos Santos, introduz ao debate uma perspectiva pouco considerada nesse legado: os efeitos dos jogos para a formação dos treinadores.

Para avaliar esses efeitos, a professora mapeou eventos voltados à capacitação de técnicos esportivos e que tiveram os Jogos Olímpicos como temática. Durante todo o ano de 2016, ela acompanhou 70 sites de federações esportivas, instituições de ensino superior do Rio de Janeiro e conselhos regionais e federal de Educação Física. Além disso, também entrevistou membros do Ministério do Esporte, pessoas ligadas à organização dos jogos, ao Conselho Federal de Educação Física e à Academia Olímpica Brasileira.

.

Site do Conselho Federal de Educação Física foi um dos analisados durante o estudo – Foto: Reprodução/CONFEF

.

Nessas entrevistas, foi unânime a opinião de que esses profissionais desempenham papel fundamental no esporte de alto rendimento. Apesar disso, os resultados demonstraram que o megaevento foi pouco aproveitado como oportunidade de aprimoramento das atividades. Apenas 20,4% dos eventos tabulados tiveram os jogos como contexto educacional. A docente destaca também a escassez de eventos internacionais e intercâmbios, embora muitos estrangeiros estivessem no País durante as fases de aclimatização e em eventos testes.

Além da quantidade reduzida de atividades educacionais que atendiam aos parâmetros estabelecidos pela pesquisa, a docente ressalta que os poucos eventos realizados abordaram temas já amplamente explorados na área, como biomecânica ou fisiologia. A discussão de assuntos relacionados às áreas de humanas, como sociologia do esporte ou filosofia, foi praticamente nula.

A docente defende que os Jogos Olímpicos poderiam ter se configurado como uma oportunidade de promover intercâmbio de experiências entre os técnicos, gerando debates de aspectos importantes da profissão dentro de cada modalidade. “Reconhece-se que sem treinadores esportivos não existem jogos olímpicos ou esporte, mas não se pensou em uma capacitação específica para eles nos anos que precederam o evento. Não houve aproveitamento de uma maneira sistêmica como aconteceu com as instalações esportivas e o apoio aos atletas”, explica.

Essa desvalorização da formação do técnico pode ser um dos fatores que influenciaram na subutilização dos espaços olímpicos pós-2016. Isso porque, sem o técnico, a ocupação desses espaços se torna mais difícil. A professora explica que “é necessário alguém para orientar uma equipe ou um atleta. Essa pessoa junta os espaços e as pessoas que irão praticar. Se não se pensa nesse profissional, ele inexiste e os espaços ficam vazios”.

.

Bernardinho, técnico da Seleção Brasileira de Voleibol Masculino
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

.

Entra também na pauta de reflexão da pesquisa a qualidade da formação no Brasil, onde o diploma de Educação Física ou Esporte é obrigatório para ser técnico, porém, segundo a pesquisadora, isso não faz com que os profissionais tenham uma sólida base de conhecimento. A docente explica que um dos problemas é que essa formação deveria ser realizada em longo prazo, mas muitos se limitam a replicar aquilo que eles próprios fizeram na condição de atletas.

Os resultados obtidos pela professora refletem uma desvalorização do papel do técnico, o que pode ser exemplificado pela ausência de uma comissão específica da categoria no Comitê Olímpico Internacional. “O treinador é subestimado na sua capacidade de ajudar a desenvolver o cenário esportivo e as confederações precisam olhar para o desenvolvimento do esporte de uma maneira mais ampla que simplesmente só recursos econômicos, tendo um planejamento estratégico para o desenvolvimento da modalidade de uma maneira mais substancial”, afirma a docente.

A pesquisa, que obteve apoio da Fapesp, foi relatada em cinco artigos publicados desde 2016. Em 2019, dois deles foram incluídos na Olympic Studies Centre (OSC), biblioteca virtual mantida pelo Comitê Olímpico Internacional. Os artigos incluídos na OSC podem ser acessados nos seguintes links: Olympic Games Rio 2016 : The Legacy for coaches (1)Olympic Games Rio 2016 : The Legacy for coaches (2)

Da Assessoria de Comunicação da EEFE

Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.


  •  
  •  
  •  
  •  
  •