Perseguidas, associações mostram a luta feminina pós-Estado Novo

Livro apresenta os discursos das militantes de movimentos políticos e sociais do período e a repressão policial sofrida

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Militantes de movimentos variados, essas mulheres “tiveram muita coragem em enfrentar uma sociedade extremamente conservadora, de se colocar como protagonistas da história e das suas escolhas”, afirma autora de livro sobre o período. Na imagem, Caminhos da liberdade, ilustração da Federação das Mulheres do Estado de São Paulo – Foto: Reprodução / Autor não identificado / Federação das Mulheres do Estado de São Paulo /Apesp/SP

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As militantes brasileiras que atuaram entre 1945 e 1964 se tornaram protagonistas do livro Invadindo o mundo público: Movimentos de mulheres (1945-1964), da historiadora Marcela Cristina Oliveira de Morente. A obra é fruto da dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 

Em sua pesquisa, Marcela Morente retrata o papel de associações femininas do período, tendo como principal foco a Federação das Mulheres do Estado de Paulo. Essas militantes não se enquadraram no padrão estabelecido pela sociedade, no qual as mulheres deviam exercer funções apenas na esfera privada, como boas esposas, donas de casa e mães. Por enfrentarem tais imposições, foram perseguidas pelo Estado e se tornaram alvos de investigações policiais. 

“Chama atenção o período de 1945-64 porque é conhecido pelos historiadores como um período de normalidade democrática. Teve eleição e escolha de presidente, então, as instituições democráticas voltaram a funcionar, mas o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) continuou perseguindo”, explica a historiadora. O órgão havia sido instrumento de repressão durante a ditadura do Estado Novo (1937-45), de Getúlio Vargas. 

Panfletos “Ao coração das mães brasileiras” (esq. / Apesp/SP) e “Convite às mulheres de São Paulo e ao povo em geral” (dir./ Apesp/SP). Ao centro, capa do jornal O Momento Feminino, de 1947 (Fundação Maurício Grabois) – Imagens: Reprodução

Além de abordar os discursos das associações, a pesquisadora também apresenta a visão de policiais sobre essas mulheres “desviantes”. Para isso, utilizou a documentação do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP) e impressos femininos. A partir dos arquivos, pôde desvelar como as mulheres divulgavam suas lutas, já que os panfletos, jornais, cartas, fotografias e convites para piqueniques e bailes foram apreendidos como provas de seus delitos. “Divulgar as suas ideias, contestar o Estado publicamente, ter um texto que pudesse passar de mão em mão era extremamente perigoso. Por isso, a perseguição intensa desses impressos, para que não pudessem ser multiplicadores das ideias femininas”, afirma. 

Nos registros da polícia, as organizações eram sempre associadas ao comunismo. “Qualquer pessoa que se colocava contra o governo era vista como um potencial comunista”, pontua a pesquisadora. Ela explica que, apesar de algumas integrantes serem realmente comunistas, a análise dos estatutos e textos dos movimentos femininos mostra que nem sempre a ideologia era mencionada. Ao contrário, algumas reivindicações eram mais ligadas à classe média.

Cartaz de divulgação da primeira convenção feminina da Federação das Mulheres do Estado de São Paulo (Apesp/SP), recorte do jornal A Noite de “A Blague do feminismo” (União Feminina do Brasil) e panfleto “Minha amiga, você sabe que existe petróleo no Brasil” (Prontuário 1975 / Rosa Brickmann / Apesp/SP) – Imagens: Reprodução

Apesar da transgressão para a época, as associações não podem ser consideradas puramente feministas por não terem se norteado apenas por causas sobre as mulheres. Suas pautas envolviam desde o planejamento familiar e o direito de igualdade de salário até a queda do custo de vida, com discussões sobre o aumento do preço de determinado produto. 

A  Federação das Mulheres do Estado de Paulo, maior federação feminina do período, teve mais de 7.500 filiadas na década de 1950. Suas estratégias de divulgação eram variadas: faziam encontros, passeatas e jantares, além de terem o jornal Momento Feminino, com circulação nacional. 

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Por que retratar a história dessas mulheres

Negligenciada pela historiografia por muito tempo, a mulher passou a ser entendida como sujeito político e participante das mudanças sociais somente após a ascensão do movimento feminista, na década de 1970. No Brasil, o retrato da trajetória de mulheres se iniciou apenas nos anos 80, sendo desconsiderada a história de militantes em épocas anteriores. Para Marcela, as associações femininas podem ser consideradas “mães” do feminismo no Brasil, servindo como inspiração para movimentos sociais posteriores. 

“São mulheres que tiveram muita coragem em enfrentar uma sociedade extremamente conservadora, de se colocar como protagonistas da história e das suas escolhas”, conclui a historiadora. 

A dissertação foi defendida em 2015 e teve orientação da professora Maria Luiza Tucci Carneiro. 

Invadindo o mundo público: Movimentos de mulheres (1945-1964), de Marcela Cristina Oliveira de Morente, Editora Humanitas, 170 páginas, R$ 40,00.

Mais informações: e-mail marcelausp@yahoo.com.br 

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