Dez mil quilometros quadrados de recifes são descobertos na foz do rio Amazonas

Estudo mostra recifes em área improvável, onde rio altera entrada de luz, pH, salinidade e temperatura do mar

Por - Editorias: Ciências, TV USP
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Foto: Reprodução vídeo / Núcleo de Divulgação Científica da USP
Foto: Reprodução de vídeo / Núcleo de Divulgação Científica da USP

O impacto que o rio Amazonas causa ao desaguar no oceano Atlântico torna o ambiente marinho desfavorável para o crescimento de recifes. Os 175 milhões de litros de água doce carregados de sedimentos que o rio traz a cada segundo ao oceano diminuem a penetração de luz solar, alteram a salinidade e a acidez da água, além de promoverem um ambiente com queda mais brusca de oxigenação e de temperatura conforme a medição se aproxima do fundo do oceano. A pluma de sedimentos gerada pelo rio tem 1,3 milhão de km2 e flui predominantemente para o norte, atingindo áreas próximas ao Caribe.

Mesmo contra as probabilidades, 39 cientistas de nove universidades brasileiras e uma americana fizeram expedições ao local para mapear o fundo do oceano e coletar espécies da área. A surpresa foi a descoberta de um sistema maior e mais complexo do que sequer imaginaram: um conjunto de recifes com 1.000 km de extensão, ocupando profundidades entre 10 e 120 metros, com formações de carbonatos, rodolitos, corais, esponjas e algas com datas de 13 mil anos até os tempos atuais. A área também serve de alimentação e habitat para 73 espécies de peixes e seis espécies de lagostas.

michel-mahiques“É uma quebra de paradigma para a geologia, a ecologia e a biologia. No caso da geologia, teremos que repensar áreas antigas que descartamos como foz de rio por causa da presença de recifes. Esses dois aspectos não podem mais ser considerados excludentes”, afirma Michel Mahiques, geólogo do Instituto Oceanográfico (IO) da USP e professor responsável pelo mapeamento do relevo do fundo do mar.

O artigo com a descrição geológica e biológica da área chama-se An extensive reef system at the Amazon River mouth, e foi publicado na edição do dia 22 de abril pela Science Advances.

Localização

A faixa de recifes está no limite externo da plataforma continental e começa em continuidade ao parcel Manuel Luiz, recife há anos conhecido no litoral maranhense. Em seguida passa pelo litoral do Pará, do Amapá e chega à Guiana Francesa, ocupando uma área total de 9,5 mil km2.

O mapeamento foi feito com um sonar de varredura lateral de alta precisão, pertencente ao Instituto Oceanográfico da USP, necessário para calcular a profundidade e rugosidade do fundo do mar. A partir da coleta de dados, foram gerados mapas da área com diferenciação entre as unidades de recifes, a lama e a areia. Eduardo Siegle e Rodolfo J. S. Dias, oceanólogos do IO, também compuseram a equipe de coleta de dados geológicos e caracterização das estruturas. Algumas unidades recifais atingem 300 metros de comprimento e até 30 metros de altura.

Norte, Centro e Sul

A área foi subdividida em setor Norte, Central e Sul, diferenciados pela quantidade de pluma na água (mais abundante no setor norte); pela presença de rodolitos e formações calcáreas (mais abundantes ao norte, mais populadas por algas vivas ao centro e no sul); pela variedade de espécies de corais (mais rica ao sul); pela datação do início das formações (com cerca de 13 mil anos ao norte, até 150 anos ao sul); pelo relevo dos recifes (mais planos ao norte, mais pontiagudos ao sul) e pelo crescimento das estruturas (negativo ao norte – com mais perda que reposição de carbonato e calcário -, e positivo ao sul – com mais fixação que perda de carbonato e calcáreo).

Achado muito relevante: quimiossíntese

O Recife Amazônico também desafia a ecologia conhecida para os principais ambientes recifais do mundo, que se formam em águas mornas, de salinidade mais constante, com penetração de luz solar e geração de oxigênio por organismos que realizam fotossíntese. Já o sistema da foz do rio Amazonas se mantém vivo sob a camada de sedimentos a partir de microrganismos quimiossintetizantes – capazes de produzir energia com fontes minerais – que formam a base da cadeia alimentar.

Foto: Reprodução vídeo / Núcleo de Divulgação Científica da USP
Foto: Reprodução de vídeo / Núcleo de Divulgação Científica da USP

Após o resultado de análises moleculares e genéticas, novas espécies de microrganismos podem ser descobertas, segundo um dos autores sênior da pesquisa, Fabiano L. Thompson, da UFRJ. Esses organismos são capazes de sustentar um ecossistema relativamente complexo mesmo com pouca presença de luz solar. Thompson também alerta para a possibilidade de caracterização de novas espécies de esponjas e outros indivíduos coletados em duas expedições feitas ao local, em 2012 e 2014. As esponjas foram os organismos de abundância proporcionalmente maior neste recife que em outras formações recifais.

Mudanças globais nos oceanos

Outra característica que torna a descoberta ainda mais importante é o fato de que as condições encontradas na foz do Amazonas coincidem com algumas previsões de modelos de acidificação do oceano, levando em conta alterações globais. Algumas dessas previsões concluem pelo desaparecimento de recifes de corais em várias áreas do globo. A partir deste estudo, o recife Amazônico oferece o modelo de uma formação que pode ser resiliente no cenário de mudanças climáticas. Uma das hipóteses levantadas para recifes de corais é a mudança da dominância dos corais para esponjas com a possível sobrevivência do sistema no cenário de mudanças climáticas.

Ameaça atual

Apesar da descoberta recente, o sistema já é considerado em risco. Após a realização de leilões para extração de petróleo na área, em 2013, 80 blocos exploratórios foram adquiridos por companhias nacionais e internacionais, que já começaram as perfurações próximas aos recifes. Segundo o artigo, essa atividade em escala industrial representa o maior desafio para a manutenção do Recife Amazônico e exige estudos mais completos sobre o impacto ambiental e social da retirada de petróleo no local.

Ana Paula Chinelli / Núcleo de Divulgação Científica da USP

Mais informações: email divulgacaocientifica@usp.br

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