“Slam” é voz de identidade e resistência dos poetas contemporâneos

Poesia falada criada nos anos 1980, em Chicago, chegou ao Brasil e reivindica cultura jovem, popular e negra

Por - Editorias: Ciências Humanas
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O slam é um grito, atitude de “reexistência”, termo criado com a fusão das palavras existência e resistência – Foto: Pixabay / CC0

A poesia falada e apresentada para grandes plateias não é um fato novo,  porém, a grande diferença é que hoje a poesia falada se apresenta para o povo e não para uma elite — estamos falando da poesia slam. Essa palavra surgiu em Chicago, em 1984, e hoje a poetry slam, como é chamada, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate. Slam é uma expressão inglesa cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, explica Cynthia Agra de Brito Neves, em artigo recém-publicado na revista Linha D’Água. Nas apresentações de slam o poeta é performático e só conta com o recurso de sua voz e de seu corpo.

A poetry slam, também chamada “batalha das letras”, tornou-se, além de um acontecimento poético, um movimento social, cultural e artístico no mundo todo, um novo fenômeno de poesia oral em que poetas da periferia abordam criticamente temas como racismo, violência, drogas, entre outros, despertando a plateia para a reflexão, tomada de consciência e atitude política em relação a esses temas. Os campeonatos de poesias passam por etapas ao longo do ano, de fevereiro a novembro, são compostos de três rodadas e o vencedor, escolhido por cinco jurados da plateia, é premiado com livros e participa do Campeonato Brasileiro de Slam (Slam Br). O poeta vencedor dessa etapa competirá na Copa do Mundo de Slam, realizada todo ano em dezembro, na França.

Os campeonatos de slam no Brasil foram introduzidos por Roberta Estrela D’Alva, a slammer (poetisa) brasileira mais conhecida pela mídia e que conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de Poesia Slam 2011, em Paris. Outra presença expressiva no assunto é Emerson Alcalde, fundador do Slam da Guilhermina, entrevistado pela autora em maio deste ano na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Segundo ele, “promover a poesia oral, falar poesias, ler, escrever, promover batalhas de performances poéticas, é transformar os slams em linguagem” e, pensando nisso, levou o slam às escolas, pois “poesia é educação”.

Para autora de estudo, ao romper com a linguagem culta, a literatura “marginal e periférica” do slam incomoda quem valoriza somente os parâmetros tradicionais – Foto: Pixabay / CC0

Cynthia Agra de Brito salienta que os slammers querem ser “considerados escritores como quaisquer outros autores nacionais”, pois essa literatura “marginal e  periférica” rompe com a linguagem culta e incomoda quem apenas  valoriza  parâmetros tradicionais literários. O slam é um grito, atitude de “reexistência”, termo criado com a fusão das palavras existência e resistência, de acordo com a professora Ana L. S. Souza. O artigo ressalta também a importância de se levar os slams para as escolas, na medida em que forma alunos leitores e escritores conscientes, dispostos a reivindicarem mudanças educacionais e sociais.

É fundamental o papel da escola na disseminação dos “slams”, pois por meio deles os alunos expressam “seus modos de existir” e suas reivindicações por “uma cultura jovem, popular, negra e pobre, de moradores da periferia, bem diferentes do gosto canônico, branco e de classe média”. Ao recriarem a cultura oficialmente escolar letrada, esses alunos se tornam “agentes de letramentos de reexistência”, e os slams, dessa maneira, são seus porta-vozes, pelos quais demonstram sua revolta, sua identidade e resistência. A autora finaliza afirmando que “é preciso resistir para existir. Poesia é reexistência”, enfatizando o desafio com que se deparam as escolas diante dessa nova poesia contemporânea.

Cynthia Agra de Brito Neves é professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

NEVES, Cynthia Agra de Brito. Slams – letramentos literários de reexistência ao/no mundo contemporâneo. Linha D’Água, São Paulo, v. 30, n. 2, p. 92-112, out. 2017. ISSN: 2236-4242. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/134615>. Acesso em: 8 nov. 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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