Pesquisa propõe modelo para fazer do esporte ferramenta de inclusão

Pedagogia centrada no aluno, afetividade e vivência comunitária do esporte estão entre os elementos destacados

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Novo modelo propõe atenção a aspectos que contribuem para o empoderamento dos jovens – Foto: Carla Luguetti/Arquivo pessoal

Pesquisa da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP desenvolveu um modelo pedagógico para aplicação em projetos de inclusão social que buscam promover mudanças na realidade de jovens em situação de vulnerabilidade. O estudo foi realizado em 2013, em um bairro periférico de Santos, no litoral de São Paulo, e incluiu a participação de adolescentes com idade entre 13 e 15 anos. A pesquisa fez parte de uma tese defendida por Carla Luguetti, sob orientação de Luiz Dantas, da EEFE, com a cooparticipação de pesquisadores da University of Bedfordshire, Inglaterra, e da New Mexico State University, EUA.

Após levantamento de metodologias pedagógicas voltadas para aplicação em projetos esportivos em comunidades carentes, Carla verificou que era necessário criar um novo modelo que contribuísse para o empoderamento dos jovens. Em trabalho de campo, a pesquisadora observou treinos e propôs diálogos semanais com os jovens. Com os treinadores, debateu formas de aperfeiçoar o treino e a relação interpessoal com os adolescentes. A partir desta proposta, surgiram cinco elementos críticos que delinearam a pesquisa:

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Fizeram parte do projeto jovens entre 13 e 15 anos que jogavam futebol em bairro periférico de Santos, litoral de São Paulo – Foto: Carla Luguetti/Arquivo pessoal

• A importância de uma pedagogia centrada no aluno. Capacidade e vontade dos treinadores para ouvir os jovens e encontrar formas de ensino que atendam às necessidades deles;

• Abordagem ativista baseada em questionamentos, processo por meio do qual os jovens podem nomear suas experiências e, com o auxílio de adultos, transformar sua situação e gerar oportunidades quando possível;

• Ética do cuidado: respeito aos jovens e afetividade do treinador. Para os jovens, o treinador deve ser “como um psicólogo”, ou “alguém que olha nos olhos e ajuda outras crianças a não ir para a vida do crime”;

• Atenção para a comunidade. Para lidar com jovens residentes em áreas de vulnerabilidade social, é essencial estar ciente dos problemas com que se deparam à prática de esportes.

• Comunidade do esporte: treinadores, jovens, pais e pessoas responsáveis pelo projeto esportivo devem trabalhar em conjunto para ajudar os jovens a criar oportunidades e mudanças.

Nos diálogos com os adolescentes, ficaram evidentes alguns problemas como a violência entre os próprios alunos, o tráfico de drogas – muitas vezes dentro da quadra e durante a aula – e a carência de saneamento básico. Os próprios alunos identificaram, por exemplo, a violência como um aspecto negativo do treino e propuseram mudanças de comportamento neste sentido. Em determinado momento, os meninos assumiram um papel de liderança e auxiliavam nos treinos de outros alunos menores. Isso fez com que eles reconhecessem a necessidade de mudar de atitude. Ao final de um ano, os alunos passaram a se comunicar melhor com os outros e a ver os erros como possibilidades de aprendizado, além de terem adquirido mais responsabilidade.Um dos desafios enfrentados pela pesquisadora foi a dificuldade para estimular os jovens a expressar seus sentimentos e suas opiniões.

Carla ressalta que os resultados de aprendizagem podem variar de acordo com os alunos e que o modelo de ensino ainda precisa ser validado. Segundo a pesquisadora, é necessário observar a eficácia do método em outros contextos, com outras pessoas e verificar a forma de aplicação dos elementos críticos levantados pela pesquisa. Carla vai dar continuidade ao seu trabalho atuando diretamente nos treinos em um projeto que será desenvolvido no Guarujá, na Universidade de Ribeirão Preto, onde leciona atualmente.

A tese de doutorado de Carla, defendida em 2014, gerou quatro artigos em revistas internacionais. Um deles receberá importante prêmio na área da pedagogia do esporte, outorgado pela American Educational Research Association (Aera). Publicado na revista Physical Education and Sport Pedagogy, o artigo The life of crime does not pay; stop and think!: the process of co-constructing a prototype pedagogical model of sport for working with youth from socially vulnerable backgrounds foi escolhido como melhor artigo do ano por meio de votação entre 93 doutores da área. O prêmio será entregue no congresso Aera 2017 Annual Meeting, a ser realizado entre os dias 27 de abril e 1º de maio em San Antonio (Estados Unidos).

Da Seção de Relações Institucionais e Comunicação da EEFE

Mais informações: e-mail luguetti@usp.br, com Carla Luguetti

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