Psicólogo analisa os muitos significados da “preguiça”

No estudo “Ensaio sobre a Preguiça”, foi possível identificar que a palavra tem outros sentidos, ligados a sonhos, tristezas e até ao heroismo

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Foto: Lamazone via VisualHunt.com
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É hora de levantar. Mas em alguns dias, o sono ou o cansaço nos impede de cumprir esse ato “simples” e, na maioria das vezes, obrigatório. E esse sono e cansaço, muitas vezes, é chamado de preguiça. Ela pode ser semelhante a uma indisposição, ou pode surgir no meio de um dia de trabalho tomando nosso tempo produtivo e nos levando a pensamentos ociosos.

A definição de preguiça no Dicionário Aurélio online é: “substantivo feminino que indica propensão para não trabalhar; demora ou lentidão em agir; gosto de estar na cama, de se levantar tarde”. Mas será que podemos simplesmente encerrar assim a questão do que vem a ser a “preguiça”? Para o psicólogo Paulo Emílio Pessoa Lustosa Cabral, a preguiça tem até sobrenomes. “Ela tem mais significados”, afirma. Cabral estudou o tema e apresentou no Instituto de Psicologia (IP) da USP a pesquisa Ensaio sobre a preguiça, com orientação da professora Ana Maria Loffredo.

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Foto: Visualhunt

Tudo começou num trajeto de ônibus por São Paulo. Foi quando o psicólogo Cabral foi despertado para estudar a preguiça, principalmente após ter atendido um paciente que, segundo ele, o ensinou muita coisa. “Mesmo ainda, na época, sem ter uma experiência clínica, eu já vinha me deparando com uma articulação da psicanálise com a teoria social”, conta.

Seguindo as sugestões do seu supervisor clínico, o professor do IP Daniel Kupermann, ele iniciou a leitura do livro Eros e Civilização, do sociólogo Herbert Marcuse. Cabral conta que já lia sobre ambos os temas, mas a experiência clínica lhe trouxe o elo que faltava.

“Lembro o momento, não tanto de quando comecei a ler tal livro, mas quando, digamos, caiu a ficha sobre o que eu queria pesquisar”, conta Cabral. Foi ao ler o que Marcuse chama de “princípio de desempenho”, uma crítica que o autor faz à psicanálise. “E enquanto lia a respeito disso, foi se formando na minha cabeça a ideia do funcionário do mês. Como aquele das fotos penduradas nas paredes do McDonald´s”, recorda. E foi aí que, como num devaneio e numa descoberta, mas sem muita forma, surgiu a ideia de que valia a pena se pensar na preguiça.

Coisa de pobre?

“Foi algo como um protesto, a princípio. Parecia ali que a preguiça era algo ignorado pela sociedade, de maneira geral, como sendo algo bobo, nem muito ruim, nem valorizado, mas simplesmente ignorado”, considera o psicólogo. Refletindo mais detidamente, ele percebeu que a preguiça é, na verdade, uma das coisas mais rejeitadas e mais aceitas. Conhecida por todos e demagogicamente condenada. E surgiram os questionamentos: “Preguiça é só quando é do pobre? E o ócio dos ricos? Certamente ela é louvada por muitos, mas quantos de nós conseguimos viver a preguiça sem culpa? Quantos de nós conseguem sequer trabalhar?”.

A preguiça é como uma ferida escondida, a preguiça coça debaixo do manto do tabu do trabalho.

Para o psicólogo, a preguiça é como “uma ferida escondida, a preguiça coça debaixo do manto do tabu do trabalho”. E o lugar que ela ocupa no imaginário brasileiro, como ele explica, é surpreendente. “Creio que todos nós temos alguma espécie de conhecimento a respeito dela, seja a experimentando ou a repelindo.”

Sobrenomes da preguiça

Cabral estabeleceu algumas figuras específicas que, como ele mesmo diz, podem ser como os sobrenomes da preguiça: a preguiça-tristeza, a preguiça-heroica e a preguiça-onírica. “Na verdade, essa divisão, que tenta expressar os diversos significados que a preguiça tem, foi resultado da pesquisa como um todo e não tem relação direta com a psicanálise”, explica.

A divisão, segundo ele, mostra três visões frequentes da preguiça: aqueles que a vinculam com as depressões de maneira geral; os que a relacionam com o trabalho e a criatividade; e os que exploram o caráter mais extremo do que seria “fazer nada”.

Foto: : Swperman via VisualHunt.com
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Para falar sobre a preguiça-tristeza, Cabral recorre à lista dos sete pecados capitais da Igreja Católica. Antes do século 13, a preguiça era denominada acídia, termo não mais utilizado hoje em dia, segundo o psicólogo. “A acídia não é exatamente uma falta de vontade de trabalhar, nem é uma preguiça que espera que as coisas aconteçam sem esforço.”

Segundo ele, a acídia seria como uma melancolia severa que assombrou principalmente os padres e os monges que residiam nos mosteiros cristãos, e para quem o caminho da fé se revelou ao mesmo tempo um fardo e uma fascinação. “A acídia é uma inquietação do corpo e da mente que impede a pessoa de se focar em qualquer assunto ou objetivo.”

Já a expressão preguiça-heroica, como explica Cabral, se refere ao ócio digno e curtido de maneira gratuita, e não se refere ao ócio como o tempo que sobrou depois do trabalho, como um resto. “A preguiça-heroica seria o conteúdo mais importante de nossas vidas e se combinaria com o trabalho em uma sociedade mais igualitária. Ou seja, a preguiça-heroica não é um excesso de tempo que sobra depois de trabalhar, um simples lazer, mas sim uma nova maneira de fazer as coisas que julgamos importantes, pondera.

Ao citar a preguiça-onírica (onírico significando aquilo que é relativo aos sonhos), Cabral conta que pesquisou uma espécie de lenda medieval europeia que falava de uma terra chamada Cocanha, ou país das delícias, que seria como um Carnaval eterno. “Uma terra onde há festa e farra permanentes, sem o incômodo da passagem do tempo, do envelhecimento e da morte. Lá, quem não tem emprego ganha dinheiro e quem tem a ousadia de trabalhar vai preso – a única lei em uma terra que em tudo o mais não conhece regulação, moderação nem proibição. O único problema da Cocanha é que ela não existe!”, lembra, ressaltando que “pelo menos não existe a todo momento. Afinal, sabemos muito bem o quanto é prazeroso deitar suspenso numa rede e não fazer nada por alguns instantes”.

Mais informações: com Paulo Emílio Pessoa Lustosa Cabral, pelo email pelcabral@gmail.com

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