Transformação do espaço do museu expande seu potencial

Artigo propõe reflexão sobre novas ações dos espaços dos museus, destacando o da Língua Portuguesa e o do Futebol

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Panorama do edifício da Estação da Luz onde se encontra o Museu da Língua Portuguesa – Foto: Jefferson Pancieri/PortoBay Hotels & Resorts via Wikimedia Commons / CC BY 2.0

Foi-se o tempo em que museu era sinônimo de “coisa antiga”. Hoje, os curadores se valem de estratégias multimídias para, ao mesmo tempo, informar, seduzir e divertir o público com os incontáveis recursos cenográficos e interativos que a tecnologia trouxe para esses espaços: vídeos, jogos, enfim, ações integrativas educacionais: “projeções, arquivos de áudio e vídeo, telas que respondem ao toque, espetáculos de luz e som“,  instrumentos que também representam um novo olhar em relação à preservação patrimonial. O artigo de Bianca Manzon Lupo, publicado na revista Pós Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP, é a proposta de reflexão sobre a transformação e as novas ações dos espaços dos museus, destacando o Museu da Língua Portuguesa e o Museu do Futebol, exemplos que mostram as novas relações entre público, espaço arquitetônico e as tecnologias modernas.

Essas mudanças, se, por um lado, servem aos museus focados na preservação do patrimônio imaterial, com auxílio de elementos como sons, vídeos, trechos de músicas, depoimentos, narrativas orais, “objetivando e incentivando a constante inovação por meio da experimentação estética”, por outro lado, surgem questões ainda não respondidas: no caso dos museus sem acervo, compostos de arquivos digitais, textos ou banco de dados, imagens, registros sonoros, surgem as perguntas: “O acervo digital designa, de fato, um campo de ação museológica? E o espaço da arquitetura, como fica? Será mesmo possível abandonar a existência de um acervo material em um museu? Quais as consequências dessa opção em relação à preservação patrimonial?”.

Interior do Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo – Foto: Ana Paula Hirama via Wikimedia Commons / CC BY-SA 2.0

Os novos museus, para a autora, embora “assumindo características de produto cultural relacionado às sociedades de massas – sendo absolutamente populares e amplamente visitados nos últimos anos”, procuram facilitar a comunicação e o diálogo com o público, na intenção de fazer do museu “um espaço lúdico e voltado não só à cultura, mas também ao lazer, diversão e entretenimento”. Por sua vez, a arquitetura também pode estimular a livre escolha do visitante proporcionada por esquemas de circulação não dirigida, como se observa no Museu da Língua Portuguesa e no Museu do Futebol, locais que permitem acomodar atividades diferentes no mesmo espaço. Segundo a autora, o museu que se está discutindo não se constitui a partir de uma “coleção de objetos”, aproximando-se dos conceitos de “museu relicário” ou “museu depósito”, mas se configura como um espaço capaz de articular diferentes tipos de conteúdos, “possibilitando sua livre apropriação pelo público e sendo capaz de romper fronteiras espaço-temporais”.

Sala das Copas do Mundo do Museu do Futebol – Foto: Reprodução / Juan Guerra / Museu do Futebol

Ao lado dessas questões, destaca-se o papel da arquitetura, a importância da edificação e da “presença” do museu  e suas potencialidades  artísticas. Atualmente, de acordo com a autora, a presença física dos museus gera interesse por sua visitação e, além disso, favorece “a captação de investimentos para ações de requalificação dos edifícios ou revitalização de espaços públicos adjacentes”. Nesse contexto, o museu pode ser visto como espaço social, já que a localização dos museus ocorre em “edifícios de interesse histórico e arquitetônico, mas também a ênfase curatorial e expográfica dada a esse aspecto em salas que celebram o próprio edifício”.

Vista da fachada do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido por Pacaembu – Foto: Heitor Carvalho Jorge via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

Percebe-se que, apesar das críticas aos novos museus, a interação entre arquitetura, museografia, cenografia e tecnologia expográfica acaba gerando, também, espaços de considerável expressão plástica e artística, como a Praça da Língua, no Museu da Língua Portuguesa, e a Sala da Exaltação, no Museu do Futebol.  Para a autora, “desfaz-se, desta maneira, a hierarquização museu-público ao passo que o visitante é incorporado aos processos de produção artística e de conhecimento”, salientando que hoje se procura, ao mesmo tempo, democratizar e divulgar o conhecimento, atraindo investidores e patrocinadores para os museus e suas ações. Porém, é preciso que se conscientize o público,  alertando-o para a responsabilidade social que o museu contemporâneo suscita e o desafio que se configura perante a sedução e o deslumbre que as novas tecnologias podem provocar. A reflexão sobre os novos espaços precisa levar em conta “a preservação patrimonial e quais as possibilidades abertas com esse novo tipo de abordagem, seja em termos artísticos como de produção e difusão de conhecimento”.

Bianca Manzon Lupo é arquiteta e urbanista, mestranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP,  na área de concentração História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo, na linha de pesquisa Teoria e História das Artes; é filiada ao Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus (ICOM-BR).

LUPO, Bianca Manzon. Arquitetura, acervo e público no museu contemporâneo. Pós – Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP, São Paulo, v. 24, n. 42, p. 32-45, abr. 2017. ISSN: 2317-2762. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/posfau/article/view/111216>. Acesso em: 18 maio 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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